Desligue a TV. Lagoa Azul, cachorros falantes, policiais que atiram e espiões mirins teriam a função de entreter o ócio. Teriam, mas nem para isso servem. Depois de desligar a telinha arrume um jeito de deslocar-se, por volta das 17h, até a Unesp-Bauru. É que lá tem uma telona, sabia? O cineclube. Depois dele as tardes cinematogênicas têm mais vida, reflexão e o melhor: inteligência.
As sessões da tarde no cineclube da Unesp em Bauru (sempre as quartas, às 17h) fluem de um misto de raridades excêntricas passando por psicodelismo e genialidade. Nas duas últimas semanas (31-10 e 24-10) – peguemos como exemplo – tivemos a exibição dos filmes “Yellow Submarine” e “O Cheiro do Ralo”.
O primeiro é um desenho animado, no qual os protagonistas são os quatro Beatles (Ringo Star, Paul McCartney, George Harisson e John Lennon). O longa é carregado de canções, de cores e de frases, situações e cenas inteligentes. Onde mais teríamos a oportunidade de ver “Yellow Submarine”? Um marco. O filme é daqueles divisores de água na vida da gente. Sobretudo pra quem gosta dos Beatles e de suas canções. As músicas se encaixam “como uma luva” no roteiro criado. Há ainda a tradução das letras, outra coisa rara, para quem não domina a língua inglesa.
Já “O Cheiro do Ralo” é protagonizado por Selton Mello (que não recebeu cachê para atuar no filme) e levanta uma série de pontos humanos através de um personagem tosco, “noiado”, cheio da grana (mas que não é rico elitista) e, principalmente, sarcástico, no melhor estilo machadiano. De longe o melhor filme que Selton Mello poderia ter feito. É daqueles que ficam ecoando dias na cabeça. Há nele frases geniais também, como “quero envelhecer ao lado dessa bunda!” ou ainda muito bem retratada a mania de ficar tentado descobrir (em vão) a origem dos problemas da nossa vida.
Depois disso tudo, é mais do que necessário dizer: muito obrigado cineclube da Unesp. E se for passar lá não esqueça. O auditório onde os filmes são exibidos é grande, mas sente-se nas primeiras três fileiras, pois como dizia Godart, “o verdadeiro cinéfilo deve sentar-se nas três primeiras filas, caso contrário não conseguirá entregar-se a obra”. Ah, e não esqueça a pipoca.
Gabriel P. Ruiz