08 de julho de 2026
Internacional

Objetivo de Néstor Kirchner é reconstruir o peronismo

Por Rodrigo Rötzsch | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Buenos Aires - O presidente Néstor Kirchner se vangloria de ter recuperado a Argentina da maior crise de sua história - em suas palavras, tirou o país do “inferno” para deixá-lo às portas do paraíso.

Fora do poder, terá a partir de 11 de dezembro a missão de resolver outra crise histórica que ele mesmo ajudou a criar: a do peronismo.

Kirchner, 57 anos, já anunciou que seu principal objetivo num futuro próximo é reconstruir o peronismo, fragmentado desde que, em 2002, o então presidente Eduardo Duhalde revogou a lei que obrigava eleições internas obrigatórias nos partidos para eleger os candidatos a cargos majoritários.

O fez por temor de que seu candidato - Kirchner - perdesse a oportunidade de ser presidente para Carlos Menem, que dominava as estruturas do Partido Justicialista (peronista).

Naquela ocasião, o PJ foi às urnas com três candidatos: Kirchner, Menem e Adolfo Rodríguez Saá. Um inédito segundo turno entre dois peronistas só não ocorreu porque Menem desistiu de disputá-lo por temor de sofrer uma retumbante derrota frente a Kirchner, que chegou à Casa Rosada com apenas 22% dos votos.

Desde então, o partido está sob intervenção judicial; nas eleições atuais, pela primeira vez, o nome e os símbolos do PJ não estiveram na cédula de nenhum dos candidatos presidenciais.

Apesar das restrições legais, três dos principais candidatos à Presidência se declaram peronistas: Cristina Kirchner, Roberto Lavagna e Alberto Rodríguez Saá. Embora hoje sobreviva pouco da ideologia de Juan Domingo Perón, a simbologia peronista ainda é muito forte na Argentina; por isso, a aberta disputa por dominar o partido.

Além de Kirchner, Duhalde, hoje adversário do presidente, também se impôs o objetivo de recuperar o PJ depois das eleições. E o próprio Menem declarou ontem pela manhã ter o objetivo de concorrer pela presidência do PJ tão logo a sigla se normalize.

Kirchner defende o conceito de “concertação plural” e escolheu um membro da histórica rival do peronismo, a UCR (União Cívica Radical) para ser vice de Cristina na chapa para a Presidência. Mas na hora de coletar votos, sabe a importância do aparato peronista, que domina a região mais populosa e eleitoralmente mais significativa da Argentina, a área metropolitana de Buenos Aires.

Historicamente, o peronismo sempre teve ao menos 40% dos votos presidenciais nas eleições que aconteceram desde a redemocratização argentina. No cenário atual de fragmentação, é o valor que basta, pelas leis argentinas, para que um presidente seja eleito no primeiro turno.

Máquina eleitoral

Na definição do ensaísta Alejandro Horowicz, o peronismo “funciona como uma máquina eleitoral que é ligada 15 minutos antes das eleições e desligada 30 segundos depois e tem como único objetivo arrecadar votos para a vitória”.

Kirchner ligou a máquina em potência máxima ao responder dias antes da eleição com uma afirmativa simples ao ser indagado se seu objetivo é se transformar em presidente do PJ.

Foi um aceno ao partido depois que alguns de seus membros históricos, como o governador de Córdoba, José de la Sota, reclamaram que faltava “mais peronismo” na campanha de Cristina.