08 de julho de 2026
Articulistas

Aluno é cliente?


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Em artigo publicado no JC, o presidente do CIEE comenta a contradição que há entre os resultados dos exames do MEC e uma pesquisa de satisfação dos alunos com o ensino. Enquanto os exames do MEC revelam resultados vergonhosos a pesquisa indica que 91% dos alunos estão satisfeitos com o ensino que estão recebendo nas escolas particulares e 72% nas escolas públicas. Os alunos estão satisfeitos pelas razões que os professores conhecem bem, mas e a sociedade, está satisfeita? A sociedade, por todas as manifestações denunciando a má qualidade do ensino, naturalmente não está satisfeita. E os próprios alunos, que hoje se manifestam satisfeitos, amanhã, fora da escola, também terão outra opinião.

A educação entrou num círculo vicioso – as escolas exigem cada vez menos porque os alunos estudam cada vez menos e os alunos estudam cada vez menos porque as escolas exigem cada vez menos. E de menos em menos, hoje o aluno sai da oitava série sabendo menos do que da antiga quarta série do primário e da faculdade, menos do que do antigo colegial. Daí a proliferação de MBAs, mestrados, doutorados e pós-doutorados para suprir o que foi ficando para trás. Não há aprendizado sem esforço, que é o que menos os alunos querem fazer. E nesse contexto surgiu a equivocada tese de que o aluno é o cliente que deve ser agradado. E como “o cliente sempre tem razão”, o aluno não pode ser contrariado.

A própria afirmação de que o cliente sempre tem razão já não é mais aceita porque toda regra tem exceção e o fato de que o cliente deve ser bem atendido, não impede que em algumas ocasiões ele não tenha razão. Mal comparando com o aluno, mesmo o cliente comum precisa fazer algum esforço. Uma empresa embala o produto e entrega na casa do cliente. Outra empresa vende mais barato mas o cliente é quem empacota e transporta. Em ambos os casos o cliente faz algum esforço, pagando mais para ter comodidade ou dispensando a comodidade para pagar menos. De qualquer forma, para satisfazer as suas necessidades ele sempre terá que fazer algum esforço. No caso do aluno, então, em que a necessidade de aprender está ligada ao seu futuro e de sua família, o esforço deve ser ainda maior. Pena que ele só venha a perceber isso depois porque, enquanto está na escola, ele é o cliente que paga mas não faz questão de levar.

Podemos dizer que o objetivo da escola é contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional do estudante. Da contribuição da escola a sociedade espera a formação de bons cidadãos e de bons profissionais. No relacionamento escola/sociedade, a escola é o fornecedor e o cliente é a sociedade, e não o aluno. O aluno até pode estar satisfeito com a escola, enquanto esta exige pouco dele, mas como integrante da sociedade, ele é o primeiro a repudiar a escola que não o preparou para os embates da vida e para o mercado de trabalho. Por outro lado, o aluno que recebeu um bom ensino, que ‘ralou’ para tirar boas notas e ser aprovado, é eternamente grato à escola, ao dar-se bem no trabalho e na vida social.

Esqueça esse negócio de que aluno é cliente. O aluno é educando e aprendiz. Precisa educar-se como cidadão e adquirir os conhecimentos e habilidades para sua vida profissional, o que exige bastante esforço, e a escola que não contribui para isso está desservindo à sociedade.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru