08 de julho de 2026
Cultura

Os olhares de Djavan

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 7 min

Até que valeu a pena de horas de ligações malsucedidas para um celular fora de área. Depois de percorrer os cerca de 230 quilômetros entre Bauru e Ribeirão Preto, onde se apresentou terça e quarta-feira, enfim foi possível ter alguns minutos de “djavanações”. Por telefone, o músico, que faz show nesta noite no ginásio da Associação Luso Brasileira, falou do novo CD, “Matizes”, dos problemas e belezas do Brasil e mandou um recado para Bauru:

“Gostaria de dizer pro pessoal que eu estou aqui de volta, na área. Estou feliz e espero que as pessoas que forem ao show gostem e que nós consigamos fazer uma noite inesquecível, tanto para eles quanto para nós no palco”, avisou. A última vez na cidade, foi em 2002, durante a turnê de “Milagreiro” no ginásio Panela de Pressão.

E, mais uma vez, o músico sobe no palco junto dos filhos Max Viana (guitarra e voz) e João Viana (bateria), além da banda que o acompanha há cerca de dez anos, formada por Sérgio Carvalho (baixo e voz), Renato Fonseca (teclados e voz), Marcelo Martins (saxofones), François Lima (trombone e voz) e Walmir Gil (trompete e voz).

Radicalmente autoral, “Matizes”, o 18.º disco da carreira, vem com repertório e gravadora “djavanísticos”. São 12 composições próprias e inéditas, gravadas em estúdio caseiro e lançadas por seu próprio selo, o Luanda Records.

Além da faixa de trabalho “Pedra” (“Febre de amor / Sede de anseio/ Quase a escuridão / Você partiu, me reduziu /Amor, me perco em lágrimas”), o músico exalta pela primeira vez o Rio, cidade que o abrigou há 30 anos, em “Delírio dos Mortais”, e questiona a alta carga tributária do País com a leveza da bossa-nova de “Imposto”. Confira os principais trechos da entrevista:

JC Cultura - O que aguardar do repertório do show? Canções de “Matizes”, sucessos da carreira?

Djavan - O repertório tem tudo, tem músicas de “Matizes”, tem hits, clássicos da vida inteira, tem músicas que não são tão conhecidas, tem músicas de outros autores... Enfim, é um show bem diversificado para que a gente consiga realmente demonstrar um espectro musical bem variado.

JC Cultura - Uma única expressão musical, revelada em “Matizes”, é uma coisa que pode ser sentida em outros discos. Você pensa em um dia provocar uma ruptura, mudar o estilo “djavânico”?

Djavan - O que ocorre é o seguinte. Quando falam isso estão querendo dizer que apesar da diversificação existe uma identidade, existe uma coisa personal, o meu trabalho é muito pessoal. E isso não quer dizer que ele não tenha uma diversificação capaz de envolver, a cada trabalho, um frescor, uma busca por uma novidade qualquer, etc. Eu tenho um estilo pessoal muito reconhecível em qualquer oportunidade. Portanto, a mudança que houver no futuro vai depender mesmo de quem eu vou ser no futuro, como eu vou estar.

JC Cultura - Por hora, você não pensa em fazer algo como fez Caetano, por exemplo, em “Cê”: gravar com uma outra banda, num outro estilo?

Djavan - O Caetano é um músico bem diferente de mim, nesse particular, sobretudo. Eu tenho uma variedade, porque a minha música decorre da minha formação musical muito variada. As coisas vão acontecer de acordo com as circunstâncias, com o momento. Como é que eu vou estar amanhã, eu não sei.

JC Cultura - Com exceção de “Malásia” (álbum lançado em 1996 em que Djavan interpreta canções de Paulinho da Viola e da parceria Tom Jobim e Luiz Bonfá), a maioria dos seus álbuns costuma ser estritamente autoral. Para você, compor é mais representativo do que cantar?

Djavan - Eu não sei porque você excluiu “Malásia”, porque, na verdade, a minha música foi ficando cada vez mais autoral, à medida em que fui tendo uma necessidade de ter uma integridade maior em compor. Por isso que hoje acabo fazendo todas as coisas: produzo, faço os arranjos, além de fazer música e letra, cantar, tocar, etc., em busca de produzir uma música bem autoral. Mas isso já ocorre há mais de 15 anos, o “Malásia” está incluído nisso.

JC Cultura - Sim. Eu digo de cantar músicas de outros autores em disco, por isso citei o “Malásia”.

Djavan - Em geral, nos shows, eu canto pelo menos uma, porque eu sempre gosto de dar uma versão própria a músicas de outras pessoas. Mas em disco é mais difícil.

JC Cultura - Por isso citei “Malásia” como exceção. Dá impressão que o ato de compor, para você, é muito mais importante do que o de cantar.

Djavan - Exatamente, porque a composição é minha concepção. Eu tenho um projeto também de fazer um disco só como intérprete. Pegar clássicos de outros autores, músicas que eu gosto de todas as épocas, fazer um repertório bem bacana e só cantar. Mas a necessidade que eu tenho de compor todos os anos é grande. Até agora não consegui me desvencilhar desse compromisso. Para mim é vital. É na composição que eu me afirmo. Mas vai acontecer um dia.

JC Cultura - Neste álbum, ao mesmo tempo em que faz críticas, no caso de “Imposto”, em que critica a carga tributária e a corrupção, parece que há um fechar de olhos, não sei se proposital, no caso de “Delírio dos Mortais”, em que você exalta o Rio de Janeiro. O que você quis com essa composição?

Djavan - Eu acho que para falar das mazelas do Rio, basta pegar os jornais diariamente. Eu não, eu quis fazer um tributo ao Rio de Janeiro, porque é a cidade que me deu vida. Eu estou no Rio há 30 anos. Sou de Alagoas, Alagoas me deu à luz. O Rio me deu um rumo, um prumo, me deu o meu futuro. Foi ali que eu consegui desenvolver a minha arte e me afirmar. Então, eu não queria falar de mazelas, eu queria fazer um tributo, uma ode ao Rio de Janeiro, por isso que falei dos símbolos internacionais, das coisas bonitas. Basta ler jornal diariamente que você vai ver tudo que não presta no Rio de Janeiro, isso não precisa estar em música.

JC Cultura - Mas no caso do imposto, você acredita que sim?

Djavan - Imposto já é outra coisa. “Imposto” é um cidadão colocando a sua ótica, a sua visão, a sua insatisfação em relação aos desmandos, ao fato da gente ser um dos povos mais tributados do mundo e talvez um dos que menos receba. O problema não é pagar imposto, porque imposto tem que ser pago. Eu pago imposto desde que comecei a ganhar algum dinheiro. O problema é que tem gente que não pode pagar e é tão ridiculamente tributada quanto eu. E o grande problema que envolve essa questão é o fato de você não ter os benefícios correspondentes. Por tudo o que você dá, você recebe em troca nada ou quase nada. Este é que é o grande problema.

JC Cultura - Há quanto tempo está na estrada com seus filhos?

Djavan - Com os filhos desde 2001.

JC Cultura - E isso influenciou seu trabalho?

Djavan - Não exatamente apenas isso, tudo me influencia, tudo ajuda a gente a ir se moldando com o tempo, todo mundo: eu, eles, os outros músicos e todos os outros artistas. Isso é uma coisa de convivência, da manutenção, do aprendizado da música, do conhecimento de cada um em relação aquele trabalho. Isso vai moldando, vai mudando cotidianamente.

JC Cultura - E a relação pai e filho depois dessa aproximação musical?

Djavan - A nossa relação sempre foi a melhor. A gente nunca deixou um segundo de conviver, mesmo depois que eles foram morar sozinhos, que casaram. A gente continua exatamente igual e, musicalmente, sempre teve um entendimento, um código bastante fluente.

JC Cultura - Você pensa em lançar novos artistas pela sua própria gravadora?

Djavan - Isso é uma coisa que eu não poderia te falar agora, mas, no futuro, pode ser um projeto muito interessante.

• Serviço

Djavan faz show nesta noite, a partir das 21h, no ginásio da Associação Luso Brasileira (rua Luso Brasileira, 5-60). Os ingressos estão à venda nas lojas Pensatto - Calçadão da Batista e Bauru Shopping -, e na Universidade do Sagrado Coração (USC). Preço antecipado: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia-entrada ou com o anúncio promocional publicado no Jornal da Cidade). A organização informa que não haverá camarotes ou área VIP. Informações: (14) 3223-5222, 3226-7235 e 3232-5381.