N’Djamena - Nem órfãos, nem de Darfur - é o que conclui relatório divulgado ontem pelas Nações Unidas e a Cruz Vermelha Internacional.
Noventa e uma das 103 crianças resgatadas no dia 18 pela polícia do Chade do avião fretado em que seriam levadas para a França viviam com pelo menos um adulto tido por pai ou mãe.
Vilarejos pobres próximos à fronteira com o Sudão, onde fica a região conflagrada de Darfur, são apontados como origem provável de 85 dos pequenos.
As duas organizações investigam agora se as crianças - 24 meninas e 82 meninos entre um e dez anos- foram seqüestradas ou levadas à Arca de Zoé, ONG francesa que organizou a operação, pelos próprios pais.
Apresentadas como “órfãos de Darfur”, elas seriam entregues a famílias belgas e francesas, que pagaram entre 2.800 e 6.000 euros como “doação” para auxiliar no transporte.
Adoções internacionais são proibidas no Sudão e no Chade. A ONG, que não fala em “adoção”, alega ter tentado embarcar as crianças por razões humanitárias.
Protestos
O repúdio ao tráfico de crianças reabriu as feridas do colonialismo e da escravidão na África subs-saariana. Inimigos se unem contra o que jornais locais chamam “negreiros voadores contemporâneos” e especulam juntos sobre tráfico de órgãos e pedofilia.
Habitantes de uma terra desértica, 171.ª em desenvolvimento humano dentre as 177 pesquisadas, com uma renda per capita de US$ 302, os chadianos protestam contra o humanitarismo eurocêntrico da ONG francesa.
A mágoa ecoa em protestos dos islâmicos sudaneses, os mesmos algozes de Darfur, na agora relativamente estável República do Congo, em todos os cantos da África negra.