No acampamento, o doutor Eduardo retirou a lasca de madeira e em momento algum “Chico Preto” reclamou de dor. Intrigado por essa insensibilidade, o doutor resolveu fazer-lhe um exame superficial, tocando com uma caneca de alumínio quente alguns pontos do corpo dele e falou: lepra. João Preto quedou-se por alguns instantes, procurando disfarçar o choque recebido, intenso como sentença de morte.
De seus olhos brotaram algumas lágrimas e ele as enxugava com as palmas das mãos calejadas. Não teria como se afastar da mulher e dos filhos, caso precisasse de uma internação demorada. Tal acontecesse, sua família ficaria desamparada em lugares ermos e sem recurso.
Apesar da maneira branda e psicológica com que o médico o esclareceu sobre os recursos avançados da medicina, no controle da doença, ainda assim o mundo pareceu ruir sob os pés de nosso infortunado amigo. Preferia morrer a viver confinado, fugindo de amigos, que por certo se afastariam, receosos de contaminação.
Cabisbaixo, apanhou sua trouxa de roupa e sem nada falar desapareceu em direção a sua moradia. Receávamos ele cometesse algum desatino, perturbado que ficou naquele momento.
Um ano depois, voltamos ao Araguaia e a primeira preocupação nossa era saber de “Chico Preto”. O diagnóstico do jovem médico fora confirmado: hanseníase em estado avançado. “Chico Preto” ficou internado por algum tempo em sanatório público, de onde fugiu logo depois.
A notícia de sua moléstia correu célere no Vale do Araguaia: “Chico Preto” passou a viver confinado em pequena ilha, local de difícil acesso. Baixios e tranqueiras formavam verdadeiros obstáculos à sua moradia, ou melhor dizendo, ao seu esconderijo, onde viveria refugiado de tudo e de todos.
Os amigos o abandonaram, falavam com ele apenas o necessário e à distância. A palavra lepra soava-lhes tão repelente que era mencionada como “doença do sangue”.
Certa noite, luar meio ofuscado, vimos uma piroga aproximando-se de nosso acampamento, era ele, fina silhueta postava-se, meio arcada, sobre pequena embarcação, era ele, “Chico Preto do Araguaia”. Corremos ao seu encontro, chamamos-lhe pelo nome, nenhuma resposta. O vulto resolveu voltar a favor da correnteza, na ânsia de obstar nosso contato...
De “voadeira” motorizada foi fácil alcançá-lo. Jungimos nosso barco ao dele e descemos à deriva, enquanto tentávamos conversar. “Chico Preto” nos tratava com indiferença e aparente mau-humor; compreendíamos aquela difícil representação; no íntimo ele se alegrava em nos rever, amigos que éramos.
O complexo da doença era mais forte do que sua vontade de nos ver, daí o fingido repúdio à nossa presença. Depois de muita insistência, concordou em ser rebocado até a praia, onde a claridade fosse menor.
Não queria deixar à mostra o estado lastimável de seu corpo, já corroído pela doença. Conversamos na penumbra longo tempo; contou-nos do abandono de seus amigos depois que souberam de sua doença.
A rejeição à sua pessoa era tanta que os donos de botecos evitavam em lhe vender, receosos que seu dinheiro contaminasse-lhes a saúde. Ele não mais pescava, ninguém comprava os produtos de seu trabalho.
As peles dos animais abatidos por ele não lhe rendiam o suficiente para o sustento de sua família. Enquanto ouvíamos enternecido o relato das suas desventuras e apertos financeiros, um nosso companheiro de caravana aproximou-se com um ofuscante lampião. “Chico Preto” ficou apavorado ante a luz devassadora, mostrando as seqüelas de seu corpo, que a todo custo procurava ocultar.
Suas feições já deformadas pela doença, sobrancelhas por demais ralas, davam-lhe o conhecido aspecto “leonino”, característica da lepra em estado avançado. Seus olhos, outrora cheios de vida, não mais brilhavam. Trapos encardidos e enodoados envolviam-lhe as mãos e os pés, deixando a descoberto apenas o que restava de seus dedos mutilados.
“Chico Preto” chorava, não mais se importando em esconder as lesões que tanto repugnavam, enfrentava obstinado os estigmas que modificaram impiedosamente sua pessoa e danos materiais à família. Súbito, como se tivesse acordado de um pesadelo, virou rápido a proa de seu barquinho em direção às correntezas e lá se foi. Não mais o vimos...
Felisdeu Leão é pescador e contador de histórias*
Extraído do livro “Transamazônica”, no prelo.