Você sabe o que é ortorexia?
Prezado leitor,
Você já ouviu falar ou sabe o que é ortorexia? Para quem não sabe ou não conhece, ortorexia nada mais é do que a preocupação obsessiva e patológica com a alimentação correta e saudável. A crítica excessiva e doentia em relação a alimentos vem demonstrando ser, de algum modo, prejudicial à saúde. Esse comportamento geralmente aparece associado a quadros de depressão ou transtornos obsessivos compulsivos, podendo evoluir, em associação, para a anorexia, uma condição mais grave.
A pessoa ortoréxica não consome, em hipótese alguma, alimentos como doces, hipercalóricos, com gorduras, conservantes, herbicidas e pesticidas, produtos animais, etc. Este transtorno pode provocar a perda significativa da sociabilidade, sendo então pessoas que preferem não se alimentar se não tiverem a certeza da proveniência dos alimentos altamente saudáveis. Quem não conhece pelo menos uma pessoa que acha um nojo tudo o que não é confeccionado em sua casa? Ou que, se transgride em apenas 100g na dieta, fica três dias sem se alimentar?
Ao contrário da pessoa anoréxica, a ortoréxica não está preocupada com o excesso de peso nem tem uma percepção errada e distorcida do seu aspecto físico. A sua obsessão centra-se em manter uma dieta equilibrada e sã, de tal modo que esta se converte num estilo de vida. A consciência da necessidade de uma alimentação saudável é compreensível e desejável, dada a sua comprovada implicação na prevenção de determinadas doenças. No entanto, torna-se disfuncional quando interfere de forma negativa na vida da pessoa, ou seja, perde-se o objetivo inicial de vida saudável no sentido físico, psicológico e social.
Há uma interferência clara com as atividades de rotina diária e com as relações interpessoais, podendo chegar à ameaça da integridade física. É um ciclo vicioso e uma forma inadequada de lidar com o medo da doença, além de trazer algumas conseqüências graves, como a anemia ferropriva (carência de ferro) por não consumir carnes vermelhas e algumas hipovitaminoses (A, D, E e K) por não consumir gorduras, sendo que estas são lipossolúveis.
Obsessão por comer bem
As vítimas da ortorexia passam horas e horas percorrendo prateleiras de supermercados lendo os rótulos dos produtos, pesquisando sobre os ingredientes de alimentos industrializados na Internet e percorrem longas distâncias à procura de alimentos orgânicos, aqueles isentos de agrotóxicos. Chegam num ponto de utilizar uma determinada panela exclusiva para cada grupo alimentar. Tomar água e cozinhar, só se for mineral. Quanto aos adoçantes dos refrigerantes, nem pensar. E ainda recriminam as pessoas ao seu redor que consomem os tais produtos.
Para muitas pessoas parece no mínimo estranho quando a estética perde a importância e o que vale é ser saudável. A busca por uma dieta totalmente benéfica ao organismo, ao contrário do que alguns pensam, pode sim se transformar num problema: basta virar obsessão.
Critérios de diagnóstico
Eis alguns critérios que podem ajudar a identificar uma pessoa ortoréxica:
1) Passar mais de três horas por dia pensando na ementa para uma dieta sã;
2) Preocupar-se mais com a qualidade do que com o prazer de comer;
3) Conforme aumenta a pseudoqualidade da alimentação, diminui a qualidade de vida;
4) Complexo de culpa quando se transgride nas convicções dietéticas;
5) Planificar hoje o que se vai consumir amanhã (não se deita sem programar as refeições do dia seguinte);
6) Isolamento social pelo regime dietético. Por exemplo, aquelas pessoas que não comem com seus amigos porque não confiam no que se come por aí, chegando ao ponto de levar sua própria comida ou não participar da refeição.
Tratamento
A condição ortoréxica afeta igualmente os homens e as mulheres. Os tratamentos dispensados devem ser de psicoterapia comportamental, cognitiva e até medicamentoso com um médico psiquiatra. É interessante também um aconselhamento nutricional.
A existência desse transtorno não significa que se deva deixar de lado a preocupação com uma alimentação saudável. Segundo pesquisas, uma dieta com grande quantidade e variedade de vegetais pode prevenir aproximadamente 20% dos casos de cânceres. Por outro lado, mostram que problemas de saúde decorrentes dos maus hábitos alimentares, como a obesidade e as doenças do coração, estão aumentando.
O negócio é não exagerar na vigilância alimentar e sim comer bem sem paranóia, ser sociável e também se dar o luxo de ter umas férias nutricionais.
Um grande abraço e até o próximo domingo.
Daniela Hueb
Médica nutróloga e pós-graduada em dermatologia estética - CRM-SP 96.027.
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