09 de julho de 2026
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Olhar à frente


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Bem ou mal, menos bem do que podia, a economia está acelerando, com o PIB crescendo 5% e até um pouco mais, o emprego formal não se recupera como devia, mas ainda é o melhor resultado em 10 anos e o governo Lula vai deixando na beira do caminho os críticos ferozes dos programas sociais, de forma que 2007 chega na reta final num clima de suportável serenidade política.Os níveis de consumo se mantêm altos e há confiança na população quanto ao que vem por aí em 2008 e mais a frente.

A inflação está bem ancorada nos 4%, como se viu agora quando houve uma expansão nos preços de alguns produtos agrícolas que não chegou a provocar uma pressão inflacionária. É um movimento estacional que praticamente já voltou ao normal como é o caso do leite. O trigo é um problema maior porque tem o efeito de uma redução da produção mundial e do custo do transporte afetado pela alta nos preços do petróleo. Mas nada disso capaz de produzir instabilidade apesar da excitação do Banco Central que estimula o vozerio da volta do risco inflacionário. Com isso se permite interromper a queda da taxa Selic, esfriando o ânimo empresarial especialmente para os investimentos na indústria exportadora. Em compensação, mantém a atração para a arbitragem de juros que faz a festa do mercado financeiro mundial: o Brasil oferece uma taxa de retorno absolutamente espantosa para essas aplicações financeiras: quem entrou aqui com 100 dólares em dezembro de 2006 sai no final deste mês de outubro com 140 , um ganho “modesto” de 40% em nove meses... É o que sustenta a sobrevalorização cambial que vai ceifando, dia a dia, as intenções de investimento para a exportação. Para quem só visa o curto prazo, dentro e fora do governo, não parece importante...

O Brasil tem sido vítima desse problema de não pensar o longo prazo, apesar das demonstrações recentes dos enormes prejuízos que tomamos porque abandonamos o planejamento estratégico. O “apagão” de 2001 que “surpreendeu” o governo FHC revelando todo um processo de destruição de nossa matriz energética, é um exemplo clássico da falência da visão estratégica que exige projetar o desenvolvimento dos próximos 20 anos ou 25 anos. É isso que fez a diferença entre o crescimento anual de 6% e 7% do PIB entre 1950 e 1980 e a queda dessa taxa para a média medíocre de crescimento de 2.3% do PIB nos últimos 25 anos. O Brasil jogou fora uma das maiores vantagens comparativas de que dispunha: uma matriz que garantia a oferta de energia limpa e barata de suas hidrelétricas e do sistema de interligação no seu território. É fundamental remontar a estratégia de aproveitamento dos nossos recursos hídricos oferecendo ao setor privado as condições de construção das usinas, já que não há recursos governamentais. A possibilidade de um novo apagão, lá para os anos 2011/2012 só será evitada com o concurso da energia poluente e a custos crescentes das termo elétricas, a óleo, gás e nucleares.

Numa outra vertente, a sucessão de políticas cambiais punitivas do setor industrial exportador a partir de 1985 produziu o endividamento de 196 bilhões de dólares que levou à crise externa em 1998 e 2002 obrigando o Brasil a recorrer ao FMI para não quebrar. As exportações brasileiras melhoraram com a mudança da política cambial de 1999 e foram beneficiadas a partir de 2002 com a expansão da economia mundial, mas hoje já há sinais de perda de dinamismo e, muito pior, a política que permite a sobrevalorização cambial está novamente ceifando os investimentos no setor. As conseqüências serão vistas daqui a 3 ou 4 anos. Nada a fazer, se acreditarmos que isso é “longo prazo”...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail - contatodelfimnetto@terra.com.br