09 de julho de 2026
Articulistas

Nossas crianças, nossa grande responsabilidade


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Antigamente comemorava-se o Dia da Criança, que passou a ser Semana da Criança e, quem sabe, ainda tornar-se-a o Mês da Criança, por força de uma economia de mercado globalizada, na qual o consumismo desenfreado é estimulado e a valoração do ter superou a do ser. Os apontamentos a seguir não se destinam a fazer uma apologia ao não consumismo ou a não comemoração de uma data festiva, que vale a pena ser comemorada; também não é uma ode ao saudosismo, sobre a época em que tudo era muito melhor, em que as crianças eram mais educadas e sabiam respeitar os mais velhos. São apenas, e tão somente, as preocupações de quem convive diariamente com crianças e jovens e observa seus comportamentos, posturas e atitudes. São reflexões sobre nossas crianças e o que temos feito por elas.

As crianças de hoje, assim como a de todos os tempos, miram-se nos adultos que as cercam e espelham-se naquilo que lhes ensinam. A noção de valores, o posicionamento ético, a conduta moral, a polidez de tratamento destinada às pessoas não importando sua posição social, o respeito, a solidariedade, as pequenas gentilezas... isto tudo elas deveriam aprender com aqueles que se (pre)ocupam com sua formação e educação. Infelizmente, o que se tem observado é que boa parte de nossas crianças têm crescido sem estas orientações básicas, que lhes moldariam o caráter para caminharem pela vida com dignidade. É como se olhassem num espelho de pouca qualidade, cuja imagem refletida é vista de maneira distorcida.

É sabido e propalado ao sabor do vento que ensinar pelo exemplo é mais eficiente e eficaz do que fazê-lo pelas palavras. De nada adianta proferir palavras sábias sem vivenciá-las. É um ensinamento oco, vazio, que desmorona a qualquer instante. E quais são os exemplos que nós adultos temos ofertado a crianças e jovens de nosso país? Pais, professores, artistas, políticos, religiosos, uma imensa massa populacional que deveria servir de modelo e guia, tem se comportado de maneira desastrosa, mostrando que a “lei de Gerson” é poderosa, afinal, a lei que deveria proteger e beneficiar a todos, indistintamente, destina-se somente a uma parcela miúda da sociedade. A falta de escrúpulos, a desfaçatez, a corrupção de toda espécie, as falcatruas, o famoso “jeitinho brasileiro” são atitudes que têm sido incentivadas indiretamente, pois os possuidores destes predicados agem e permanecem impunes.

Não podemos alterar o mundo, não temos amplitude de ações grandiosas, mas podemos modificar nosso entorno. Enquanto pais temos a obrigação de adotar posturas norteadoras, equilibrando firmeza e afetividade. Estabelecer limites não permitindo a tirania infantil sobre os adultos, dialogar, esclarecer, fazer o contraponto das barbáries de toda espécie veiculadas pela mídia, mostrando que há outros caminhos a seguir, cobrar responsabilidades pertinentes a cada faixa etária, encarar a realidade e mostrar aos filhos que todas as nossas atitudes, mesmo as mais efêmeras, são conseqüenciadas, incentivar o uso da verdade, a fazer o bem e o certo pelo simples fato de ser a maneira correta de nos postarmos diante da vida, são atitudes que incidirão de forma decisiva no futuro dos pequenos.

Buscar caminhos mais simples, esquivar-se da enorme responsabilidade que é criar, educar e formar filhos é um erro atroz, que pode produzir efeitos nefastos por toda uma vida. Pais que estão sempre justificando comportamentos inadequados de seus filhos, quem sabe, no afã de suprir a ausência físico-afetiva, por não querer contrariá-los como se fossem bibelôs de porcelana que se quebram facilmente, ou pela opção ingênua de que os filhos terão muito tempo para aprenderem a “virar gente” ao longo da vida, ensinam-lhes que cometer pequenos delitos é permitido, acreditam que “inocentes” atos de corrupção não se tornarão regras de comportamento, esquecem-se que o desrespeito que hoje destinam a outrem perpetua-se como hábito e dele farão uso indiscriminado, não analisam que as pequeninas mentiras, tão peculiares às crianças de tenra idade, quando não corrigidas possibilitam o surgimento de renitentes mentirosos.

Tiremos a venda dos olhos, enxerguemos as crianças reais que estão ao nosso redor! Ensinemos-lhes que o mundo pode e deve ser melhor e que o ser humano é essencialmente bom. Vamos comemorar o Dia das Crianças de um jeito diferente. Dediquemos a elas não somente um dia, mas todos os dias. Vamos presenteá-las com o que possuímos de melhor e não se compra em lugar algum: afeto, amor, carinho, atenção, regras e limites. Deixemos como herança algo que não se finda, a retidão de caráter, a honestidade, a honradez e a hombridade. Façamos algo em prol de nossas crianças hoje, para que elas possam ter condições de reinventar mundo e a humanidade, elevando o homem a sua condição humana.

A autora, Isabel Cristina Miziara, é pedagoga, coordenadora do Ensino Fundamental II do Colégio Fênix