11 de julho de 2026
Saúde

Inaugurado por Vargas, cassino foi palco de namoro e sessões de jazz

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 2 min

Os hospitais-colônia começaram a ser construídos no Brasil no início do século passado, mas tiveram impulso a partir da década de 30 com o ex-presidente Getúlio Vargas. Foi nessa época que foi inaugurado o asilo-colônia Aimorés, em Bauru.

De acordo com o pesquisador e doutor em história cultural José Augusto Leandro, Getúlio Vargas acelerou a construção dos hospitais-colônia porque ele estava preocupado com a modernização do País. “E lepra não combinava com modernização. É uma doença muito antiga, da época em que a Bíblia foi escrita”, explica.

O ex-presidente Getúlio Vargas esteve em Bauru em 1938 para inaugurar o cassino do asilo-colônia Aimorés. O cassino transformou-se no principal centro de diversão dos internos. Além de jogos e apostas, o local serviu por muito tempo como salão de baile, sala de cinema e de teatro, entre outras atrações.

Foi ali que Milton José Ramos, 68 anos, conheceu Elvira Bertoldo Ramos, 61 anos. O namoro virou casamento em menos de um ano. Segundo Milton, havia poucas mulheres na colônia. Por isso, quando chegava uma garota todos os homens solteiros iam dar as boas-vindas, na esperança de chamar a atenção da moça.

Milton chegou a Bauru com 23 anos, vindo de Guararapes. Ele conta que estar dentro do hospital Aimorés, naquela época, era melhor do que estar fora dele. “Tinha de tudo aqui. Tinha rádio que tocava música no alto-falante. Vinha muito artista visitar a gente”, lembra ele.

Segundo as contas de Elvira, que chegou a Bauru com 18 anos, vinda de Taquarituba, os bailes no hospital-colônia cessaram na década de 70. Foi logo após a entrada de Edevaldo Cardoso de Souza, 69 anos, como baterista da Jazz Band, grupo que animava todos os bailes e festas dentro da colônia. A banda era formada por portadores de hanseníase internados em Bauru.

Souza passou três anos tocando bateria na Jazz Band. Segundo ele, os bailes eram realizados todos os sábados, das 19h à meia-noite, e tinham também as quatro noites de Carnaval. Lembranças que ele guarda com muito carinho. “Era uma satisfação muito grande poder oferecer momentos de alegria e diversão para as pessoas internadas aqui”, confessa. Souza veio de Valparaíso e chegou a Bauru em 1970.

Nivaldo Mercúrio, 80 anos, também recorda com saudade a época dos bailes semanais, das sessões de cinema, dos rodeios e dos campeonatos de futebol contra times de outros hospitais-colônia do Estado de São Paulo. Segundo ele, a equipe de Bauru nunca conseguiu um título.

Nivaldo é o morador mais antigo do Instituto Lauro de Souza Lima. Ele está lá há 64 anos. “Esse é o meu cantinho do céu. Quero continuar morando aqui”, afirma. Quando chegou, Nivaldo sofreu um bloqueio psicológico e emocional e ficou 31 anos sem dizer uma palavra. Hoje, comunica-se com desenvoltura e causa espanto seu nível de conhecimento e a memória ainda bem apurada.