08 de julho de 2026
Bairros

Eles lutam pelo bem da comunidade

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Se você acompanha novelas deve saber quem é o líder comunitário Juvenal Antena, vivido pelo ator Antônio Fagundes em “Duas Caras”, da Rede Globo. Caso o leitor não acompanhe a trama da telinha, é importante dizer que o personagem de Fagundes é o líder da favela Portelinha, comunidade que ajudou a fundar. Na novela, Juvenal Antena praticamente dita as regras para quem vive no lugar e, diferente de muitos locais na vida real, quem manda na favela não são os traficantes, pelo contrário, ali eles não ficam por causa da ação do líder comunitário.

Mas o que é ser um líder comunitário e o que a ficção tem a ver com a realidade? Segundo o dicionário, líder é um “indivíduo que chefia, comanda e/ou orienta, em qualquer tipo de ação, empresa ou linha de idéias. Guia, chefe ou condutor que representa um grupo, uma corrente de opinião, etc”. Logo, o líder comunitário é aquele que toma as rédeas da comunidade em que vive, orientando seus moradores, lutando por melhorias, tentando resolver os problemas, enfim, lidera no intuito de dar mais qualidade de vida para quem vive nas vizinhanças.

Em Bauru, não faltam lideranças comunitárias. Elas estão na maioria dos bairros da cidade, e alguns são notórios além das fronteiras da comunidade onde vivem, como é o caso de Osvaldy Martins, o Ticão, presidente da Associação de Moradores do Parque Viaduto e adjacências (leia texto na página 2). Ticão está constantemente nas páginas dos jornais e parece incansável: freqüenta a Câmara Municipal, vai atrás dos vereadores, da Prefeitura, é membro do Conselho de Segurança Comunitária (Conseg) Oeste.

O exemplo de Ticão, que além de tudo realiza um trabalho social com meninos do bairro onde mora, é um dos muitos que existem espalhados por aí, mas a cidade de Bauru está em alerta: os líderes estão ficando escassos. Segundo o presidente da Federação da União das Associações de Moradores de Bauru e Região do Centro-Oeste (Fuam), Jesus Adriano dos Santos, está cada vez mais complicado encontrar pessoas dispostas a assumirem a responsabilidade de liderar as comunidades.

O fato é que, em Bauru, a figura do líder comunitário está intimamente ligada à presença de uma associação de moradores. É claro que nem sempre isso é uma regra, como veremos neste caderno, mas a presença dessas entidades já foi tão marcante na cidade que fica difícil não associar um líder comunitário a esse tipo de instituição.

As associações de moradores estão, aos poucos desaparecendo, apesar da persistência de muitas, que ainda lutam para se manter e trazer melhorias às pessoas. Algumas, inclusive, são tão presentes que não se fala em um bairro sem falar delas. Contudo, em outros casos, a precariedade, falta de interesse e o contrário, interesses pessoais, têm desmotivado a formação de novos “Juvenais Antenas”.

O último levantamento feito pela Fuam, em 2003, dava conta da existência de 110 entidades, mas apenas 10% delas eram ativas, contra 50% em 1993. Outra pesquisa ainda está sendo feita pela federação, mas os números preliminares não são animadores. Em 2006, o número de associações de moradores diminuiu ainda mais: havia 87, sendo que 16 estavam desativadas e 71 funcionando precariamente.

Entre as causas apontadas para o fenômeno estão falta de tempo, desânimo e uso político das entidades. Dados mais recentes mostram que, atualmente, há cerca de 65 associações de moradores na cidade com funcionamento comprometido.

Nem por isso as lideranças comunitárias que realmente se importam com os moradores do bairro onde vivem deixam de lutar por melhorias, independentemente de estarem ou não à frente de associações. Segundo Santos, esses líderes são importantes, porque mostram aos demais moradores que a comunidade pode fazer alguma coisa, mesmo que não haja organização em torno de uma entidade.

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Falta de participação dissolve associações e afasta lideranças

A constatação de que as associações de moradores estão se dissolvendo é uma mostra que as pessoas estão cada vez menos comprometidas com o local onde moram. Há muitas exceções, como gente que se doa em favor dos que mais necessitam e gasta o pouco tempo livre que tem em busca de qualidade de vida para seus vizinhos.

O problema é que a maioria da população ainda não descobriu o seu potencial. E em locais onde não há união de todos, a presença do líder é fundamental, conforme aponta o presidente da Federação da União das Associações de Moradores de Bauru e da Região Centro-Oeste (Fuam), Jesus Adriano dos Santos.

O desânimo fica ainda maior se as lideranças não conseguem resposta imediata do poder público, no caso do município, da Prefeitura e da Câmara Municipal. “Sem essa resposta, as pessoas começam a desanimar e deixam de lado as atividades”, relata.

O desprendimento é outra característica que deve permear a figura do líder comunitário. Santos ressalta que uma das dificuldades em encontrar pessoas dispostas a assumirem os compromissos de uma associação é justamente a doação em tempo quase integral, que é necessária. “Quando chamamos as pessoas para participarem sempre vem a pergunta “quanto ganha um presidente de associação?’. Falta o entendimento de que esse é um trabalho voluntário”, afirma Santos.