É de conhecimento de todos que o consumo de bebidas alcoólicas afeta a percepção, controle e atenção dos motoristas. Isso, sem dúvida, leva a um aumento no número de acidentes automobilísticos. Distúrbios do sono modificam a quantidade e qualidade do sono, provocando uma sonolência excessiva durante o dia. Assim, o motorista não consegue se manter acordado contribuindo para a ocorrência de acidentes. Estudos feitos pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina mostraram que de 1987 a 1995 houve um aumento na queixa de sonolência de 76 para 82% da população de São Paulo que participou do estudo.
Em outra avaliação, com 400 motoristas de ônibus, a queixa em relação ao sono atingiu 60% dos entrevistados. Os dados são muito preocupantes já que se deve considerar ainda que os motoristas têm, na sua grande maioria, jornadas irregulares, trabalho em turnos variados, tempo pequeno de folga, local impróprio para dormir influenciando no estado de atenção e alerta essenciais ao trabalho. Outro relato assustador é que 16% dos entrevistados disseram cochilar enquanto dirigem, com uma média de 8 cochilos por viagem. Agora, quando perguntado se conhecem alguém que cochila, 56% disseram que sim, levando a crer que muitos não assumem que cochilam enquanto dirigem. Especialistas concordam que a sonolência diurna excessiva aumenta o risco de acidentes automobilísticos, fato esse que vem chamando a atenção das autoridades.
Um dos distúrbios de sono mais comuns e que aumenta a sonolência diurna é a Síndrome da Apnéia e Hipopnéia Obstrutiva do Sono (SAHOS). A obstrução da passagem do ar causada pela apnéia provoca um sono irregular e não reparador fazendo com que a pessoa acorde cansada. O ronco normalmente acompanha a apnéia, servindo de aviso à pessoa que dorme ao lado de que algo não vai bem. Estudos mostram que pacientes com apnéia do sono apresentam possibilidades de 2 a 3 vezes maiores de se envolverem em acidentes automobilísticos que pessoas que não têm o distúrbio. Além disso, a prevalência da apnéia em motoristas profissionais é maior que na população em geral devido à idade, obesidade e sedentarismo. Melhores condições de trabalho, locais apropriados para descanso, jornadas regulares de trabalho, orientações sobre alimentação, incentivo à prática de esportes e avaliação periódica do sono são importantes ações que podem ser implementadas, ajudando assim na diminuição das estatísticas de acidentes causadas pelo excesso de sono. As empresas que usam serviços de motoristas profissionais como as de transporte e de ônibus, assim como os motoristas amadores devem se conscientizar do problema. Com essas e outras medidas é possível evitar muitos acidentes fatais e prejuízos financeiros de grande monta.
As campanhas governamentais preventivas de acidentes de trânsito além de enfocar o consumo de álcool como fator gerador de acidentes deve também alertar sobre os distúrbios de sono que podem levar a sonolência excessiva. O uso da Escala de Sonolência de Epworth para avaliação geral do sono é uma excelente opção. Trata-se de um questionário com 8 perguntas que mostra se a pessoa tem algum problema com seu sono. Após essa primeira análise, as pessoas com problema devem passar por uma avaliação clínica e serem submetidas à polissonografia, exame que mapeia e identifica diversos distúrbios do sono. O tratamento deve ser conduzido por uma equipe multi-profissional composta por médicos e dentistas sonologistas.
O autor, Walter da Silva Jr., é cirurgião dentista e membro da Sociedade Brasileira de Sono