10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Mulher ganha a vida como pedreira

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 3 min

Cimento, espátula e colher são materiais que fazem parte do cotidiano profissional de qualquer pedreiro. Mas poucas pessoas imaginam que equipamentos como esses possam servir também como ferramentas de trabalho para muitas mulheres.

Preparar massa de cimento e assentar tijolos todos os dias é a rotina profissional de Fátima Carvalho Ribeiro, 48 anos, que diz ter no sangue o gosto pela profissão.

Há sete anos ela trabalha no ramo da construção civil, em Bauru, construindo churrasqueiras e fornos a lenha. Desde então, Fátima já assentou cerca de cinco mil metros de tijolos, quantidade que sempre fez questão de monitorar com o objetivo de entrar para o Guinness Book como a mulher que mais tijolos assentou no mundo.

“Infelizmente não deu certo porque participar desse ranking é muito complicado, então acabei desistindo”, conta. Hoje, Dia do Trabalhador da Construção Civil, ela é uma das únicas mulheres que atuam no ramo em Bauru.

Tudo começou quando Fátima, por curiosidade e necessidade, participou de um curso de construção civil realizado na cidade. “Como sempre tive vontade de aprender sobre construção em geral e também de adquirir mais conhecimento para não ser trapaceada quando precisasse do serviço de algum pedreiro, resolvi fazer o curso. Foi tão bom e proveitoso, que abandonei meu trabalho como compradora na Cesp (Companhia Energética de São Paulo) para me dedicar apenas à construção de churrasqueiras e fornos.”

Mas não foram somente esses acessórios que Fátima aprendeu a fazer no decorrer desses anos. Mesmo com pouca experiência, ela, com o auxílio dos filhos, conseguiu ampliar sua casa, cuja localização é bem sugestiva: rua dos Pedreiros, no Núcleo Edison Gasparini.

“Minha casa tinha apenas 40 metros quadrados quando comprei. Hoje, tem 100 metros a mais. Isso é muito gratificante para mim”, diz.

Nos negócios, clientela nunca foi problema para a pedreira. Todos os meses são seis, oito encomendas fechadas. “As pessoas que compram o meu serviço acabam me indicando para conhecidos. Então, hoje, vivo de indicações e trabalho não me falta, graças a Deus.”

O retorno financeiro, segundo Fátima, é compensatório. “O ramo da construção civil vai muito bem. Todo mundo está reformando a casa, fazendo um puxadinho, planejando uma churrasqueira nos fundos. A cada serviço que pego, dá para tirar entre R$ 700,00 e R$ 2.500,00”, destaca.

Respeito

Ao contrário do que se possa imaginar, trabalhar entre equipes formadas apenas por homens não foi barreira para Fátima. O grande preconceito, conta ela, veio das próprias mulheres. “Quando comecei no ramo, ouvia muitas dizerem que esse trabalho era para homem e que eu não tinha nada que me meter. Consegui superar tudo isso e hoje me sinto muito realizada.”

Para Fátima, a grande diferença entre o trabalho do homem e da mulher na construção civil está no capricho e na organização.

“Um homem não consegue perceber um quadro torto na parede, enquanto a mulher observa no ato. O mesmo acontece na construção. Fora isso, tem pedreiro que não se incomoda em deixar para trás a sujeira que fez durante o trabalho. Dá as costas e vai embora. A mulher já não faria nada disso”, ressalta a pedreira.

Apesar do trabalho ser pesado, Fátima não deixa a feminilidade de lado. Todos os dias, antes e depois do expediente, ela não abre mão de um creme para a pele e nem de um bom xampu para os cabelos. “Só não dá para pintar as unhas, porque acaba saindo com muita facilidade. Do resto, procuro sempre cuidar da aparência, na medida do possível.”