São Paulo - Um erro de digitação em um informe de rendimentos do Banco do Brasil (BB) há dez anos quase causou um rombo de R$ 1 bilhão aos cofres do banco. Uma quadrilha tentou fazer uso deste erro - que já tinha sido corrigido pelo banco - para receber o dinheiro. Este grupo foi preso ontem pela operação Alquimista, da Polícia Federal.
Foram detidos temporariamente até o momento 23 pessoas, e uma está foragida. Entre eles estão dois analistas do Banco do Brasil, dois auditores da Receita Federal, um ex-delegado da Polícia Federal, quatro advogados, um ex-deputado estadual fluminense (que também era oficial de alta patente da reserva do Corpo de Bombeiros) e vários doleiros.
Tudo começou há cerca de dez anos, na cidade de Americana (SP). Um cliente do Banco do Brasil recebeu seu informe de rendimento - documento usado para declarar o Imposto de Renda - que tinha valores muito superiores aos verdadeiros.
Preocupado com a possibilidade de ter que pagar um alto valor de imposto devido ao documento, o cliente pediu a correção dos valores no banco, no que foi prontamente atendido. Porém, anos depois ele resolveu tentar convencer o banco de que era o real dono do dinheiro - que chegaria, nos valores de hoje, em R$ 1 bilhão. Para tal, entrou em contato com a quadrilha. O cliente em questão era um aposentado. “O banco nos contatou e iniciamos as investigações”, disse Rodrigo de Campos Costa, delegado responsável pelas investigações da operação.
A preocupação do banco, disse o delegado, não era em perder o dinheiro, e sim em tentar descobrir se havia funcionários do próprio BB envolvidos. Tais investigações já ocorriam há pouco mais de um ano. O esquema era sofisticado. A quadrilha tinha funcionários do BB para ajudar no trâmite administrativo, advogados e o ex-deputado faziam lobby pela liberação dos recursos e funcionários da Receita Federal chegaram a fazer um comunicado falso ao cliente de cobrança de impostos referentes ao valor que estaria no banco para ser usado como “prova” da existência dos valores.
Caso a quadrilha conseguisse sacar o dinheiro, doleiros que faziam parte do grupo já tinham montado uma operação que pulverizaria os recursos entre contas na Suíça, Uruguai e Estados Unidos. As 15 contas localizadas no Uruguai e nos EUA já foram bloqueadas através do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI).
Os envolvidos responderão por crimes de corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, tentativa de estelionato, evasão de divisas e lavagem de dinheiro, cujas penas variam de cinco a dez anos anos de reclusão. Além das prisões, a PF apreendeu computadores, documentos e R$ 65 mil em dinheiro encontrados com os membros da quadrilha. “A partir deles podemos continuar as investigações”, disse Costa.
O objetivo da operação agora é descobrir, através dos documentos apreendidos, mais sofre o esquema de lavagem de dinheiro dos doleiros envolvidos. “Outros fatos que poderão vir a surgir estarão sujeitos a investigações futuras”, disse o superintendente da PF em São Paulo, Jaber Saad. O Banco do Brasil informou ainda que não teve qualquer prejuízo e a tentativa de golpe foi identificada pelo próprio banco e notificada à Policia Federal.