11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Isaias Daibem tem a política nas veias

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

Ex-vereador, secretário municipal da Educação e chefe de Gabinete da Prefeitura de Bauru na década de 80, Isaias Daibem vive a política 24 horas por dia. Atual professor de história da Escola Técnica Estadual Astor de Matos Carvalho, em Cabrália Paulista, ele defende um maior engajamento dos jovens apesar de lembrar que o País passou por uma grande crise política, principalmente o PT, partido do qual fez parte.

Como esquerdista histórico de Bauru, Daibem sonha com o dia no qual a sociedade encontrará uma alternativa ao capitalismo que responda de forma mais completa aos seus anseios. “Enquanto houver partidos socialistas, mesmo que sejam débeis, sempre haverá uma esperança”, diz o membro do Partido Socialista Brasileiro (PSB) citando o sociólogo Florestan Fernandes.

Na última semana, o Jornal da Cidade recebeu o professor, que concedeu a entrevista a seguir. Entre relatos sobre sua vida, ele falou sobre a Secretaria da Educação em Bauru, ocupada por sua esposa, e sobre o dia no qual recebeu em casa um líder sindical do ABC que mais tarde se tornaria presidente de República. Leia os melhores trechos.

Jornal da Cidade – De quando vem a sua relação com a política?

Isaias Daibem – A minha formação política se deu na ação católica, um movimento da Igreja cuja formação teórica se dava em cima da linha de pensamento de economia e humanismo. Os principais teóricos no Brasil eram Jacques Maritain, Paul-Eugène Charbonneau... Eles falavam do caminho para a construção de uma sociedade solidária fraterna, igualitária, que preconizava o socialismo. Eu participei da Juventude Estudantil Católica, a JEC e depois da Juventude Universitária Católica, a JUC. Minha formação foi aí. Daí para o MDB foi um passo natural. Havia uma “espiritualidade na ação”, não era só rezar.

JC – Por que a esquerda?

Daibem – Eu fui ferroviário e na ferrovia havia um grande número de militantes do Partido Comunista. Estudei na escola ferroviária, a escolinha da Noroeste, me tornei telegrafista e conheci vários membros do “partidão”. Foi outra forte influência na minha vida.

JC – O senhor foi um dos primeiros vereadores do PT?

Daibem – Fui eleito pelo MDB há 32 anos. Fui o mais votado. Na época, as pessoas tinham medo de entrar nesse partido porque ele era contra a ditadura. Depois, em 1980, enquanto era vereador, fui para o PT. O mandato terminou em 1982, me candidatei pelo PT, fui o mais votado da legenda, mas o partido não teve quorum. No meu segundo mandato, eu já estava no PSB, que foi herdeiro do “partidão”, o antigo Partido Comunista. Minha trajetória foi sempre pelos partidos do campo progressista, os partidos de esquerda. Fui para o PT porque o partido acenava com uma transformação da sociedade na direção de um novo modelo, na direção do socialismo. Que tipo de socialismo estava sendo discutido pelos teóricos do PT? A maioria deles falava de um PT que tinha um compromisso com o socialismo, não necessariamente marxista, mas uma resposta para a sociedade com outro modelo que não o capitalista. Isso era claro no discurso do partido. Essa foi uma das coisas que me encantou no PT pelo fato da minha vida ser marcada por esse desejo de transformação da sociedade.

JC – Até a metade dos anos 80 ser comunista ou socialista no Brasil não era um risco? O senhor sentia que havia um certo medo da população em relação ao pessoal da esquerda?

Daibem – Meus pais nem sabiam que eu participava da atividade política e que participava do Partido Comunista. Havia um medo mesmo, uma paúra, um pânico. Eu conhecia aqueles homens de perto, eram pessoas simples, generosas, de vida aberta, não “comiam crianças”. Então eu não sofri os efeitos da propaganda que era feita contra o comunismo. Mas o medo era grande mesmo naquela época.

JC – O senhor sofreu algum tipo de repressão?

Daibem – Eu procurava não divulgar que tinha essa afinidade com os membros do Partido Comunista, nem para os meus pais. Vim a ter dificuldade na minha vida profissional, já na época da ditadura, quando fui afastado das aulas, que dava na escola Guedes de Azevedo. Para retomar as aulas eu tive o apoio de algumas pessoas importantes como o Damásio Evangelista de Jesus, o bispo Dom Cândido Padim, Luiz Edmundo Coube... Eles atestaram a minha idoneidade ideológica e eu pude voltar as dar aulas.

JC – Como foi o seu encontro com o presidente Lula no início dos anos 80?

Daibem – Fui convidado pelo Airton Soares para conhecer uma liderança que vinha do ABC, era Lula. Ele acabou sendo hospedado lá em casa. Ele, o Apolônio de Carvalho, o Plínio de Arruda Sampaio.

JC – Qual foi sua impressão dele?

Daibem – Eu vi uma pessoa espontânea, que embora fosse rude, um trabalhador nascido no meio sindical, tinha uma sensibilidade muito grande, um discurso muito coerente. A coerência dele chamava atenção. Ele tinha um discurso articulado e politicamente avançado, embora fosse um homem de pouca cultura. Ele encarnava uma atitude que inspirava confiança. Isso me chamou atenção nele.

JC – Como o senhor avalia o PT hoje e também aquele homem que dormiu na sua casa e hoje é presidente?

Daibem – Nós temos que olhar para o Lula com respeito porque ele tem uma liderança que foi construída ao longo de 25 anos. Um homem de compromisso com a sua vida e com a história. Ele não esgotou ainda o seu compromisso com o País. Não sei como isso vai se dar dada à crise pela qual passou o PT, mas eu tenho esperança que o Partido dos Trabalhadores tenha uma resposta a dar para a sociedade. Acredito que dentro do PT existem pessoas que têm uma formação política, um compromisso, não podemos generalizar. Quanto ao Lula, acho que por sua vida, sua experiência histórica, pelo fato de ter sido construído nas contradições do capitalismo, de uma sociedade de classe – e ele tem essa visão -, certamente ele deve ter uma resposta a dar.

JC – Como o senhor vê a experiência socialista após o fim da União Soviética?

Daibem – O neo-liberalismo espalhou-se por todo planeta se consolidando como modelo de sociedade e as experiências socialistas são poucas. Mas não acreditamos que a história tenha acabado. Nós alimentamos a utopia, o sonho, porque este modelo de sociedade chamado neo-liberalismo – que é o capitalismo sofisticado – não conseguiu responder historicamente aos desafios das sociedades nas quais ele se implantou. E não vai conseguir porque é contraditório. Ele visa o lucro e não consegue responder os anseios de uma sociedade igualitária, fraterna, justa.

JC – O fato de ter perdido espaço no mundo ou ter servido para criar ditaduras duríssimas durante o século 20 não coloca o socialismo como um conceito ultrapassado?

Daibem – Não é ultrapassado. O socialismo se coloca historicamente como resposta ao capitalismo, que não conseguiu resolver os problemas da sociedade. Os modelos socialistas que surgiram a partir da Revolução Russa se esvaíram. Eles se tornaram ditaduras totalitárias e não servem como parâmetro. A resistência, a acumulação de força de todos aqueles lutadores sociais que têm como objetivo a implantação de um novo modelo, de alguma forma vai fazer emergir em algum lugar. O professor Florestan Fernandes falava o seguinte: “Enquanto houver partidos socialistas, mesmo que sejam débeis, sempre haverá uma esperança”. É nisso que eu confio. Na América Latina temos experiências em andamento no Chile e na Venezuela. Parece que os ventos estão soprando na América Latina em direção a outro modelo que poderá até não se chamar socialismo.

JC – Hoje já não é mais difícil dizer “eu sou socialista”, não é?

Daibem – As pessoas hoje dizem que somos sonhadores, superados... Mas quem diz isso está fazendo o jogo do conservadorismo. Quem diz que o socialismo acabou de fato não aspira um novo modelo de sociedade, está contente com o que está aí. Mas hoje é mais fácil de falar porque com a queda do muro de Berlim e o fim do modelo soviético parece que não há mais “perigo”.

JC – O que é o socialismo para o senhor?

Daibem – É o que definiu o Charbonneau: um modelo de sociedade onde existem relações de fraternidade, de generosidade, de justiça social, de igualdade. Outro dia eu estava lendo um artigo do Frei Betto e ele dizia que o socialismo que aspirava era este: solidariedade, igualdade, fraternidade, paz.

JC – O senhor já se aposentou mas continua trabalhando...

Daibem – Dei aulas em escolas públicas e várias escolas particulares. Ao me aposentar, voltei a trabalhar nessa escola técnica da Fundação Paula Souza. O contato com a juventude me ajuda a avançar. A juventude é exigente, pede que a gente se dedique à pesquisa, ao trabalho e à leitura. Eu me sinto, de certa forma, responsável por eles porque tudo o que recebi na minha vida profissional eu tenho que agora retribuir e eu retribuo no serviço público como professor.

JC – Como o senhor avalia a consciência política do jovem de hoje em dia?

Daibem – A crise política que se abateu sobre o País tirou o estímulo da juventude. Ela perdeu a esperança, sobretudo porque, da forma como colocam parece que todos os políticos são corruptos, o que não é verdade. A política é a forma mais nobre de serviço público, a maneira mais alta de servir a sociedade, uma responsabilidade muito grande. A juventude vê essa crise e perde o entusiasmo, não se filia aos partidos, não participa de reuniões. É difícil trabalhar com a juventude nessa crise, mas acredito que ela não será perene. A juventude, embora viva essa crise, está sedenta de servir seu País, servir a sociedade. Ela é por natureza generosa, quer ser útil mas está encontrando dificuldade. Se nós superarmos essa crise vamos ver a juventude voltando a participar do processo político. Não é possível que ela esgote sua energia nas baladas, no futebol, nas atividades com pouca ressonância social.

JC – Qual a maior carência de Bauru na atualidade?

Daibem – As cidades são todas iguais neste modelo de sociedade no qual vivemos. Se você sobrevoar diferentes cidades, você vai ver como todas têm as periferias empobrecidas. A “franja” da cidade é o desafio, se você não tiver uma estrutura emocional, você sofre ao visitá-la porque é lá que está o desafio dos administradores. O grande desafio é incluir as populações da periferia. Como? Incluir na rede escolar, de saúde, de segurança. A exclusão é muito grande. Esse é um modelo de cidade, que vem no bojo de um modelo maior do País, que é o modelo neo-liberal, que privilegia o centro e joga na exclusão a grande maioria da população. Acho que não é possível falar em dignidade humana enquanto esse modelo perdurar. É preciso avançar para modelos que humanizem a sociedade, as cidades. O nosso grande desafio é construir uma cidade com dignidade e viver plenamente. E é através do processo político que isso pode acontecer, do processo educacional. Eu tenho esperança que isso vai acontecer.

JC – Como o senhor observa a administração da sua esposa à frente da Secretaria Municipal da Educação, uma atribuição que já foi sua na década de 80?

Daibem – Passados mais de 20 anos, a primeira visão que eu tenho é que a rede pública municipal passou por uma explosão de crescimento. Nós tínhamos 3 escolas de primeiro grau e hoje temos 14, isso significa um grande número de alunos. Eu vi isso com grande preocupação porque, embora haja recursos, a educação continua sendo um desafio permanente. Hoje, por exemplo, a educação de jovens e adultos cresceu muito. Da época em que eu fui secretário para hoje, a rede triplicou, o que significa dizer que o desafio também ficou três vezes maior. É impossível comparar porque cada momento histórico tem as suas características.

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Perfil

Nome completo: Isaias Milanezi Daibem

Local de nascimento: Bauru

Idade: 67

Esposa: Ana Maria Lombardi Daibem

Filhos: Daniel (31 anos), Luciana (32 anos), Célio (27 anos), João Pedro (25 anos) e Mariana (23 anos)

Hobby: Ler

Livro de cabeceira: Leio muito sobre história e política mas não tenho um livro de cabeceira. Agora estou lendo “Subversivos Anônimos”, do Antônio Pedroso Jr. e “A Mutilação da Alma Brasileira”, da Dulce Helena Rizzardo Briza

Filme preferido: “Coração Valente” (de Mel Gibson). É um canto à liberdade. Uma lição de liberdade perene.

Estilo musical predileto: Gosto de música clássica, tango e MPB. Tenho um filho que trabalha na rádio Eldorado FM e gosta de jazz e blues. Quando ele vem de São Paulo, gosto de ouvir o som que ele traz

Times de coração: Palmeiras

Para quem daria nota 10: Para todos os lutadores sociais que buscam um novo modelo de sociedade

Para quem daria nota 0: Para todos os que impedem o avanço em busca de um novo modelo de sociedade