No século 14, o filósofo inglês William de Ockham defendeu o princípio de que a natureza é por si mesma econômica, sempre escolhendo o caminho mais simples para as soluções universais. Baseado nesse argumento criou um princípio lógico conhecido como “Navalha de Ockham”, que pode ser enunciado do seguinte modo: “Se há várias explicações igualmente válidas para um fato, então devemos escolher a mais simples”. Parece que hoje em dia, no Brasil, a maioria das pessoas quer usar essa navalha para simplificar as coisas, de acordo com suas conveniências ou ponto de vista. Simples. Com um só golpe - vaaap - dividimos o Brasil “ideal” do Brasil “real”. Uma síntese bem Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, que nos identifica como o “herói sem nenhum caráter”.
Veja o caso do furto do Rolex do apresentador global Luciano Huck que já virou até notícia no New York Times, mas para mostrar o lado patético da elite brasileira. Precisou perder o presente da Angélica para descobrir que a coisa está feia nas ruas. A Folha abriu espaço para a vítima, na sua página de Opinião, onde o articulista chora o “bobo” perdido, estremece com o perigo que passou (poderia ter sido morto, deixado uma jovem viúva grávida e com filho pequeno) para concluir desolado: “... amanheci envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38...” Eu já perdi o meu Orient legítimo e nem por isso reclamei ou me senti envergonhado de ser bauruense. A questão da violência urbana não põe a salvo quem paga seus impostos ou ajuda os pobres em campanhas beneficentes. A discussão é muito mais complexa e passa pelo emprego, família, distribuição de renda, educação, saúde, transporte, moradia...
Agora temos um filme em cartaz – Tropa de Elite. Nenhuma produção tupiniquim mereceu um décimo da atenção que a imprensa vem a lhe dedicar (os puristas proibiram o discurso com gerúndio). Antes mesmo de chegar às telas sofreu o maior processo de clonagem que se tem notícia. Estima-se que um milhão de cópias foram vendidas em todo o país, em menos de dois meses. Os jornais já gastaram rios de tinta em debates intermináveis sobre a obra do jovem cineasta José Padilha. O jornal mais influente da Europa, El País, da Espanha, estranhou tanto blá-blá-blá. Aqui, atacaram o diretor por causa de uma hipotética simpatia pelos métodos sanguinários do Batalhão de Operações Especiais. A maioria esqueceu de elogiar o belo roteiro, que se fecha no final sem deixar postas soltas. Ninguém falou sobre os diálogos afiadíssimos com expressões bem cariocas, a excelente trilha sonora, a montagem que dá ao filme uma dinâmica vertiginosa. A imprensa brasileira, em suma, não trata da obra cinematográfica. Julga e tenta condenar uma película com chavões. Ou, pior ainda, um personagem de ficção, o narrador capitão Nascimento. Paradoxalmente, a platéia acaba sentindo certa simpatia pelo capitão, um homem em crise, que deseja sair da tropa para salvar seu casamento e para poder criar o filho recém-nascido. Padilha foi muito ousado em dar voz aos policiais, que tradicionalmente nos são apresentados apenas como vilões. O que deveria nos surpreender é o fato que a questão da violência urbana nunca foi enfrentada para valer tanto pelo Estado como pela sociedade brasileira. Muito “bacana” tem salvo-conduto para ir aos morros cariocas para comprar drogas, até de Rolex no pulso. O cliente-consumidor tem privilégios. É essa elite que sustenta todo o tráfico e comercialização do pó e a compra de armas, conforme denuncia o filme.
Deliberadamente ou não, Tropa de Elite nos força a uma reflexão. Quando morreu o menino arrastado nas ruas do Rio preso a um automóvel, o Globo abriu manchete dizendo que havíamos passado o limite do tolerável. Porém, de lá para cá continuam a se reproduzir episódios de barbárie. Agora, “nos morros mal vestidos”, suspeitos sem camisa, descalços e de bermudas são abatidos a tiros disparados do helicóptero da polícia. É a mania de resolver tudo com uma navalhada só. Na certa continuaremos a discutir sem profundidade aquele que é, talvez, o maior desafio desta nação: como fazer para estancar esse morticínio diário.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC