O prêmio Nobel de Ciências James Watson foi suspenso do laboratório onde faz pesquisas genéticas em uma universidade norte-americana, por ter declarado publicamente que os negros são inferiores aos brancos em inteligência. É triste saber que o reconhecimento pela sabedoria, na forma da outorga do mais badalado laurel do mundo, não isenta o seu ganhador de um doloroso equívoco. Como disse outro premiado com o Nobel, Romain Rolland, em 1916, “essas questões de supremacia de raça são tolas e repugnantes”. Na verdade, o verbete “raça” já foi abolido por antropólogos da autoridade de Claude Lévi-Strauss há muito tempo. O cientista, que viveu no Brasil, recomenda substituir o estudo das raças pelo das culturas. Ensinou que a noção de raça não tem nenhum fundamento. Os indivíduos da mesma espécie (humana) são bem diferentes uns dos outros (...) “mas é impossível traçar fronteiras que permitam agrupar essas populações em raças distintas” também assegura o geneticista de populações Albert Jacquard. Trocando em miúdos, existem inteligentes e idiotas dos dois lados, já que fazem questão de dividir.
O racismo é coisa relativamente recente. Começa com os iluministas do século XVIII. Justamente foi a época de maior expansão do tráfico de escravos negros. Voltaire enriqueceu nesse comércio. Kant justificou que “os negros de África, por natureza não têm sentimentos acima da frivolidade”. Darwin criticou os que se opõem à lei dos mais fortes: “Entre os selvagens, os fracos de corpo e de mente são logo eliminados. Nós, os civilizados, fazemos o possível para evitar essa eliminação; construímos asilos para os imbecis; os aleijados, os doentes; instituímos leis para proteger os pobres. Isso é altamente prejudicial à raça humana”.
A escravidão dos negros foi justificada pelos teólogos em razão da “maldição de Cam”. O jovem viu a nudez do seu pai adormecido. Era Noé que se embriagara com o suco fermentado da primeira vinha que plantara. Cam chamou os seus irmãos mais velhos, mas estes, à diferença dele, correram a cobrir o pai, andando de costas para não olhar. Ao despertar da embriaguez, Noé amaldiçoou o filho caçula por sua insolência: “Maldito seja Canaã (filho de Cam)! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos! (Gênesis, 9, 21-17). A Bíblia pára aí. O mesmo não aconteceu com os seus comentadores. Ao texto sagrado acrescentaram-se vários contos. Noé proibira seus descendentes de terem relações sexuais na Arca. Cam concebeu um filho durante o dilúvio: Cuch. Deus o amaldiçoou e o fez nascer negro. A partir daí surgiu a maldição de Cam, associando o negror da pele ao negror da alma, argumento que caiu como uma luva para os escravagistas.
Em si mesma, a Bíblia não é portadora de racismo antinegro. Moisés casou com uma etíope. Deus castigou Maria, a irmã de Moisés, por haver criticado a união. Ele a envolve numa nuvem da qual ela sai “branca como a nuvem e... leprosa” (Pentateuco, 12, 2-15). No “Cântico dos cânticos” é celebrizada a beleza de Sulamita, a negra amada pelo rei Salomão. Texto dizia “Eu sou bela e negra”. Na Vulgata, tradução latina do século IV, saiu “Eu sou bela “mas” negra”. Conforme um estudo sobre “A invenção do racismo”, de Delacampagne.
O racismo do branco atinge também os orientais. Os vietnamitas criticaram “Miss Saigon”, musical da Broadway também exibido em São Paulo. Uma adaptação de Madame Butterfly, cuja heroína é uma prostituta abandonada por um fuzileiro americano durante a guerra do Vietnã. Condensa todos os clichês acumulados sobre a mulher oriental: exótica, submissa e objeto sexual.
O prefeito do Rio acaba de “descobrir” que a fertilidade faz da favela uma “fábrica de marginais”. Se o aborto for legalizado a Tropa de Elite vai ficar desempregada. É a mania de resolver problemas complexos com uma navalhada só. Filho de pobre é necessariamente marginal. Então, fechemos as fábricas de pobres.
Será necessário ainda muito tempo para que o senso comum se livre dessa longa e pesada herança da discriminação em vários níveis. Se é que esse trabalho se concluirá um dia...
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC