09 de julho de 2026
Geral

Estudantes fecham Getúlio contra corrupção no Senado

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

“Cidadão, vem para a rua, que esta luta também é sua”. O grito de protesto poderia ter sido retirado dos idos de 1984, quando milhares de pessoas se reuniram em um comício no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em favor das eleições diretas. Ou então de uma das passeatas promovidas pelo movimento dos estudantes caras-pintadas, que pediam, em 1992, o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. No entanto, esta e outras frases foram entoadas na tarde de ontem, em Bauru.

Cerca de 150 jovens, em sua maioria entre 15 e 17 anos, ganharam a avenida Getúlio Vargas em uma passeata contra a absolvição do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), do primeiro processo de cassação do mandato por quebra de decoro parlamentar, na semana passada.

Vestidos de preto, com narizes de palhaço, apitos, cartazes, cruzes pretas e até mesmo um megafone, eles se aglomeraram na altura da quadra 15 e partiram, em uma manifestação pacífica de duas horas de duração, até a rotatória próxima à sede da Polícia Federal. Depois voltaram e encerraram a caminhada em frente à Câmara Municipal, onde fixaram as 46 cruzes pretas que empunharam durante o protesto para simbolizar os 40 votos que absolveram Calheiros, no último dia 12, e os seis senadores que se abstiveram de votar.

A manifestação partiu de uma iniciativa dos próprios estudantes, que contaram com a ajuda de professores para orientar sobre as medidas a serem tomadas para a realização da passeata. Em apenas quatro dias de preparativos, conseguiram mobilizar mais de uma centena de pessoas.

“Comunicamos a Polícia Militar, a mídia e a Emdurb. Também fizemos a divulgação através da Internet, enviando e-mails, pelo Orkut e através do MSN”, explicou André de Carvalho Sales Peres, 17 anos, um dos organizadores do protesto.

Indignação

O principal objetivo do movimento, segundo os estudantes e organizadores Bruno Rodrigues, André Mello de Campos Arruda e Giovanni Martins Piovesan, todos com 17 anos, é demonstrar a indignação da juventude diante dos escândalos de corrupção no País e conscientizar a população quanto ao seu papel na luta por seus direitos.

“É fácil só criticar, mas nós estamos aqui para mostrar que estamos fazendo alguma coisa, que somos uma força coercitiva”, observa Arruda, ressaltando que somente através da educação a população será capaz de escolher melhor seus representantes. “Para mudar o País, o cidadão precisa conhecer e exigir seus direitos, visando uma política com menos corrupção, e isso só se dá através da conscientização da população”, finaliza o colega Rodrigues.

Trânsito

Mesmo com a lentidão do trânsito na avenida tomada de jovens, a funcionária pública Marília Bertolaso do Valle, 44 anos, que passava de carro pela via na hora do protesto, mostrou-se simpática à manifestação e acompanhou, com toques na buzina, o ritmo dos gritos dos jovens.

“É a melhor coisa que eles estão fazendo. É por aí que começa a consciência do cidadão. Eu participei do movimento das Diretas Já e tinha pouco mais de 20 anos. É muito importante essa mobilização”, acredita.

De acordo com Roberto Relvas, ex-vereador e professor de cursinho preparatório para vestibular que também prestigiou a manifestação, a reação dos estudantes é reflexo da conscientização dos jovens quanto à impunidade gerada por manobras políticas arquitetadas nos bastidores do poder.

“O mais importante é que eles entendam que toda vez que ocorre um caso de corrupção no País, mais uma criança vai para a rua. Enquanto as pessoas não associarem a corrupção com as coisas ruins que acontecem no seu dia-a-dia, vai continuar sendo assim”, afirma.

____________________

Véspera

A data da manifestação foi marcada para ontem por ser a véspera da votação do segundo processo contra o senador Renan Calheiros, em que ele é acusado de beneficiar a empresa Schincariol junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e de grilagem de terras em Alagoas em parceria com seu irmão, o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL).

Segundo os estudantes que organizaram o protesto, a idéia é promover mais passeatas se o político for absolvido nos outros três processos a que ainda irá responder. “Sempre que houver casos de impunidade como esses escândalos absurdos que estamos vendo hoje, pretendemos nos mobilizar”, destaca André de Carvalho Sales Peres.