10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Egli: uma vida de desafios sociais

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

Egli Muniz ainda não tinha 20 anos quando decidiu fazer o curso de serviço social na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e optou por trabalhar para melhorar a vida de pessoas carentes. Quatro décadas depois de ter terminado a faculdade, na qual posteriormente foi professora e que hoje dirige, ela se mostra mais do que realizada com a escolha. “O trabalho é o que me dá satisfação e sou muito feliz por isso”, declara.

À frente da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), depois de anos de atuação no Conselho Municipal de Assistência Social, Egli encara o desafio de ampliar a cobertura da assistência para a população necessitada com otimismo, apesar de saber que seu trabalho não tem fim. “Acredito que tivemos um salto de profissionalização da política social no Município”, avalia. Com o mesmo otimismo, ela vê a política social do governo Lula, criticada pela oposição como assistencialista.

Na última quinta-feira, Egli recebeu a reportagem do Jornal da Cidade na ITE e falou sobre sua vocação para o serviço social, sua experiência no Exterior e seu corrido dia-a-dia. Também conhecida pela elegância e por vencer o tempo com sua aparência sempre jovial, não evitou falar sobre vaidade e beleza. Leia os melhores trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como a senhora optou pelo serviço social?

Egli Muniz - Fiz um teste vocacional e as alternativas que eu tive foram medicina e serviço social. Eu não me identificava com essa área da saúde e tinha uma amiga que fazia serviço social em Lins. Ela me falou do curso e acabei fazendo o vestibular. Entrei na faculdade em 1964, na segunda turma de serviço social da ITE. Me formei em 1967 e em 1969 comecei a trabalhar como supervisora, depois como professora. Naquela época, existiam poucas faculdades de serviço social no Estado de São Paulo. Tive a oportunidade de começar a dar aulas ainda muito nova. Na diretoria da faculdade, estou desde 1987.

JC - Como surgiu o conceito de trabalho nessa área?

Muniz - Os primeiros assistentes sociais surgiram em movimentos ligados à Igreja Católica, em um período no qual houve um acirramento da desigualdade social no mundo por conta da Revolução Industrial e da própria evolução do Capitalismo. As ações começaram em trabalhos voluntários ligados à Igreja, depois houve uma profissionalização. A primeira escola de serviço social no Brasil surgiu em 1936, mas o grande avanço na profissão veio a partir da década de 60. Hoje o serviço social brasileiro tem uma influência muito grande na América Latina como um todo e também no sul da Europa, em especial em Portugal. As pós-graduações portuguesas começaram no Brasil.

JC - Hoje o curso é muito procurado?

Muniz - A procura é grande. A profissão vive um momento de aumento da demanda por conta até da consolidação da Constituição de 1988, estamos em um estado democrático e do bem-estar social. As políticas sociais estão se ampliando e tudo isso repercute na profissão, porque ela trabalha especialmente nas políticas públicas, tanto na gestão como na execução. Mas é uma área ampla, onde há a possibilidade de atuação em empresas, ONGs, no terceiro setor em geral, no judiciário... O mercado de trabalho tem crescido nos últimos anos.

JC - O número de mulheres que cursa serviço social é bem maior do que o de homens. Ainda há um preconceito sobre a profissão?

Muniz - Há sim, mas é um engano. Os homens, inclusive, acabam sendo empregados rapidamente porque existem algumas áreas nas quais os homens têm um trânsito mais fácil, como a judiciária, por exemplo.

JC - Qual o perfil da pessoa que decide ser assistente social?

Muniz - Eu acredito que, para ser assistente social, é preciso gostar de trabalhar com pessoas, com as quais a gente lida o tempo todo, ter liderança, iniciativa. A pessoa precisa ter uma capacidade de analisar as situações e planejar como superar as dificuldades. A medida em que a idade vai chegando, eu acredito cada vez mais que, além disso tudo, é preciso ter uma capacidade de relacionamento muito grande e muita humildade para saber aceitar os desafios e admitir os erros que acontecem. Claro, é preciso honestidade e ética.

JC - Qual o grande desafio da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social?

Muniz - É a ampliar a cobertura da assistência social para a população de maior vulnerabilidade do Município. Acredito, pelos números, que temos conseguido melhorar bastante a situação, mas é um desafio. Nós fizemos a implantação de um novo modelo de política de assistência social no Município, vendo a assistência como política pública mesmo, dever do Estado e direito do cidadão. Isso exigiu uma grande mudança de toda a equipe da secretaria, um envolvimento, uma compreensão da filosofia que estava aplicada e também das entidades sociais parceiras. Até então se tinha a idéia de que a secretaria repassava recursos para ajudar as entidades a se manterem e, hoje, as entidades prestam um serviço público e para isso são financiadas. É uma outra perspectiva, até porque elas desenvolvem serviços que seguem um modelo estabelecido, com metodologia, monitoramento, resultados preestabelecidos, prestação de contas e avaliações sistemáticas. Acredito que tivemos um salto de profissionalização da política social no Município, sem querer, de maneira alguma, desqualificar o que era feito antes. Acho também que tivemos a sorte de implantar o sistema único de assistência social no Brasil.

JC - O governo federal tem sido criticado por seu trabalho na área social. A oposição o acusa de ser excessivamente assistencialista. Como a senhora vê a política social da administração Lula?

Muniz - Sem dúvida alguma, e as pesquisas têm demonstrado isso, as ações do governo permitiram a diminuição do índice de pobreza no País. É claro que isso está aliado a outras questões também mas esse foi um fator determinante. A crítica que se faz é que, se o governo ficar só no benefício da transferência de renda, dificilmente a população vai ter a chance de se emancipar, ter autonomia e se desvincular desse benefício. Eu entendo que é preciso haver uma política educacional junto e o programa do governo exige a matrícula e a freqüência da criança na escola, então é uma forma de tentar garantir a questão da educação. Eu tenho visto também bastante esforço por parte dos governos federal, estadual e municipal no sentido de melhorar a qualidade da educação, que eu acredito que seja o grande desafio do momento. Quando tivermos uma educação universalizada e de qualidade para todos, com certeza, o índice de pobreza da população brasileira vai cair. É lógico que é preciso também de saúde para a população ter um salto de qualidade, quando se fala de pobreza.

JC - A senhora acredita que o governo está no caminho certo?

Muniz - Especificamente no âmbito da política de assistência social, eu tenho a grata satisfação de participar de uma consultoria do Ministério do Desenvolvimento Social para padronizar os serviços sócio-assistenciais, na perspectiva de que os usuários dos programas de transferência de renda sejam também inseridos nesses serviços. Bauru é um estudo de caso nesse projeto junto de mais quatro municípios brasileiros porque aqui conseguimos padronizar os serviços com todas as entidades, o que muito me orgulha. O que se pretende é fazer isso em âmbito nacional e há também um entendimento do ministério de que é necessário ampliar os recursos para os programas sócio-assistenciais para que os municípios tenham a possibilidade de aumentar as ofertas destes serviços para a população. Eu acredito, honestamente, que se isso vier a acontecer, se continuar acontecendo, teremos um outro salto em relação a superação da pobreza no Brasil.

JC - Qual foi a experiência mais marcante que a senhora já viveu como assistente social?

Muniz - Quando eu era recém-formada, eu comecei a atuar na Vila Ipiranga, em meu primeiro trabalho como profissional, em um centro comunitário. O bairro era um dos mais pobres de Bauru na época e a gente se deparou com uma mãe de vários filhos - crianças pequenas ainda - que chegou chorando porque não tinha nada o que comer em casa. Aquilo me marcou muito na época. No Crami (Centro de Registro e Atenção aos Maus-Tratos à Infância, da Fundação Toledo) também vi algumas situações de violência contra crianças que foram muito marcantes, como um caso de abuso sexual de um pai com suas três filhas. Foi um caso muito difícil de se lidar, mas quem gosta da profissão gosta de desafio. Quem não quer desafio não deve fazer serviço social. O serviço social é uma luta constante, mas acredito que as coisas boas, os aspectos positivos da profissão, são muito maiores que as dificuldades.

JC - A senhora morou fora do Brasil. Conhece muitos países? Que experiências e boas lembranças trouxe deles?

Muniz - Não fiz tantas viagens, foram algumas a passeio e outras a trabalho. A principal delas foi à Portugal e Espanha, onde permaneci por quatro meses desenvolvendo minha pesquisa de doutorado. O estudo foi sobre os serviços de proteção social, mais especificamente os serviços sócio-assistenciais, comparando Portugal e Brasil, e, mais particularmente, Porto e Bauru, o qual deu origem a um livro publicado pela Cortez, em 2005. Por causa deste estudo, fui convidada para realizar a consultoria para o Ministério do Desenvolvimento Social. Morei no Porto, que tem lugares lindos. Fiz uma viagem à Serra da Estrela, em Portugal, que foi inesquecível. Fui percorrendo as vinhas no outono, subindo o D’Ouro e parando em aldeias antiquíssimas incrustadas nos montes - Beira Alta, Penedono, Trancoso, Linhares... Em Gouveia, nosso jantar foi um borrego assado com batatas ao murro e couve portuguesa. Não há como esquecer disto. As ruelas do centro velho de Coimbra, a Alfama, em Lisboa. Barcelona também me encantou: as obras de Gaudí, La Pedrera, a Sagrada Família.... Mas o que mais me marcou positivamente foi a consciência de cidadania em muitos dos países que visitei. Temos, ainda, um longo caminho a percorrer na concretização das nossas leis, que são realmente avançadíssimas, implementando políticas públicas capazes de assegurar direitos, e principalmente os direitos sociais, em caráter universal. Acredito que avançamos muito neste aspecto nos últimos anos, mas ainda resta muito a avançar.

JC - O seu dia é dividido pelo trabalho na secretaria e na faculdade. Como a senhora administra as duas funções?

Muniz - O meu dia começa normalmente às 6h, com uma caminhada. De manhã, vou para secretaria e lá fico o dia todo, muitas vezes almoço por lá mesmo. Quando saio de lá, vou para a faculdade, por volta das 18h, e fico, geralmente, até 22h. Não me sobra muito tempo durante a semana. Só o domingo é “sagrado”. É quando procuro descansar para agüentar o ritmo. Mas tenho duas boas equipes que me ajudam, na secretaria e na faculdade.

JC - A senhora freqüenta a academia de ginástica?

Muniz - Sim, o tempo é curto mas eu tento ser regular.

JC - A senhora é uma mulher vaidosa?

Muniz - Sou, confesso. Sempre fui, gosto de me arrumar...

JC - Também não aparenta idade...

Muniz - Acho que não... Na verdade, eu sou vaidosa, mas procuro é cuidar da minha saúde. Minha família toda não aparenta idade. Acho que é uma questão de genética, não é uma obsessão até porque não dá tempo. É tranqüilo, mas acho que a gente tem a obrigação de se cuidar. No meu caso acredito que é um pouco da herança do meu pai mesmo. Ele era muito preocupado com alimentação e exercício físico.

JC - Não há um segredo de beleza, então?

Muniz - Graças a Deus, sou uma pessoa otimista, de bem com a vida, de bem com Deus, comigo mesma e, na medida do possível, de bem com os outros. Acho que isto, e o equilíbrio que procuro manter, me ajudam a viver melhor e talvez isto reflita na minha aparência.

JC - A senhora tem algum sonho?

Muniz - Continuar trabalhando e ver os frutos do trabalho que nós estamos desenvolvendo se consolidarem. Pretendo morrer trabalhando, se Deus me der essa bênção vou morrer feliz. O trabalho é o que me dá satisfação e sou muito feliz por isso. Também sou bauruense de nascimento e de coração, adoro essa cidade e sonho que a gente possa ver a pobreza em Bauru diminuir.

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Perfil

Nome completo: Egli Muniz

Local de nascimento: Bauru

Idade: 61 anos

Filhas: Cristiane (36 anos), Maura (35 anos) e Daniele (33 anos)

Hobby: Gosto de ouvir música e ir ao cinema, quando é possível.

Livro de cabeceira: A Bíblia.

Filme preferido: Assisti recentemente “Diamante de Sangue” (de Edward Zwick), me marcou muito.

Estilo musical predileto:Bossa Nova e MPB.

Time de coração: Não tenho um, não sou muito ligada em futebol.

Para quem daria nota 10: Jesus Cristo.

Para quem daria nota 0: Para os corruptos.

E-mail: eglimuniz@bol.com.br