Araraquara - Uma ação coordenada pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) com o cumprimento de sete mandados de busca e apreensão terminou com a prisão de um estelionatário que se passava por delegado ambiental e fechou um escritório de fachada usado como uma suposta Agência Nacional de Combate a Crimes Ambientais, montada em uma casa na rua Voluntários da Pátria, no Centro, em frente à Santa Casa de Araraquara (117 quilômetros de Bauru).
Com uniforme e viatura falsa, o grupo aplicava golpes em terceiros, vendia autorizações mentirosas para empresas e autuava madeireiras para recolher o dinheiro da multa. A estimativa é que o prejuízo passe dos R$ 500 mil. Duas pessoas foram presas. O golpe vinha sendo aplicado em Araraquara e várias cidades do Interior Paulista e em outros Estados há quase um ano.
O esquema era organizado e chamou a atenção até mesmo dos policiais civis. O escritório foi montado com um golpe simples. O falso delegado, E.R.A. (apenas as iniciais foram informadas), de 45 anos, fazia compras em nome de terceiros que desconheciam o crime. O delegado Luiz Armado Goyos Ferreira, adjunto da DIG, acredita que só nesse tipo de golpe eles deixaram um prejuízo de R$ 150 mil às vítimas.
Além do falso delegado, a agência contava com a participação de R.F.P.M., 37 anos, que auxiliava nas supostas fiscalizações. Para quem os contratava para liberar documentos de responsabilidade ambiental, eles montavam um processo fajuto e cobravam pelo serviço. No entanto, nada disso existia no Ibama ou no Ministério do Meio Ambiente.
Com coletes, camisetas e uma viatura falsa com os dizeres “Fiscalização Ambiental Federal” , Ibama e Ministério do Meio Ambiente, o trunfo do grupo eram mesmo as madeireiras. Os acusados autuavam os empresários e, depois, cobravam diretamente pela multa. Os valores variavam de R$ 400 a R$ 4 mil. Policiais apreenderam computadores, documentos e três armários lotados com processos montados pela tal Agência Nacional. “Eles falavam que a madeireira já estava autuada e esse escritório local iria intermediar o negócio e facilitar as coisas ao dono”, diz o delegado. Foram encontrados processos de madeireiras de Araraquara, Jaú e até cidades no interior do Mato Grosso.
Para dar credibilidade, o falso delegado andava sempre bem-vestido e com gravata. A viatura tinha sirene interna, no entanto, o suposto agente cometeu uma falha. A viatura estava em seu nome e com placas de São Carlos, apesar de toda viatura de esfera federal ter o nome do Brasil na tarjeta da cidade.
Nas paredes do escritório ele espalhou quadros com palestras e diplomas impressos no computador de cursos ambientais realizados em 1998. No bolso, ele usava uma carteira com emblema federal e uma carteirinha emitida pelo Ministério do Meio Ambiente.
Dois funcionários da Agência, uma secretária de 18 anos e um auxiliar geral de 19 anos ficaram surpresos com o golpe. Ela entrou no serviço em junho e ele em março. Ambos ficaram assustados com a ação policial e jamais pensaram que trabalhavam para um golpista. Nem os atrasos nos salários geraram dúvida. “Nunca desconfiei de nada”, conta a funcionária. A perícia fotografou a agência que era dividida por salas com os nomes dos “doutores” pregados nas portas. Agora, a DIG vai analisar os documentos e os arquivos guardados nos computadores. Nomes de outras vitimas foram encontrados entre as anotações.
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Acusados negam
O agente preso junto na operação não quis dar entrevista, mas, segundo os policiais, negou envolvimento no esquema. Já o falso delegado comentou que tudo era um engano. Algemado e dentro da viatura, afirmou ser um diretor-executivo da agência. Ele não quis comentar uma prisão anterior também por um estelionato semelhante cometido em Alagoas, cuja detenção foi pedida pela Polícia Federal.
Ele chegou a ser preso na cidade há mais um ano e saiu da cadeia com um hábeas corpus. Ao ser questionado pelas falhas na placa da viatura, ele emendou: “Sem comentários”. A partir daí se calou. Ambos foram presos por estelionato e falsidade ideológica.