Com a voz rouca, o vocalista da Vanguart, Hélio Flanders, atende o telefone. “São Paulo, né?”, diz, justificando o resfriado. Com seis meses de Capital, o músico analisa a distância da terra natal: “Quanto mais a gente está aqui, mais perto de Cuiabá a gente está, seja em pensamento, nos amigos que sente falta e na inspiração para fazer música”, desabafa.
Fora os espirros e a saudade, a maior cidade do Brasil também trouxe o TIM Festival. “Se a gente não estivesse aqui, tenho certeza de que muita coisa que está rolando não teria rolado”, confessa Flanders. Uma dessas coisas é a apresentação ao lado de outros novos nomes do rock brasileiro, Montagne e Del Rey, no dia 26 de outubro na Marina da Glória, no Rio de Janeiro.
O convite para o TIM Festival partiu de um boato bem-sucedido. Depois de várias ligações de jornalistas sedentos por conferir a participação do grupo mato-grossense e divulgar a programação oficial do evento, a própria assessoria da TIM entrou em contato. “Daí a gente descobriu que tinha um pouco de verdade nessa história”, coloca.
Se vai ser o primeiro grande show da Vanguart, o vocalista faz pouco caso. “Não sei, a gente já fez coisas importantes, festivais bacanas pelo Brasil. Mas o TIM, com certeza, é uma visibilidade maior, um festival internacional. É mais um grande passo para a banda”, pondera.
Só neste ano, o grupo participou da homenagem a Raul Seixas pelo programa “Som Brasil”, da Globo, e do festival Rec-Beat, em Recife, onde tocou para mais de 10 mil pessoas. Agora - mais precisamente hoje - a Vanguart espera o resultado do Vídeo Music Brasil, onde concorre com mais quatro bandas na categoria Aposta MTV. No ano passado, eles competiram com “Cachaça”, como melhor clipe independente.
Na apresentação do grupo no site oficial da emissora, está o seguinte comentário: “Além dos fãs, os caras do Vanguart conquistaram a crítica, que vive exaltando a qualidade musical do quinteto”. Mas, apesar da consideração pelas opiniões de sujeitos respeitados do meio, Flanders evita os comentários sobre a banda. “Cada vez leio menos (as críticas), porque senão você não faz nada”, alega. Quanto às cobranças, ele prefere outro nome. “A responsabilidade é maior, mas a gente procura fazer as coisas com a mesma leveza de antes”, afirma.
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Revolta com o rock
De maneira despretensiosa, por volta de 2002, Hélio Flanders gravou a primeira versão da futura Vanguart numa fita caseira, acompanhado apenas de um velho violão. A música “Ready To...” trazia folk e brit rock, as referências iniciais do grupo, com influências assumidas de Johnny Cash, Bob Dylan, The Velvet Underground, Neil Young, The Beach Boys e Joni Mitchell.
Depois vieram os nomes de David Dafre (guitarra e voz), Reginaldo Lincoln (baixo e voz), Luiz Lazarotto (teclados) e Douglas Godoy (bateria) para integrar o grupo, que existe oficialmente desde 2005. Desde então lançaram dois álbuns, o “The Noom Moon” e o EP “Before Vallegrand”, com cinco músicas, todas cantadas em inglês.
Por fim, lançaram o single “Semáforo”, o primeiro com as letras em português. Em agosto deste ano, chegou às bancas “Vanguart”, com 14 faixas em três idiomas: inglês, português e espanhol. O CD foi gravado em Cuiabá em dezembro de 2006 e lançado pela revista “Outracoisa”, de Lobão. “São 16 mil cópias nas bancas do Brasil inteiro. Está sendo uma distribuição muito boa”, contabiliza o vocalista e compositor.
Depois de rodar por festivais em todo o Brasil, os ouvidos do quinteto passaram a ouvir muito mais música brasileira, principalmente bossa nova e samba. “Isso muda muito a cabeça do músico. Às vezes você se revolta com o rock’n’roll”, diz Flanders, que não descarta mais sonoridades brasileiras para o próximo trabalho: “Com certeza vem coisa diferente pro próximo álbum”, anuncia.
Sem receber propostas interessantes de gravadoras, a Vanguart deve continuar na saga independente. “A gente pretende ficar da maneira como consegue trabalhar melhor e, infelizmente, as gravadoras não ofereceram nada que compense deixar o independente”, afirma Flanders.
A maioria das músicas da banda está disponível na Internet pelo site www.myspace.com/vanguart.
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Letra de ‘Cachaça’, que está no CD ‘Vanguart’
“E só me vem quando não há certeza
Me desconjuros pra apagar a beleza
Da incertidumbre das mesmas mãos que as suas
E me atinge da melhor maneira
Como cânhamo ou cachaça certeira
Pra antecipar a quarta-feira
Eu vou sair,
Talvez te encontrar
São cinco e meia da manhã
E cadê?
Você sorri movendo quase nada
E antecipa a velha longa estrada
E os teus galhos vão me arborizando nu
Ainda teimo que não sou pra isso
Mas seus olhos gostam de correr o risco
E quero estar só, comigo
Eu vou sair,
Talvez te encontrar
São cinco e meia da manhã
Eu vou sair,
Pra não te encontrar
São cinco e meia da manhã”
Autoria: Hélio Flanders