Está perdendo a graça ou quarenta é um número fatídico desde Ali Babá? Quando estoura um escândalo, quarenta são presos e acusados de alguma malandragem. Em uma semana 34 ganharam a liberdade. Desta vez foi a Cisco Brasil. A maioria dos leitores deve ter lido ou ouvido falar na operação Persona montada pela PF para apurar um esquema de fraudes e sonegação de impostos que causou prejuízo à Receita Federal. A Cisco domina 80% do mercado brasileiro. Ela é acusada de evasão de divisas simulando pagamento de direitos autorias de softwares. O dinheiro era enviado para empresas offshare com sede no Caribe como pagamento de patentes, uma forma de ocultar patrimônio. A Cisco está ligada a empresas fantasmas brasileiras e americanas.
A informação veiculada nos jornais da Capital fala de uma conversa gravada pela PF entre dois altos funcionários da empresa sobre 500 mil reais repassados ao PT. No Tribunal Superior Eleitoral não existe qualquer registro dessa generosa contribuição da multinacional ao partido. O nome do recebedor não foi divulgado e pelo que entendi o dinheiro também não chegou. Perdeu-se no caminho. Pode ter escorregado pelas pernas de calças petistas indo parar sabe-se lá aonde. As referências à citada doação foram feitas por Carlos Carnevali e executivos da Mude Comércio e Serviços Ltda. Mude é a importadora oculta da empresa. Moral da história: a Cisco dá o dinheiro e ganha a licitação da Caixa, simples assim.
Li recentemente um artigo escrito por Márcio Chalegre Coimbra, pesquisador do Hayek Institut, em Viena. Ele dizia perplexo que “chega a ser curioso entender como ocorre a manutenção de Lula no poder, especialmente frente a tantas denúncias de corrupção.”
Márcio Coimbra vive fora do Brasil e não percebe o óbvio. As noticias caem sobre uma população conformista e desapaixonada, anestesiada pelos folhetins das emissoras de televisão ou sobre os indiferentes. Esses dizem de forma cínica, sempre foi assim, desde Cabral. As pessoas não procuram uma saída, embora tenham uma parte da solução para problemas dessa natureza em suas mãos: o voto. Não precisa ser sempre assim. Como afirma a cantora Ana Carolina: sei que não dá pra mudar o começo, mas se a gente quiser vai dar pra mudar o final. Uma sugestão e tanto, vamos tentar? É para já, antes que o leite com soda cáustica das cooperativas mineiras mate parte da população.
A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em estética e história da arte, articulista do JC