09 de julho de 2026
Geral

Bauru: cidade de grandes inventores

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 7 min

Um software que cria páginas na web em apenas três minutos, um verniz que é colocado no dente e ajuda no combate à cárie e na infecção de ouvido e garganta, uma prancheta que vira páginas sem o auxílio das mãos, um aquecedor que usa capim seco como isolante térmico, botas e sandálias ortopédicas para os portadores de hanseníase, embalagens anti-corrosão e dormentes feitos com lixo plástico são algumas das milhares de invenções que nasceram em Bauru e que, de uma forma ou de outra, mudaram para melhor a vida das pessoas.

Numa cidade com mais de 350 mil habitantes, idéias novas nascem todos os dias e em todas as áreas, mas apenas uma pequena parte sobrevive e uma parcela ainda menor chega ao conhecimento do público. Geralmente, não são invenções de grande impacto na sociedade, mas que atendem plenamente a necessidades mais imediatas de empresas e pessoas.

Muitas vezes, algo simples como uma resina colorida pode não representar muita coisa para a comunidade em geral, mas faz grande diferença para os profissionais da área de ortodontia, por exemplo.

Mas não são somente as invenções que impulsionam o progresso de uma localidade. O pioneirismo também tem sua importância nesse contexto. A coragem de implantar algo novo na cidade tem uma força que não pode ser desprezada para o desenvolvimento de qualquer município. Uma cidade que consegue unir esses dois pólos (criatividade e pioneirismo) tem grandes chances de se destacar entre as demais.

Em Bauru, existem muitos exemplos de invenções que deram certo e outras nem tanto. Além disso, a cidade possui um grupo de pioneiros que fez a diferença no passado, cujos reflexos de suas iniciativas são sentidos até hoje. A seguir, o Jornal da Cidade relata algumas dessas experiências pioneiras e traz algumas das invenções “made in Bauru”.

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Três meses em três minutos

O publicitário Robson Reis Sotero, 39 anos, criou um programa de computador que facilita muito a vida do pequeno e médio empresário que quer exibir seus produtos na Internet. Criar uma página na web nos moldes tradicionais leva de um a três meses e custa, em média, cerca de R$ 4 mil.

De acordo com o publicitário, o programa inventado por ele é capaz de fazer o mesmo serviço em apenas três minutos por um custo bem menor. Ao invés de vários profissionais fazendo a página, ela pode ser montada pelo próprio empresário, de forma personalizada.

O programa oferece três opções. É possível montar uma página que apenas mostre os produtos, outra que possibilita fazer um orçamento e uma terceira que cria a venda online. Depois de criada a página, é preciso pagar uma taxa mensal para mantê-la no ar.

Segundo ele, qualquer pessoa consegue montar o site desde que leia o manual. “O próprio empresário faz as atualizações, sem a necessidade de um programador do lado.”

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‘Canguru’ voador

Quando Hendrich Kurt, imigrante suíço, chegou a Bauru em 1943, os pilotos do Aeroclube estavam ansiosos por máquinas capazes de voar mais alto e por mais tempo. Naquela época, os únicos planadores disponíveis eram os “Grunau Baby” de construção local. Eram aeronaves seguras, mas de performance limitada, segundo consta da história do Aeroclube.

Diante dessa necessidade nasceram dois planadores, o “Canguru” e o “Flamingo”, ambos fabricados durante a Segunda Guerra Mundial. O primeiro foi construído em 1942, nas oficinas do Aeroclube. Destinado a familiarização do futuro piloto com a técnica de vôo, os planadores “Canguru” voaram durante quatro ou cinco anos em Bauru.

Na mesma época, Kurt iniciou a construção de outros seis planadores secundários de desenho alemão, dos quais apenas dois foram terminados. As asas e fuselagens dos outros quatro, segundo o Aeroclube, acabaram abandonadas no fundo de um hangar em Bauru. Em 1978, o Aeroclube terminou um desses planadores, que foi doado ao Museu Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, no Rio de Janeiro. Em 1979, Kurt reformou um dos planadores “Canguru”, que Bauru conserva para vôos em ocasiões festivas.

Já o “Flamingo” foi construído em 1944. Projetado por Hans Widmer, sob orientação de Kurt, o planador participa até hoje dos campeonatos brasileiros de vôo a vela. Para os volovelistas de Bauru, essa é uma prova de que dos chamados projetos amadores podem resultar aeronaves de alta qualidade.

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Som estéreo

No início dos anos 60, quando foram lançados os primeiros discos com som estéreo, Tobias Ferreira Gomes protagonizou uma das invenções mais surpreendentes do rádio em Bauru. Ele foi responsável pela primeira transmissão de um programa em estéreo, que mais tarde ficaria conhecido como freqüência modulada (FM).

Segundo relato do produtor e apresentador de TV Tobias Ferreira Gomes Filho, 49 anos, mais conhecido como Tuba, seu pai levou os discos estéreos e o toca-discos que tinha em casa para o estúdio da Bauru Rádio Clube. O som estéreo é caracterizado pela divisão dos instrumentos em dois canais, ou seja, enquanto a bateria é ouvida em uma caixa de som, a guitarra pode ser ouvida na outra.

Tobias pegou os dois fios que dividiam os canais no aparelho de som e conectou um na rede de transmissão por ondas médias (OM) e o outro nas ondas tropicais (OT). A mesma música era ouvida nas duas ondas, mas com divisões de canais.

Se a pessoa colocasse dois rádios próximos, um sintonizado na Bauru Rádio Clube OM e o outro na OT, conseguia ouvir a divisão dos instrumentos. Enquanto a bateria tocava em um rádio, o violão tocava no outro. E o locutor avisava os ouvintes quando isso ocorria.

“Foi um marco naquela época. Foi como a TV em cores. Todo mundo estava acostumado a ver em preto-e-branco e, de repente, ficou colorido”, compara Tuba. “Foi um sucesso de audiência.”

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Botas artesanais

Das oficinas do Instituto Lauro de Souza Lima surgiram inúmeras invenções para facilitar a vida dos portadores de hanseníase. São sandálias, botas e uma série de adaptações que ajudam a abotoar roupas, a subir e descer um zíper, a barbear, tomar banho, fumar e realizar outras atividades que ficam prejudicadas por causa da deficiência que eles normalmente têm nas mãos.

De acordo com o fisioterapeuta Henderson Moreira de Magalhães, 59 anos, as sandálias e as botas são feitas à mão, uma a uma, obedecendo o formato de cada pé.

Uma peça é diferente da outra. Não existem dois modelos iguais. Por ser um trabalho artesanal, exige tempo. Por mês, são fabricados cerca de dez pares apenas. Os calçados atendem pacientes do Brasil todo e também de outros países, como Angola e Índia.

Antes de serem produzidas, as adaptações passam pela avaliação de uma equipe de médicos, ortopedistas, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, oftalmologistas e dermatologistas. Tudo é feito e distribuído gratuitamente.

Segundo Magalhães, essas adaptações são utilizadas quase exclusivamente por pessoas que descobriram a doença há muito tempo, quando não havia um trabalho adequado de prevenção.

Quando o paciente descobria que tinha hanseníase, a doença já estava em um estágio avançado e pouca coisa podia ser feita para reverter suas conseqüências.

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Anti-corrosão

Fundada em 1990, a VCI Brasil Indústria e Comércio de Embalagens criou uma tecnologia que auxilia no transporte e armazenamento de materiais metálicos. Quando uma peça metálica é embalada com os Inibidores Voláteis de Corrosão (VCI), essa substância se expande no ambiente da embalagem e forma um filme monomolecular sobre a superfície do metal, protegendo o material contra os agentes de corrosão, como oxigênio, gases sulfídrico e carbônico, sais, poeira etc.

VCI são sais orgânicos derivados de aminas que volatilizam, gradualmente, saturando o ambiente interno da embalagem, depositando estes sais sobre a superfície metálica, formando uma camada monomolecular invisível que protege contra a corrosão. Quando aberta a embalagem, esta camada protetora imediatamente dissipa-se, deixando o metal limpo e pronto para ser utilizado. Segundo a empresa, o VCI não é tóxico e não apresenta riscos à saúde e ao meio ambiente.

Fabricada com tecnologia própria, a substância vem conquistando o reconhecimento no mercado brasileiro e também na América do Norte, Europa e Ásia por causa de sua eficiência, segundo a empresa.