O líder sempre aparece quando a situação fica complicada. Apesar do clichê, típico de filmes de Hollywood, há muito de verdade nesta frase. Basta ver que os maiores líderes da história surgiram em meio às adversidades. Não é diferente nas comunidades Brasil afora. Mesmo na novela, como citamos na página 1, a liderança de Juvenal Antena (Antônio Fagundes) surgiu em meio à luta por um espaço.
O fato é que os líderes comunitários têm tudo a ver com a condição em que vive a população do bairro onde moram, ou seja, é muito mais fácil encontrar pessoas com perfil de liderança nas periferias do que nos locais mais abastados. Não significa que nos bairros de classe média não haja líderes comunitários que briguem pelos seus vizinhos, mas essa figura é muito mais destacada quando as dificuldades são grandes.
Por esse motivo, bairros como Jardim Ivone, Parque das Nações, Fortunato Rocha Lima, Pousada da Esperança, Parque Jaraguá, entre outros, têm pessoas que se destacam entre os demais, na luta por melhores condições para os moradores do bairro, no desenvolvimento de projetos com crianças ou, simplesmente, dando apoio quando um vizinho necessita de auxílio.
As histórias que contaremos nesta página mostram algumas dessas pessoas que doam seu tempo livre para fazer o bem, enfrentam as dificuldades naturais dessa atividade e, muitas vezes, sofrem com o descaso dos governantes. Os personagens escolhidos para ilustrar este caderno são representantes dos muitos anônimos que estão espalhados por Bauru.
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Parque Viaduto
Quem em Bauru não conhece o Ticão? Não é difícil, basta ir às sessões da Câmara Municipal para encontrá-lo, acompanhando atentamente os discursos e abordando os vereadores para ajudar a comunidade do Parque Viaduto, onde preside a associação de moradores e ajuda 56 garotos a sonharem com algo a mais através do futebol, com o Maquininha Vermelha, time criado por ele para tirar a garotada das ruas.
A trajetória de Ticão, que nasceu Osvaldy Martins, começou em 1986. De lá para cá ele sempre atuou na comunidade onde vive, lutando para melhorar as condições de vida das pessoas, seja com infra-estrutura, na luta contra a violência, já que ele também integra o Conselho de Segurança Comunitária (Conseg) Oeste. “Quando você é líder de um bairro, você sempre procura o melhor para sua comunidade”, explica.
O novo projeto de Ticão é fazer um documentário com as pessoas do bairro, para mostrar a realidade da população do Parque Viaduto e adjacências. O filme é a mais nova menina dos olhos da liderança comunitária, que não se cansa de dizer que conseguiu o respeito de todos os vereadores de Bauru com muito jogo de cintura.
Mesmo com o bom trânsito entre os parlamentares, o líder comunitário traduz bem o que a população da periferia pensa dos políticos em geral. “O povo não tem condições de sobreviver, o político não tem interesse em ajudar e quem sofre é a periferia”, aponta. Por outro lado, ele explica que todo líder deve ser um pouco político para conseguir as melhorias necessárias para o bairro.
Mas e a família? Como conciliar as atividades de “cartola” de futebol infantil, presidente de associação e membro de Conseg com a vida familiar? A resposta é simples, e vem de berço: “Minha mãe sempre ajudou os outros e eu cresci com isso”. A esposa e os filhos reclamam, mas a vontade de trabalhar em prol da comunidade supera as dificuldades.
O que fazer para ser um bom líder? Simples: conhecer a realidade do povo e do bairro onde mora, saber o que acontece além dos limites da comunidade e, acima de tudo, servir e não ser servido. “Um líder não pode pensar em levar vantagem”, ressalta.
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Parque Jaraguá
Durante muitos anos a figura de João Fedriz Filho teve destaque à frente da Associação de Ação e Participação Comunitária do Parque Jaraguá. Ele também presidiu a associação de moradores do bairro e ajudou a construir a Creche São Francisco, também no Jaraguá. Hoje, ele não atua mais por problemas de saúde, mas a família continua bem representada na figura do filho Cirineu Fedriz, que resolveu levar adiante o trabalho do pai e continuar a luta pela comunidade.
Cirineu começou sua atuação em movimentos estudantis, mais especificamente na União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Bauru (Umesb). O exemplo do pai ainda está vivo em sua memória. Ele conta que não gostava de vê-lo nas atividades comunitárias, principalmente porque sobrava pouco tempo para estarem juntos, mas hoje, atuando da mesma forma, ele entende o que João Fedriz Filho fazia pela comunidade. “Em um bairro onde faltava tudo, a atuação dele foi determinante para a conquista de melhorias”, aponta Cirineu.
Hoje à frente da Associação e Ação Comunitária do Jaraguá, o filho continua com a luta iniciada por seu pai, tentando atender às necessidades da população do bairro. Pontos de luz, saneamento, asfalto e segurança são algumas das reivindicações fundamentais para o Parque Jaraguá, de acordo com ele.
Uma das principais lutas de Cirineu é conseguir uma rádio comunitária para o bairro, que, segundo ele, serviria como suporte para as ações da entidade. Segundo ele, a emissora seria um instrumento de mobilização muito útil, para que os moradores fiquem sabendo das atividades com mais rapidez e participem mais ativamente.
Com a esposa grávida do segundo filho, ele já considerou a hipótese de largar tudo, mas o sangue fala mais alto. “Nunca parei para avaliar de onde vem essa motivação, algumas vezes eu penso em parar, pois não é fácil, ainda mais sem ganhar nada, pois as vezes eu deixo meu serviço para correr atrás de interesses gerais. O maior retorno que tenho é poder ver uma reivindicação atendida e a gratidão dos moradores que se beneficiaram dela”, afirma.
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Creche Berçário São José
A vida do funcionário público estadual Alcides Augusto Mendonça Júnior é corrida: trabalho, família e a Creche Berçário São José, da qual é presidente. O trabalho realizado na creche, aliás, rendeu a Mendonça este espaço destinado a alguns líderes comunitários de Bauru. Ele está na entidade desde que foi criada, há cerca de 10 anos.
Apesar de presidir a creche apenas há três anos, Mendonça afirma que não falta motivação para o trabalho: a obrigação de fazer algo em prol da comunidade para devolver o que recebeu de bom na vida. Hoje, a Creche Berçário São José recebe 135 crianças no Fortunato Rocha Lima, e é a alegria de Mendonça. “Quando chego aqui e vejo os sorrisos das crianças, já ganhei minha recompensa”, afirma.
A recompensa é conquistada pelas dificuldades em conciliar a atividade comunitária com a família e o trabalho. Ele reconhece que os familiares são os maiores prejudicados, mas que, dentro do possível, eles vão sendo inseridos na realidade da entidade. “A esposa e os filhos reclamam que a gente não pára, e a gente tenta incluí-los”, conta.
Além da questão familiar, sempre há os comentários de uma motivação política por trás de tanto trabalho. “É muito sufoco, vivo cansado, e ainda tem gente que fala isso, mas a recompensa é gratificante”, destaca.
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Fortunato Rocha Lima
Há vários exemplos de líderes comunitários. Existem aqueles em que a vocação para o trabalho em prol da comunidade é nata. Outros foram chamados a trabalhar, por conta das circunstâncias, e há os que resolveram fazer a diferença ensinando aquilo que sabem. Este último caso tem tudo a ver com as irmãs capoeiristas Leda Maria Pereira e Lidiane Silva Pereira de Oliveira.
A necessidade de realizar um projeto, passando para frente o que aprenderam, motivou-as a formar um grupo de capoeira com crianças do Fortunato Rocha Lima. Como todo trabalho voluntário, não faltaram dificuldades, entre as quais a falta de um local para as aulas, o que interrompeu as atividades por dois meses no começo deste ano.
Atualmente as irmãs utilizam a quadra poliesportiva do projeto Girassol, mas já passaram pelo barracão da associação de moradores e por uma quadra na escola do bairro. Nesta última, o furto da fiação deixou o lugar sem luz, tornando impossível a realização das aulas. “Mas com muita persistência e ajuda dos pais, nós conseguimos outro local e seguimos em frente”, conta Leda.
Gratificante para as irmãs e excelente para 43 crianças e suas famílias, que têm na capoeira a válvula de escape para os problemas que afligem o bairro. Mas as crianças precisam dar a contrapartida, ou seja, continuar estudando para garantir o futuro. Segundo Leda, os alunos devem levar os cadernos para que as irmãs possam verificar a freqüência na escola. “Se não estudar, não pode participar das aulas”, diz.
O resultado não podia ser melhor, e, em três anos, já é possível ver como o trabalho realizado modificou a vida das crianças no Fortunato. “Não tem preço para nós, porque o objetivo é tirar essas crianças da marginalidade e estamos conseguindo. Quando uma mãe vem nos agradecer é muito gratificante. Não tem preço”, enfatiza Leda.
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Jardim Ivone
O Jardim Ivone é um dos bairros mais carentes de Bauru. A luta da população pelo desfavelamento e por condições dignas de vida é constante, por isso a figura do líder comunitário no local é importantíssima, até como canal de negociação entre os moradores e a prefeitura. No bairro é possível dizer que o líder comunitário é figura imprescindível.
A participação dos moradores também é constante, até porque, sem eles, a associação de moradores do bairro teria imensa dificuldade em atuar. Esta participação rendeu a Geovani Pereira da Silva a presidência da entidade, que tem a missão de brigar pelos direitos dos moradores do bairro, assim como lutar para que a situação de precariedade se transforme em coisa do passado.
O próprio Silva afirma que foi a comunidade quem o chamou para trabalhar. A vocação, garante, foi descoberta através do Evangelho, como ele faz questão de salientar. “Quando nós pertencemos ao Evangelho, temos a missão de lutar pela comunidade em que vivemos”, afirma.
A missão de evangelizar se uniu ao desejo de ver melhorias na comunidade onde vive. Para ele, não pode haver separação entre a igreja e a comunidade, porque quando elas se aproximam todos têm a ganhar. “A partir do momento em que a igreja se volta para a comunidade, as coisas vão melhorando, porque a igreja tem condições de dar suporte à população e fazer o que for possível para melhorar a vida das pessoas”, ressalta.
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Parque das Nações
Não adianta chamar Daniel Rodrigues, o Índio Urubatã, de líder comunitário, pois ele não se considera um, mas que outro título se dá a uma pessoa capaz de tirar do pouco que tem para ajudar pessoas menos favorecidas? Do que devemos chamar alguém que atende o vizinho sem pedir nada em troca? Para os moradores do Parque das Nações, independente da definição, eles sabem que Urubatã está sempre pronto a ajudar.
Espírita, Urubatã afirma que divide tudo o que recebe com os mais carentes do bairro, afinal o desprendimento é uma das características desta religião. “O fato de ajudar é uma responsabilidade de respeito perante o povo, e as pessoas acham que a gente é um líder, mas não é assim, a gente só quer ajudar as pessoas”, afirma.
Para ser líder, segundo ele, é preciso ter uma boa casa, ter uma posição perante a sociedade, algo que está longe de acontecer, segundo ele. “Mais que uma liderança, isso é uma vocação de Deus. Como aqui é um lugar onde há amizade e respeito, a gente consegue ajudar as pessoas”, destaca. A trajetória de Ticão, que nasceu Osvaldy Martins, começou em 1986. De lá para cá ele sempre atuou na comunidade onde vive, lutando para melhorar as condições de vida das pessoas, seja com infra-estrutura, na luta contra a violência, já que ele também integra o Conselho de Segurança Comunitária (Conseg) Oeste. “Quando você é líder de um bairro, você sempre procura o melhor para sua comunidade”, explica.
O novo projeto de Ticão é fazer um documentário com as pessoas do bairro, para mostrar a realidade da população do Parque Viaduto e adjacências. O filme é a mais nova menina dos olhos da liderança comunitária, que não se cansa de dizer que conseguiu o respeito de todos os vereadores de Bauru com muito jogo de cintura.
Mesmo com o bom trânsito entre os parlamentares, o líder comunitário traduz bem o que a população da periferia pensa dos políticos em geral. “O povo não tem condições de sobreviver, o político não tem interesse em ajudar e quem sofre é a periferia”, aponta. Por outro lado, ele explica que todo líder deve ser um pouco político para conseguir as melhorias necessárias para o bairro.
Mas e a família? Como conciliar as atividades de “cartola” de futebol infantil, presidente de associação e membro de Conseg com a vida familiar? A resposta é simples, e vem de berço: “Minha mãe sempre ajudou os outros e eu cresci com isso”. A esposa e os filhos reclamam, mas a vontade de trabalhar em prol da comunidade supera as dificuldades.
O que fazer para ser um bom líder? Simples: conhecer a realidade do povo e do bairro onde mora, saber o que acontece além dos limites da comunidade e, acima de tudo, servir e não ser servido. “Um líder não pode pensar em levar vantagem”, ressalta.