Alguns poetas dizem que a vida é um eterno recomeço. E que cada novo dia é um passo a mais rumo à felicidade, mas para isso é preciso ter coragem de mudar, de contrariar a tendência natural do ser humano de se acomodar, de buscar o que é mais seguro. Coragem que não faltou a Osvaldo Albanes de Castro, 44 anos, que deixou seu emprego em um banco de São Paulo para abrir uma pizzaria em Bauru. A busca por novos desafios também levou Tatiana Ortiz Cardia, 34 anos, a largar a psicologia para se dedicar a arquitetura. Já Almir Roberto Ribeiro, 47 anos, deixou a carreira de psicólogo para ser professor de história. Ana Lúcia Fernandes Dalalio e Paulo Henrique Dalalio, ambos com 40 anos, foram até Palmas, no Tocantins, atrás do sonho de uma vida melhor. O mesmo sonho que fez Leandro Peres Marcomini, 29 anos, optar pela carreira militar ao invés de trilhar os caminhos da advocacia.
São seis exemplos de pessoas que criaram coragem e jogaram tudo que haviam conquistado para o alto e começaram uma vida nova, com novos objetivos e expectativas. Eles modificaram o curso de suas existências e fizeram nascer histórias novas, voltadas à realização pessoal, nem que para isso fosse preciso abrir mão de algumas conquistas anteriores, alcançadas a custo de muito sacrifício.
Osvaldo Albanes de Castro passou 25 anos de sua vida trabalhando na captação de novos clientes para instituições financeiras. O bom salário e a perspectiva de uma aposentadoria tranqüila não foram suficientes para segurá-lo no emprego. Castro trocou o certo pelo incerto. Trocou a comodidade do trabalho no banco para investir na carreira incerta de microempresário. Segundo ele próprio define, foi uma decisão radical. “Decidi começar vida nova.”
No dia 1 de agosto, ele inaugurou seu serviço de disque-pizza em Bauru e, segundo ele, o negócio está indo muito bem. O único desconforto é a saudade que sente da família, que deverá permanecer na Capital até o fim do ano, por causa do ano letivo dos filhos.
“Vou fazer 45 anos. Eu quero um pouco de tranqüilidade e paz para viver. Não estou preocupado com a questão financeira, porque nem sempre ganhar mais vale a pena”, afirma Castro. “Tenho certeza que tomei uma decisão acertada”, acredita.
Essa mesma certeza tem Tatiana Ortiz Cardia, que trocou a carreira de psicóloga pelos projetos de arquitetura. Ela não teve medo de mudar mesmo depois de ter concluído o curso de psicologia. Tatiana chegou a exercer a profissão, mas logo viu que não era bem aquilo que queria para sua vida. Era hora de tentar algo que lhe desse prazer.
Foi então que Tatiana decidiu fazer arquitetura. Atualmente, está no último ano do curso, fez estágio, foi efetivada na empresa e se diz plenamente satisfeita com os resultados obtidos. “Foi a decisão mais acertada que tomei na minha vida”, comemora.
Almir Roberto Ribeiro foi outro que deixou a psicologia de lado para investir em outra carreira. No caso dele, o consultório deu lugar à sala de aula. Ribeiro não chegou a concluir o curso de psicologia. Parou no quarto ano. Tentou voltar, mas não tinha mais vontade. “Descobri que a psicologia não era aquilo que eu queria. Não encontrei sentido no curso”, justifica.
Essa constatação mudou o rumo de sua vida profissional. Por uma decisão política, Ribeiro quis ser professor de história. “Eu acreditava que sendo professor poderia dar uma perspectiva diferente para a juventude e ajudar a mudar o mundo”, lembra ele. Isso foi em 1984, quando o País ainda vivia sob a ditadura militar.
Segundo Ribeiro, o curso era ruim, mas nem por isso deixou de estudar e se aprofundar nos assuntos históricos, o que ele faz até hoje. Nos primeiros dez anos de profissão (nova), foi puro otimismo, mas com o tempo o entusiasmo foi enfraquecendo. “Hoje, não tenho mais a perspectiva de antes. Eu não acredito que possamos mudar algo através da escola”, diz ele. “Mesmo assim não me arrependo da troca de curso”, garante.
Ribeiro também dá aulas para pré-vestibulandos, que estão sempre cheios de dúvidas quanto ao rumo que devem tomar. Na opinião do professor, é preciso conhecer muito bem o curso que se quer fazer. Se mesmo assim descobrir mais tarde que não é bem o que imaginava, o aluno tem de estar sempre disposto a recomeçar, principalmente os mais jovens.
“Sinto falta, na maioria dos jovens, dessa vontade de arriscar. Eles parecem liberais, mas na prática são extremamente conservadores”, constata o professor.