09 de julho de 2026
Geral

Arquiteto ajudou a moldar a paisagem urbana de Bauru

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 6 min

Azulejos, traços modernos, linhas retas, disposição não convencional da construção no terreno. Brasil e Portugal. Características que não vêm apenas dar a “cara” de um dos edifícios mais conhecidos de Bauru, o Brasil-Portugal, no cruzamento das avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves. Cada detalhe e a utilização de materiais convencionais de forma diferente são marcas registradas de Fernando Ferreira de Pinho, mais conhecido como Fernando de Pinho, arquiteto que trocou a cidade do Porto, Portugal, pelas terras brasileiras.

Há cerca de meio século, a paisagem de Bauru começava a ganhar ares modernistas e influenciados, abertamente, pela Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto. Pinho, admirador dos projetos do francês Le Corbusier, também trazia à paisagem urbana de Bauru um pouco da liberdade de suas idéias e traço. Falecido em 2000, deixou projetos concluídos de três igrejas, casas, edifícios residenciais e comerciais, um clube e um bairro inteiro. Mais: deixou influências na arte da arquitetura. Deixou saudades e histórias.

O JC foi até o escritório de Maria Teresa Martha de Pinho Meca, 44 anos, arquiteta e filha de Pinho. Lá, estavam reunidos dona Maria de Lourdes Martha de Pinho, 79 anos, empresária, esposa do arquiteto. Também Fernando José, 52 anos, economista, e Francisco Roberto, 49 anos, advogado, filhos do casal. Ali, em volta de uma mesa, uma conversa de uma hora e meia trouxe à tona mais do que a vida profissional do arquiteto Fernando de Pinho.

Dona Maria de Lourdes começa. Ela conheceu Fernando no Porto, em um recital de piano em que tocara. “Fernando era amigo de uma colega de classe e na hora do intervalo, me pediu um autógrafo. Foi amor à primeira vista. No dia 12 de junho de 1949, eram as Bodas de Prata de meus pais e ele sentou-se ao meu lado e me deu uma rosa”, lembra Maria de Lourdes.

Naquela época, o jovem Fernando, nascido em 1921, estava em vias de completar o curso de arquitetura. Seriam três anos de namoro à distância, quando ele então veio ao Brasil, em 1952. Já em São Paulo, o arquiteto passou por alguns escritórios como colaborador e sócio. Lá, o Brooklin, entre outros bairros, guarda casas com sua assinatura, e também um grupo de residências construído em Santo Amaro. Este foi um dos primeiros trabalhos da Construtora Martha e Pinho.

Logo depois, Fernando de Pinho se mudaria para Bauru para nunca mais deixar a cidade. Aqui, uma de suas obras mais marcantes foi o Jardim Estoril 1, aberto pelo Comendador José da Silva Martha, pai de sua esposa. O bairro foi parcialmente urbanizado por Pinho e 120 projetos de moradias desenhados, 40 deles executados dentro do projeto “Lar Brasileiro”. O próprio arquiteto viria a morar no bairro alguns anos depois, com sua família.

Máxima liberdade

Trabalhador inscansável, sempre envolvido com projetos, Fernando de Pinho criou os filhos sob o lema “Máxima liberdade, máxima responsabilidade”, e assim buscou a felicidade e a realização pelo trabalho arquitetônico sem deixar a família de lado. Essa querença por tudo aquilo que é livre fez com que deixasse as terras lusitanas pelo Brasil. “Naquela época, em Portugal, só se podia projetar no estilo manuelino”, explica a filha Maria Teresa.

Era o final dos anos 40, quando o governo de Antônio de Oliveira Salazar condenava qualquer diferença, mesmo em arquitetura, subversão e suspeita de comunismo. “Era uma época em que as idéias de Le Corbusier e da arquitetura moderna estava acontecendo e a Escola de Belas Artes do Porto era influenciada pela escola de Paris. Meu pai se encantava pelas novas idéias, pela arquitetura limpa”, completa a também arquiteta.

Vir para o Brasil, um país em que a arquitetura moderna era muito presente, fez com que as obras de Fernando de Pinho se consolidassem. Desde Portugal, o arquiteto tentava empregar em seu traço aspectos do ambiente e dos costumes locais, mas é impossível dizer que toda a alma da arquitetura portuguesa não estivesse presente em seus projetos. Azulejos e pedras, por exemplo, sempre faziam parte das fachadas, peças claras de uma “escola”, como disse o arquiteto Joaquim Guedes ao ver a obra de Pinho.

“A riqueza do trabalho de meu pai foi conseguir fazer uma boa arquitetura com materiais limitados, industrializados e, às vezes, até rústicos demais. Ele dava um toque diferente àquilo que era corriqueiro numa Bauru ainda limitada em mão-de-obra e matérias-primas”, pontua Francisco.

A arquitetura para Pinho era franca, as faces das construções davam a exata idéia daquilo a que se prestava. Um prédio comercial não parecia residencial e vice-versa, como exemplo os edifícios bauruenses Pioneiro e Vila Real.

Para que as construções ganhassem ainda mais, a prancheta dividia espaço com o canteiro de obras. A convivência com os trabalhadores, a forma como o prédio subia tijolo a tijolo e como o concreto era preparado e colocado eram sua rotina. “Outro aspecto marcante é a implantação do edifício como o Brasil-Portugal, ‘fugido’ do lote. A cidade toma outra concepção, tem outra vida”, diz Maria Teresa.

O arrojo de Fernando de Pinho fez com que três de seus projetos se transformassem em referência nacional de arquitetura em revistas especializadas nos anos 60 a 80, incluindo mídia especializada, como a “Acrópole”, e de variedades, como a “Manchete”. A vedete maior, sua menina dos olhos, era o edifício Brasil-Portugal.

Mas um outro lado de sua arquitetura só apareceu nos projetos das três igrejas executadas em Bauru. As obras compreendiam mais do que as áreas realmente construídas, mas mesmo assim a devoção por um deus superior lá está. As igrejas matrizes de Santo Antônio, no Jardim Bela Vista, e de São Benedito, na Vila Falcão, e o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Estoril, com suas linhas retas, transparecem uma simplicidade monumental. Era assim, pela grandiosidade do simples, que Fernando de Pinho conquistava. “Menos é mais”, como diria o também arquiteto alemão Mies van der Rohe.

Por toda a representatividade da obra de Fernando Ferreira de Pinho, durante a segunda edição do Festival Imobiliário de Bauru (Feimob), esteve exposto um painel sobre a obra do arquiteto. Também foi realizada uma homenagem, que trouxe parte significativa da obra de Pinho ao conhecimento do público.

____________________

Pioneiro da Unesp

O arquiteto Fernando Ferreira de Pinho ainda fez parte da fundação da Escola de Belas Artes de Bauru (Ebab), no ano de 1965, ao lado da União Bauruense de Artistas Plásticos.

A escola visava difundir a cultura artística e formar professores de desenho. Posteriormente, em 1968, a Ebab seria incorporada à Fundação Educacional de Bauru (FEB), hoje Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Pinho ainda ocuparia a cadeira de Arquitetura e Urbanismo na Faculdade de Engenharia e Tecnologia da antiga FEB nos anos de 1975 e 76.