Um grupo de 500 agentes e operadores de viagens desembarca nos principais circuitos turísticos do Estado em novembro para traçar um diagnóstico dos destinos mais atraentes e seu respectivo potencial de exploração imediata para visitação.
A informação é da ministra do Turismo, Marta Suplicy. Em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ), ela revela os planos para incrementar os roteiros do Interior e classifica a ‘caravana’ dos profissionais do setor pela região como um impulso revolucionário para popularizar recantos de turismo ecológico, religioso e de negócios. “Como são agentes de viagens, eles precisam conhecer o produto que eles vão vender”, diz.
De olho em um filão prodigioso na geração de emprego e renda, ela tem na ponta da língua a equação do segmento turístico no País. “Hoje temos 140 milhões de brasileiros que viajam, agora viajam geralmente para cidades onde têm família, ficam na casa da sogra. Temos que criar um caldo cultural para a viagem pela viagem e não pela visitação.”
Defensora da aviação regional como alternativa para fomentar o turismo, Marta afirma ter enviado ao Ministério da Defesa um relatório detalhado com os aeroportos de São Paulo que podem servir aos principais destinos de visitantes e que merecem atenção - e recursos - da União.
Para ela, a crise aérea é coisa do passado. “O momento pior já passou”, diz Marta, que, no ápice do apagão chegou a recomendar que o passageiro “relaxasse a gozasse” diante dos atrasos nos vôos.
A ministra figura como nome obrigatório em qualquer lista de pré-candidaturas do PT à prefeitura de São Paulo, ao governo estadual e à presidência da República, mas garante: desenha sua agenda à margem do calendário eleitoral. “Essa discussão foi antecipada de uma forma que não interessa a ninguém. É prematuro. Não me coloquei como candidata nem em 2008 nem em 2010.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Associação Paulista de Jornais - Como caminham os programas do ministério para o Estado de São Paulo, especialmente os que tratam da regionalização dos circuitos?
Marta Suplicy - Temos feito projetos de regionalização no Brasil todo. E o de São Paulo nós vamos incrementar com um convênio com o governo do Estado de R$ 400 mil. Este projeto dá os subsídios para o ministério prever os investimentos que precisam ser feitos para alavancar as regiões turísticas. Nós temos a Capital, que hoje é um chamariz internacional no setor de eventos. É o local do Brasil mais conhecido para negócios. O Interior pode se transformar num local de eventos também. Como estava conversando com o prefeito de Campinas, que gostaria de ter um centro de convenções, que ele está encaminhando com uma parceria privada. Ou, por exemplo, na região de Ribeirão Preto, que pode ser um local que comporta um centro de convenções principalmente hoje por causa da questão do biodiesel, do etanol. Faz falta ter um lugar que possa abrigar conferências sobre este assunto que hoje está na pauta do mundo.
APJ - Mas há liberação de recursos?
Marta - É um ministério que não tem recursos, tem um orçamento de R$ 1,8 bilhão e, deste total, R$ 1,4 bilhão é referente a emendas. Chamei os deputados de todas as bancadas e mostrei as emendas que interessam ao Estado como estruturantes. Eles ouviram bem. Todos ganharam livros com todos os projetos, com o porquê de cada obra. E estamos implantando escolas em todo o Estado com recursos do próprio ministério. Já temos cinco.
APJ - Como se pode vender o Interior como destino?
Marta - Estão vindo 500 operadores para o Estado com esta idéia de incrementar o turismo no Interior. Dia 10 de novembro, 250 desembarcam na região das frutas. Como são agentes de viagens, eles precisam conhecer o produto que eles vão vender. Então eles vão conhecer os lugares que fabricam geléias, que fabricam licor, vão visitar os apiários, os orquidários, as fazendas de avestruz, as fazendas históricas, a escola agropecuária. Todos os roteiros que interessam ao turista e hoje não temos de forma organizada. Isso para os prefeitos foi excelente. Nunca houve um incremento tão violento de ações para as regiões. Hoje temos 140 milhões de brasileiros que viajam, agora viajam geralmente para cidades onde têm família, ficam na casa da sogra. Temos que criar um caldo cultural para a viagem pela viagem e não pela visitação.
APJ - E o papel dos consórcios intermunicipais? Isso facilita?
Marta - Os consórcios são facilitadores. Juntas, as regiões conseguem agregar valor e ter mais força na disputa turística. A disputa turística é muito acentuada no Brasil e no exterior. Para você trazer turista ao Brasil, é uma disputa a tapa e ouro. Os mercados investem muito, as agências investem muito. Agora começamos a trazer operadores do Exterior para conhecer os destinos. O turista japonês você não pode vender sol e praia, pois ele tem interesse em música e belezas naturais. Vai para o Amazonas, para Foz do Iguaçu. Estamos focando. Vamos fazer propaganda nos Estados Unidos e aí vamos divulgar as praias, pois queremos competir com o Caribe.
APJ - Mas o turista estrangeiro pode se interessar pelos destinos do Interior?
Marta - Para o turista estrangeiro temos a Capital como foco. Agora quando estivermos organizados os circuitos de fazendas de café e de frutas, aí eu acredito que é um turismo vendável. Isso, a gente trazendo as agências, elas já podem ir fazendo de forma autônoma. O ministério não vende roteiro. A gente propicia as agendas, as coisas com infra-estrutura organizada e as agências fazem os trabalhos de vendagem lá fora. O Interior de São Paulo ainda está se organizando turisticamente. Por que o turista que vem passar o fim-de-semana na Capital não pode visitar as cidades do Interior?
APJ - A senhora tem identificado alguns destes roteiros mais promissores?
Marta - Agora tem o turismo muito legal, em Socorro. Que é o turismo para o portador de deficiência, desde o tetraplégico até o cego. E nós, quando vimos isso, achei que era um nicho muito importante para desenvolver. E principalmente focado em turismo radical. Eles têm 17 modalidades de aventura. Desde rafting até algumas coisas que eu nem sei o que significa. O ministério vai ajudar a incrementar mais do que eles têm hoje. O programa do “Viaja Mais, Melhor Idade”, um dos lugares que os idosos vão passar é lá, por causa da acessibilidade. O turismo da Melhor Idade vai ajudar também o Interior paulista, em cidades como Campos do Jordão.
APJ - As estâncias, principalmente as menores, sobrevivem basicamente dos repasses do FPM e recorrem constantemente ao Dade para garantir subvenções. Como o ministério pode apoiar estas cidades?
Marta - Olha, o ministério tem poucos recursos. Mas, veja só um exemplo. Os prefeitos com quem me reuni na segunda-feira entregaram projetos. Nós vamos estudar e, dentro do limite que nós temos, vamos tentar ajudá-los. Agora, posso lembrar que estes 500 agentes de turismo vão visitar Ubatuba e São Sebastião, Santos e Guarujá e depois vão para Campos do Jordão e ainda para o Circuito das Águas. Agora o “Viaja Mais, Melhor Idade” está entrando nestas pequenas cidades. Este projeto não é de ocasião, ele vem para ficar.
APJ - Qual o impulso que falta para o turismo se transformar numa indústria efetiva que gere emprego e renda no Brasil?
Marta - Aqui o consumo aumenta há 42 meses consecutivos, a massa salarial aumentou, a inflação controlada, o crédito consignado, nós precisamos colocar na cesta de consumo do trabalhador a viagem também. Não temos a cultura da viagem. Tem prestação de 12 vezes para viajar. É um caldo cultural que a gente vai ter que assimilar.
APJ - Nesta última semana, a senhora liberou recursos para a Maria-Fumaça de Campinas...
Marta - Sim, hoje as Marias-Fumaças fazem parte do patrimônio de vários Estados. Isso eu estou vendo sob dois aspectos. É a recuperação do patrimônio histórico de cada cidade. É o resgate de costumes. É a história da cidade e é algo turístico. A criança adora andar, os idosos gostam. E as pessoas da cidade vão gostar. É um nicho turístico importante. Como o nicho do turismo religioso. No último mês como fui em procissão, meu Deus... Fui à procissão da Boa Morte, em Cachoeira (BA), fui no Ceará, em Canindé de São Francisco das Chagas e fui ao Círio de Nazaré. E estou vendo o quanto movimenta. O povo brasileiro é um povo muito espiritualizado. É um nicho que ninguém havia acordado, nem a Igreja e nem o turista.
APJ - E há vários Santuários no Estado...
Marta - Tem muito, em Aparecida o ministério sinalizou. Demos bastante recurso para a cidade na visita do papa. Iluminamos, sinalizamos, fizemos parceria para hotelaria. A outra coisa é que queríamos que a economia girasse na cidade. Este esforço estamos fazendo. O Brasil está despertando, o turismo religioso sempre foi forte espontaneamente, agora pode ser forte de maneira organizada.
APJ - E os pequenos aeroportos? Como podem interagir neste processo e facilitar o turismo?
Marta - Isso todos os Estados vêm me pedindo. Foi interessante. Quando colhi os projetos estruturantes, não teve um governador que não pedisse ou a melhoria de um aeroporto existente ou um novo aeroporto. Eu acho que eles têm razão. Quando falo para as bancadas, peço que se façam emendas sobre os aeroportos. Em cada Estado tenho falado com um senador para encaminhar. O ministério não tem recurso, a não ser que seja pequeno. Como no Piauí, demos R$ 6 milhões para torná-lo mais receptivo. Mas são recursos limitados.
APJ - Há alguma intervenção oficial neste sentido?
Marta - Agora o Ministério do Turismo preparou todo um mapa de aviação regional e entregamos para o ministro Nélson Jobim (Defesa). Ele tem que fazer um esforço junto com a Anac para que a aviação regional passe a funcionar. Porque não dá para você não ter vôos que liguem as cidades. Hoje você, para ir de Belém para uma cidade vizinha, tem que ir a Brasília. O ministro Jobim escutou, está vendo quais as possibilidades. Conversamos com o BNDES para que se financie. Tem que ser avião de menor porte, para que se possa lotar.
APJ - Mas o Interior pode ser contemplado?
Marta - Pode, nós fizemos. O nosso País é um continente e nosso Estado é enorme. Muitas vezes para você cruzar o Estado é difícil e com o preço das companhias aéreas, dá para incrementar o turismo com a aviação regional. No Estado de São Paulo é um pouco mais fácil, mas é precário ainda se comparado com outros países que têm um turismo mais desenvolvido. Sem aeroporto regional e aviação regional, o turismo fica estrangulado.
APJ - A senhora aparece bem nas pesquisas para a corrida eleitoral em São Paulo. A ministra será candidata à prefeitura ou está voltada para 2010?
Marta - Eu acho que esta discussão toda, de 2008 e 2010, totalmente prematura porque eu estou fazendo um trabalho como ministra, estou engajada. Eu não acho que é o momento de falar. Porque se eu falar de 2008, você vai falar de 2010. E assim nós continuamos, porque eu acho que não é o tema para falar este ano. Não tem vantagem para ninguém. Eu acho que o (Gilberto) Kassab também não tem nenhum interesse em antecipar, porque isso prejudica muito.