09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: Um mateiro inesquecível


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João Luiz dos Santos era o seu nome, mineiro de nascimento, paulista por opção e avaiense de coração. Era ainda fanático pelo gaúcho presidente, Getúlio Vargas, por quem brigava até cair morto, segundo as suas próprias palavras.

Ele tinha 100 anos de idade quando eu era criança e o conheci como agregado de sítios e fazendas da região de Avaí, onde trabalhava nos cafezais por pouco dinheiro para sustentar suas pequenas despesas. Aliás, os cafezais faziam parte da sua longa existência desde pequeno. Por ser ele quase azul de tão preto, já passara pelo horror da escravidão, pelos castigos dos troncos e pelo separatismo das senzalas.

Mas o João Luiz era um preto alegre e divertido, gostava de politicar, cantar e fazer versos, apesar do seu analfabetismo. Também gostava de caçar, pescar e rezar.

Quando ele rezava, falava assim:

- “Jesus Cristo si arretirô, os espritos si achegô;

Santa Maria si achegô, os espíritos sei arretirô;

Ô Jesus, Santa Maria! Oooora pro nobis!”.

Vendo-o rezar assim, meu irmão mais velho lhe perguntou:

- “Seu João, você diz que não é católico, mas reza como um católico, mas se você é crente, como é que você come de todo tipo de bichos que caça, até os ratos?”

Então João Luiz parou de fumar o seu cachimbo fedorento, cuspiu longe e respondeu:

- “Olha seu moço, eu sou da religião do gado que se ajoelha para deitar e se ajoelha para levantar”. E olhando para o horizonte longe, ainda prosseguiu:

- “Se eu tenho uma capivarinha, eu agradeço e crau, se eu tenho um tatuzinho, eu agradeço e crau e se eu tenho uma cachacinha bem branquinha, eu também agradeço e crau”.

Certo dia o mano-velho foi terminar um serviço mal parado da semana anterior justamente onde o João Luiz encontrava-se agregado, conversaram um pouco e depois um foi trabalhar e o outro foi caçar.

Aquele trabalho demorou mais do que o esperado, o que atrasou o almoço do rapaz, porém o preto velho, que a tudo observava, apressou-se em preparar-lhe algo de comer, o que consistia numa cuia de porunga cheia com pedaços de nhambu fritos. Mano-velho comeu tudo, lambeu os dedos e os beiços e ainda agradeceu:

- “Muito obrigado, seu João, seu nhambu frito estava delicioso”.

- “Por nada, seu moço. Estava bom assim porque eu fritei o nhambu na mesma gordura em que fritei um rato”.

Eurico de Oliveira é pescador e contador de histórias.