10 de julho de 2026
Articulistas

O ‘canhotinha’ do Planalto


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A cada nova pesquisa de opinião fica evidente que a credibilidade da classe política – e em especial a dos parlamentares – vai de mal a pior. Há dias, um levantamento nos revelou que um contingente expressivo de cidadãos defende o fechamento do Senado ou da Câmara Federal. Ou, então, das duas Casas Legislativas, simultaneamente. Outra enquete recente nos trouxe informações igualmente preocupantes, embora previsíveis: apenas 11% dos cidadãos crêem nos políticos e somente 16% dão crédito aos partidos.

Hoje, vive-se um momento de descrença generalizada nas instituições. Boa parte da sociedade descrê não só do Legislativo, mas também da Justiça e do Executivo. Ela teme a polícia. Não se sente nem um pouco respeitada como cidadã e consumidora. Sabe que os serviços prestados pelo Estado, especialmente em setores cruciais, como os da Saúde e Educação, deixam muito a desejar.

É evidente que apesar dos pesares o Brasil de hoje é bem melhor que o de duas décadas atrás. Mas a questão central não é essa. Até porque quando se compara o desenvolvimento do país com o de outros em semelhante estágio de desenvolvimento o que se verifica é que ele fica sempre na rabeira, como mostram diversos indicadores internacionais sobre saúde, educação e produtividade. A questão central é saber o que a classe política pode e deve fazer para construir uma nação moderna, justa, que cresça de forma acelerada.

Creio que duas medidas se impõem. A primeira é promover uma reforma política para valer, que seja capaz de aproximar representantes e representados. É necessário dar aos eleitores plenas condições para que possam escolher de forma criteriosa seus deputados e vereadores. Mais que isso: é preciso dar a eles condições de acompanhar de fato o trabalho realizado por seus representantes, a fim de que possam saber se agem (ou não) de forma coerente com as promessas feitas durante a campanha eleitoral.

Nosso sistema de representação parlamentar inviabiliza esta aproximação e controle. Ambos são fundamentais para o fortalecimento da democracia representativa. Defendo a adoção do voto distrital majoritário nas eleições para deputados e vereadores. Cada distrito eleitoral elegeria apenas um representante para a Câmara dos Deputados, Assembléia Legislativa e Câmara de Vereadores. Desta forma, representados passariam a ter controle sobre as ações de seus representantes.

A segunda medida é dar um basta nessa prática tão cara ao presidente da República: o culto à esperteza. Gérson - o “canhotinha de ouro” - entrou de gaiato nesta história de que o certo é levar vantagem em tudo, por conta de uma propaganda de cigarro. Lula, não. Ele não se cansa de dizer que, na oposição, é lícito fazer toda e qualquer sorte de promessas, ainda que elas não possam ser cumpridas. Agora, no governo, diz ele, a história é outra. Em suma: o que importa é chegar ao poder. Se for preciso, que os princípios sejam submetidos aos fins. Esse comportamento errático, para dizer o mínimo, joga por terra um princípio fundamental ao progresso das nações: o de que é preciso ser ético, honesto, competente.

A principal contribuição negativa deste governo está justamente no comportamento ético, na falta de honestidade (inclusive de honestidade intelectual) na condução dos negócios do Estado, na tentativa reiterada de incutir na sociedade o sentimento de que somos todos malandramente iguais e que, portanto, no salve-se quem puder, o mundo é dos espertos.

O autor, Arnaldo Madeira, é deputado federal pelo PSDB-SP, foi líder do governo Fernando Henrique na Câmara e secretário-chefe da Casa Civil de São Paulo - 2003/2006 - dep.arnaldomadeira@uol.com.br