10 de julho de 2026
Internacional

Bhutto desafia ditador paquistanês

Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Islamabad - A ex-premiê do Paquistão Benazir Bhutto desafiou o ditador do país, Pervez Musharraf, ao exigir ontem o fim imediato do estado de emergência decretado no último sábado e convocar grandes protestos para sexta-feira em Rawalpindi (norte). “Apelo ao povo do Paquistão para que se manifeste. Estamos sob ataque”, afirmou.

A clara mudança de posição de Bhutto - que havia inicialmente moderado as críticas e evitado se colocar contra Musharraf - está sendo encarada como uma tentativa de reavivar suas chances de se tornar premiê em 2008, ameaçadas pelo esperado adiamento das eleições gerais de janeiro.

Antes do estado de emergência, Bhutto e Musharraf negociavam um acordo de divisão de poder que permitiria a ela se tornar premiê enquanto o ditador continuaria na Presidência.

O partido de Bhutto, o laico PPP (Partido do Povo do Paquistão), era o favorito na disputa pelo Parlamento, mas o decreto lançou dúvidas sobre a data das eleições e deixou o acordo em suspenso.

Além da marcha desta sexta, ela promete repetir o protesto no próximo dia 13 se Musharraf não suspender o estado de emergência e marcar a votação, mas não descartou negociar se as exigências forem atendidas.

Golpe sobre golpe

No poder desde 1999, quando deu um primeiro golpe de Estado, o general Musharraf decretou o estado de emergência há seis dias alegando crescente oposição no Judiciário, na mídia e entre grupos políticos.

A Constituição foi suspensa, juízes da Corte Suprema foram destituídos, canais de TV privados foram tirados do ar e 3.500 pessoas foram presas, segundo dissidentes -o governo admite metade desse número.

Especula-se que o decreto foi motivado pelo questionamento da Suprema Corte sobre a reeleição de Musharraf - ele acumula a chefia das Forças Armadas e a Presidência, o que é proibido pela Constituição.

Repetindo atos dos últimos cinco dias, confrontos voltaram a acontecer no país anteontem: depois da fala de Bhutto contra o decreto, cerca de 400 partidários da ex-premiê saíram às ruas de Islamabad e entraram em confronto com policiais, que usaram gás lacrimogêneo e prenderam participantes.

Indispensável para os EUA

Nos EUA, que têm no Paquistão um de seus principais aliados contra o terrorismo, pressões para a abertura democrática não impediram o governo de manifestar apoio a Musharraf.

Segundo o vice-secretário de Estado americano John Negroponte, apesar da “profunda discordância” com o estado de emergência, o ditador é “um aliado indispensável”. “A parceria com o Paquistão e seu povo é nossa única opção”, afirmou ao Congresso ontem . Mas o presidente americano, George W. Bush, disse que ligou para Musharraf e pediu a ele que organize eleições em breve e abandone a farda. Foi a primeira vez que os dois conversaram diretamente desde o estado de emergência.