08 de julho de 2026
Geral

Filho único é cada vez mais comum

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Há alguns anos, ter apenas um filho quase sempre era um sinal de infertilidade. A maioria dos casais normalmente optava por dois ou mais herdeiros. Essa tendência continua até hoje, mas o percentual de famílias que possuem um único filho não pára de aumentar. E isso não tem nada a ver com infertilidade, é simplesmente uma questão de escolha. Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que atualmente 31% das mães têm apenas um filho e não pretendem ter outro. Há dez anos, quando foi feita a última pesquisa, esse percentual era de 25%.

Acesso fácil a métodos anticoncepcionais, participação maior das mulheres no mercado de trabalho e presença cada vez mais intensa dentro das faculdades são algumas das explicações apontadas pelo IBGE para essa queda.

Sem tempo para se dedicar aos afazeres do lar, os casais têm optado por um número reduzido de filhos. As estatísticas do IBGE mostram crescimento também no número de casais com duas crianças. Passou de 30% em 1996 para 33% no levantamento do ano passado. Por outro lado, a opção por três ou mais filhos está caindo de moda. Há dez anos, essa era a realidade da maioria absoluta dos casais (45%). Hoje, o percentual continua alto (36%), mas foi o único grupo que registrou queda. E uma queda nada desprezível: cerca de 9%, segundo o IBGE.

Na opinião da socióloga Maria Antônia Vieira Soares, do Departamento de Ciências Humanas da Unesp de Bauru, além dos motivos apontados pela pesquisa, há também a questão educacional dos filhos como fator inibidor para se ter mais de um ou dois.

“As exigências educacionais do mercado de trabalho, hoje, são maiores. Antes, o filho fazia o curso médio ou técnico e estava excelente; os pais já tinham cumprido uma boa parte da missão. Hoje, os filhos precisam de uma educação mais longa e continuada (para estarem bem preparados para um bom emprego). Então, os investimentos são maiores”, pondera.

Por causa desse e dos outros motivos já citados, Maria Antônia diz que os pais estão tendo mais cuidado em não ter número excessivo de filhos. Segundo ela, os casais olham atualmente com mais pragmatismo para as questões cotidianas do que antes. “Eles param para pensar e concluem que não podem ter dez filhos porque não têm como sustentá-los ou dar uma educação continuada”, cita.

A psicóloga Eliane Galvão, 35 anos, faz parte do grupo de mães que engrossam as estatísticas do IBGE em favor do filho único. Ela conta que quando Lucas, 12 anos, nasceu, ela não pôde dar toda a atenção que ele precisava e merecia. Na época, ela estava cursando faculdade e iniciando sua vida profissional.

Agora que está com a vida mais estabilizada, Eliane diz que tem procurado recuperar o tempo perdido com o filho. Como não tem mais faculdade para freqüentar, ela aproveita para ficar com Lucas à noite. Na avaliação dela, um segundo filho interromperia essa relação, que ela procura manter a mais estreita possível. Uma outra criança exigiria toda a atenção dela. Além do mais, Eliane acredita que com apenas um filho fica mais fácil proporcionar uma boa educação e mais qualidade de vida.

Essa é a vontade dos pais, mas não de Lucas. “Ele sonha em ter um irmão”, revela a mãe, que vem de uma família de quatro irmãos. Apesar desse desejo, ela continua firme no propósito de não ter outra criança em casa. “Hoje, não tenho tempo e nem estrutura para isso.”

Doralice dos Anjos Veiga, 38 anos, ainda não tem filhos, mas o sonho de ser mãe está prestes a ser realizado. Faz dez anos que ela tenta engravidar. Finalmente, essa possibilidade está bem próxima de ser concretizada. Mesmo que não consiga gerar um bebê do próprio ventre, Dora, como é mais conhecida, está decidida a adotar uma criança. Adotivo ou não, será apenas um.

“Dizem que onde come um, comem dois, mas não é bem assim”, afirma ela. Com apenas uma criança em casa, Dora acredita que é mais fácil dar a ela uma condição de vida melhor. “Quero dar ao meu filho tudo aquilo que eu não pude ter”, conta. Nem por isso, o herdeiro ou herdeira vai ser mimado. “Vai ter de trabalhar para dar valor ao que tem”, afirma.

De acordo com a pesquisa do IBGE, a opção em ter apenas um filho é mais comum entre as classes média e alta. Quanto maior a escolaridade e renda do casal, menor é o tamanho da família.

Ter um único filho ou simplesmente não tê-lo é uma tendência mundial. Na Europa, isso vem ocorrendo há muito tempo. A taxa de natalidade no continente está em cerca de 1,5 criança por mulher. Com isso, não está havendo a reposição da população. Na tentativa de reverter essa situação, a Espanha, que tem uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo, está pagando 2.500 euros por cada filho novo nascido.

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Na contramão

A quantidade de casais que estão optando por ter apenas um filho cresce a cada ano, mas ainda é grande a parcela que prefere encher a casa de crianças. É o caso da doméstica Simone Ferreira Zaratin, 30 anos. Ela teve quatro filhas. Uma delas, Ana Laura, faleceu quando tinha duas semanas de vida fora do ventre da mãe. Apesar da tristeza de perder um filho, Simone não desanima. “Se pudesse, eu teria mais filhos. Queria ter uns seis”, comenta.

“Dá trabalho cuidar de criança, mas acaba compensando porque é gostoso demais”, diz ela, cercada pelas três meninas: Bruna, 13 anos, Vitória, 8 anos, e Alice, 3 anos. “Eu gosto de ver a casa cheia, talvez por ter crescido em uma família grande”, acredita Simone, que tem sete irmãos.

Ela conta que é gostoso ver as filhas se ajudando e se organizando para brincar. Com uma vida financeira apertada, Simone revela que usa de alguns truques para poder comprar presentes para todas no fim do ano. Ela antecipa as compras para não ter de gastar de uma só vez, ou seja, não deixa todos os gastos para dezembro.

Simone acredita que em uma família como a dela, que não tem muito dinheiro, mas também não tem falta de nada, dá para criar de cinco a seis filhos “numa boa”. “Se não fizer questão de muito luxo, é possível”, pondera ela, que sonha em ter outro filho, de preferência um menino.