Há quase 33 anos, o jornalista e pesquisador Luciano Dias Pires publica o ‘Bauru Ilustrado’ que, mensalmente, proporciona ao seu leitor uma pequena viagem ao passado de Bauru. O suplemento, que é encartado no Jornal da Cidade há 30 anos, é a parte mais visível do trabalho de garimpeiro da história que Pires tem feito desde que era funcionário da Noroeste do Brasil e que também inclui um grande acervo de fotos, objetos e publicações antigos, hoje, infelizmente, guardados por falta de um espaço adequado para serem expostos.
Aos 80 anos, ele não tem planos de parar, o que é compreensível para uma pessoa que exerceu ao longo da vida diversos cargos - entre eles o de diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Histórico, do Esporte Clube Noroeste e da Beneficência Portuguesa – e também acumulou profissões. “Quando eu começar a misturar dois esses com cedilha vai ser a hora de parar”, disse bem-humorado durante a entrevista que concedeu ao JC na última semana.
Entre lembranças da Bauru de outros tempos, ele contou como se interessou por história desde cedo e revelou o desejo de criar um memorial cultural na cidade, se receber apoio. Leia a seguir os melhores trechos.
Jornal da Cidade – Como o senhor veio para Bauru?
Luciano Dias Pires – Meus pais eram de Avaré. Meu pai, Francisco Xavier Pires Corrêa, era gráfico e mudou para cá com a família toda, em 1929. Ele trabalhou com João Martins Coube quando ele estava começando com a Tipografia Brasil. Depois ele montou uma gráfica chamada A Impressora e mais tarde trabalhou como viajante. Minha mãe, Lázara Dias Pires, foi uma das primeiras mulheres admitidas na Noroeste do Brasil. Quando mudamos para cá, eu tinha dois anos, então estou com 78 anos de Bauru.
JC – Qual a sua formação acadêmica?
Pires – Sou formado como perito contador, um curso de três anos que depois acabou se tornando o curso de economia. Então o nosso diploma tinha o mesmo valor do de um economista. Mas eu não cheguei a exercer. Sou jornalista profissional mas não fiz faculdade. Quando foi criado o curso e a exigência de registro eu já estava na função há mais de dez anos, então o meu registro foi imediato. Já na Noroeste do Brasil, onde eu trabalhei por 37 anos, fui transferido para o setor de relações públicas e fiquei lá por 21 anos. Quando foi criada a faculdade eu já estava na função há mais de dez anos e consegui o meu registro como profissional de RP. Em Bauru fui o primeiro delegado do Conselho Regional de Relações Públicas. Então tenho três registros sem ter feito as faculdades porque quando elas foram criadas eu já estava nas funções.
JC – O que o senhor fazia na Noroeste?
Pires – Entrei na Noroeste no dia 1 de outubro de 1945 através de concurso. Naquela época o peso maior da nota do concurso era datilografia e eu era um exímio datilógrafo porque tinha trabalhado em um cartório antes. Trabalhei em vários setores da ferrovia até 1961, quando consegui a transferência para o setor de relações públicas. Lá comecei a divulgar a história da Noroeste e para fazer isso, eu tive que falar sobre a história de Bauru, já que são duas histórias que se identificam totalmente. Foi aí que comecei a me interessar pela história da cidade. Sendo que, em 1958, eu era redator-chefe da “Gazeta Paulista” e já fazia muitas reportagens sobre a história da educação em Bauru.
JC – O senhor sempre gostou de história?
Pires – Em 1938, minha mãe de deu um livro chamado “História do Brasil para Crianças”, do Viriato Corrêa. Ela disse que tinha pedido emprestado para a professora, não disse que tinha comprado para mim que era para eu não estragá-lo. O livro é sobre um avô que conta a história do Brasil para os netos. Fiquei empolgado com aquilo. Peguei um amor incrível pela história do Brasil. Lembro que quando ia com a minha mãe para São Paulo, queria ir ao Museu do Ipiranga, mas nunca dava certo porque ela sempre tinha uma visita para fazer. Eu queria ver o museu, saber onde o Dom Pedro tinha proclamado a independência, ver as roupas da época... Mas nunca deu certo. Uma vez, quando era escoteiro, devia ter uns 12 anos, fomos a São Paulo. Paramos em frente ao museu e eu vi o monumento, a estátua do Dom Pedro, falei: é hoje! Daí o instrutor diz assim: “aqui é o museu do Ipiranga que todo mundo conhece, vamos para o Butantan”. Eu não vi o museu e fomos lá ver as cobras. Só fui visitar o museu adulto, com uns 29, 30 anos.
JC – Como surgiu o ‘Bauru Ilustrado’?
Pires – Em 1974 eu achei que na imprensa de Bauru - naquela época com dois jornais, o JC e o “Diário de Bauru” - faltava um tipo de reportagem mais humana, que falasse das pessoas mais simples, daí lancei o ‘Bauru Ilustrado’, no dia 13 de dezembro de 1974. Na primeira edição contei a história de um carregador de mala, de uma moça que vendia pamonha de dia para estudar à noite na faculdade. Aí comecei a me aprofundar na história de Bauru. O ‘Bauru Ilustrado’ caiu na graça do povo e comecei a receber fotos, documentos, histórias...
JC – O senhor nunca deixou de publicá-lo?
Pires – Nunca. De 1974 a maio de 1977 era uma publicação minha, ele era feito no JC, mas eu é que ia atrás da propaganda. Só que ele circulava de dois em dois meses, não dava tempo de procurar anunciantes, redigir, tirar fotos... Nessa época eu ainda trabalhava na Noroeste e era redator do “Diário de São Paulo” em Bauru. Daí propus ao JC transformar o Bauru Ilustrado em um suplemento. Agora em dezembro ele completa 33 anos. É uma publicação inédita na imprensa brasileira. Um suplemento sobre o passado da cidade que eu nunca vi em outro lugar. Os assuntos que eu abordo no “BI” são assuntos que eu vivi. Depois que eu passei a ser redator do “Diário de São Paulo”, que era um jornal do grupo do Chateubriand, eu vivi a vida da cidade mais intensamente, eu estava em tudo. Era um jornal que tinha muitos assinantes.
JC – O senhor tem alguma história curiosa sobre o ‘Bauru Ilustrado’?
Pires – Uma vez publiquei uma foto de Carnaval, com um carro alegórico que representava um navio, as pessoas vestidas de marinheiros e marinheiras em cima. Era um Carnaval dos anos 20. Coloquei a foto e citei todos os nomes dos que estavam no carro. Dias depois uma mulher me mandou um recado reclamando. Disse que eu não tinha nada que publicar aquela foto porque as pessoas ficaram sabendo que ela estava com 70 anos. Teve também um cara que era dono de um sobradinho na Araújo Leite, que já estava descaracterizado mas era uma das casas mais antigas que tinha ali. Ele achou que eu queria que casa dele fosse tombada e eu só tinha citado a casa dele como exemplo. Fazer o ‘Bauru Ilustrado’ nem sempre é um mar de rosas. Em 1982 eu lancei a coluna ‘Retrato de Família’, que traz uma reportagem com fotos de alguma família tradicional. Essa pegou no gosto do povo. Já fiz quase 200 reportagens como essas. Duvido que outra cidade tenha uma publicação como essa, com tantas famílias retratadas.
JC – O ‘Bauru Ilustrado’ é sua grande obra?
Pires – É. Para mim foi uma idéia feliz que eu tive e se não fosse a colaboração do povo de Bauru eu não teria feito isso. São 375 edições em nove volumes encadernados até agora.
JC – O senhor tem um grande acervo de fotos, objetos e material impresso sobre Bauru. Quando começou a juntar isso?
Pires – Quando comecei a fazer o ‘Bauru Ilustrado’ e as pessoas passaram a mandar coisas, fotos. Também ganhei algumas coleções de jornais antigos, então foi assim que começou a surgir minha coleção. Hoje, por exemplo, tenho uma coleção de mais de 600 fotografias só do Carnaval de Bauru. Tenho uma acervo sobre esporte, sobre o Pelé. Outro dia estive na ESPN com esse material. Também fiz três exposições recentemente, uma sobre os 111 anos de Bauru, com 680 fotos; uma sobre a história da imprensa e outra sobre o Noroeste.
JC – Seus filhos seguiram carreiras distintas. Nenhum tem o mesmo gosto pela história de Bauru?
Pires – Não. O de São Paulo (Luciano Pires Filho) que é jornalista também, até conversa mais comigo sobre isso, mas mesmo se eles gostassem, no estilo que eu faço o jornal eles não teriam como fazer. Se eu parar de fazer o ‘Bauru Ilustrado’ e alguém quiser continuar vai ser com outro estilo. Mas eu estou bem, tenho uma memória ainda muito boa, tenho um bom acervo para pesquisar, continuo recebendo muitas fotos... Às vezes me perguntam quando é que eu vou parar e eu digo, quando eu começar a misturar dois esses com cedilha vai ser a hora de parar. Mas estou conseguindo fazer, não tenho dificuldade.
JC – O senhor pensa no destino do seu acervo no futuro?
Pires – Não sei, é difícil. Eu queria um apoio mas não sei porque haveria gastos com digitalização... Eu estou querendo fazer um memorial cultural histórico para Bauru para colocar as fotos, as histórias das pessoas. Não seria um museu, mas um lugar onde a pessoa pudesse conhecer fatos sobre a cidade. Muita gente não sabe que Bauru teve um tenista que integrou a equipe brasileira na Copa Davis na década de 50, que outro tenista nosso foi bi-campeão mundial universitário. Cinco bauruenses foram ministros da República e pouca gente sabe disso. O João Batista Ramos foi ministro do Trabalho do Getúlio, o Ozires Silva foi ministro do Collor... Um memorial juntaria essas informações.
JC – A população conhece a história da cidade?
Pires – Sabe pouco. Muita gente sabe um pouco mais por causa do ‘Bauru Ilustrado’. Eu sempre sou convidado a dar palestras, a falar sobre a cidade. Recentemente estive falando para a turma de terceira idade da USC.
JC – O senhor nunca pensou em escrever um livro?
Pires – Tenho um livro quase pronto mas não é um livro sobre a história da cidade. Ele tem crônicas da minha vida em Bauru. Já mandei fazer uma revisão, vou fazer outra agora, está quase pronto. Cada crônica tem praticamente duas fotos. Sobre a história de Bauru, o ‘Bauru Ilustrado’ é minha obra.
JC – Quando o senhor se mudou para Bauru a cidade tinha 31 anos. O senhor viu a cidade crescer e se desenvolver. Para o senhor, qual o período áureo da história de Bauru?
Pires – Bauru teve várias décadas importantes. A década de 30, por exemplo, foi um período de grandes realizações para a cidade apesar da revoluções de 1930 e 1932 e do começo da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Muitas escolas foram fundadas nessa época, assim como o Aeroclube, o Automóvel Club. Já na década seguinte, com o fim da guerra, muitas lojas e empresas de São Paulo vieram para Bauru e a cidade começou a se desenvolver. No começo dos anos 50 veio a primeira faculdade. Enquanto isso a Noroeste estava em ponto de bala, era o que impulsionava Bauru.
JC – Qual a maior qualidade de Bauru hoje?
Pires – Bauru hoje é a capital do ensino superior, uma referência nacional. Bauru também é uma cidade aberta, que recebe de braços abertos as pessoas que vêm de fora.
____________________
Perfil
Nome completo: Luciano Dias Pires
Local de nascimento: Botucatu (SP)
Idade: 80 anos
Esposa: Helena da Silva Pires
Filhos: Luciano Dias Pires Filho (51 anos), Luiz Antônio da Silva Pires (48) Lúcia Helena da Silva Pires Bichuete (46 anos)
Hobby: Ir ao cinema, viajar e colecionar fotos da Bauru antiga
Livro de cabeceira: “Brasileiros Pocotó (Reflexões sobre a mediocridade que assola o Brasil)”, de Luciano Pires Filho
Filme preferido: “... E o Vento Levou” (de Victor Fleming) e “O Pianista” (de Roman Polanski)
Estilo musical predileto: Gosto das trilhas sonoras de alguns filmes que para mim são inesquecíveis. A música do “Casablanca”, por exemplo
Times de coração: Noroeste e Corinthians
Para quem daria nota 10: Aos dirigentes de nossas entidades filantrópicas, que lutam heroicamente no desenvolvimento do seu trabalho
Para quem daria nota 0: Para a Câmara Federal e o Senado