O Madeira é conhecido como o rio onde existe o maior tráfego de toras e árvores enormes que navegam ao sabor das corredeiras e remansos, razão pelo que os barcos preferem as margens, e de onde se pode alcançar mais rapidamente terra firme.
Para conhecê-lo, viajamos por mais seis horas em um barco de 10 metros de comprimento, por um metro e meio de largura, com cobertura de lona e um motor à mostra localizado na traseira do mesmo. O interessante era que o leme era conectado por duas cordas a uma haste de madeira que ficava na frente do barco. Salva-vidas? Nenhum.
Éramos poucos passageiros, incluindo uma jovem mãe com sua filha de 2 anos e dois ajudantes. Um deles passou toda a viagem retirando água do fundo do barco com uma cuia. A carga? Uma contradição: mais de 50 barras de gelo, acomodadas em caixas térmicas que saíram de Humaitá (AM) na noite anterior para refrigerar as bebidas dos festejos de São Sebastião, padroeiro da comunidade de Jacundá, próxima de onde ficaríamos.
Chegamos ao nosso destino por volta do meio-dia. A casa de madeira, simples, nos pareceu aconchegante e segura. Fomos bem recebidos. Entre nós estava a prima do casal, responsável por nos levar até lá. Os três garotos, filhos do casal, festejaram nossa chegada.
O homem da casa chegaria mais tarde, Márcio, um ex-soldado do 54º Batalhão de Infantaria da Selva (BIS), onde serviu por dez anos, estava pescando. Havia saído no dia anterior e chegou trazendo tambaquis limpos e já salgados, e bodós, que aqui chamamos cascudos, enormes e vivos, e vivos permaneceram por mais dois dias dentro de uma gamela de madeira cheia de água.
No almoço comemos bodós cozidos inteiros num caldo temperado com pouco sal, cheiro verde e pimenta de cheiro, acompanhado por farinha d’água e banana pacovan frita. Sobre a boca aberta do fogão à lenha um bodó inteiro assava, criando expectativa em mim e nas crianças. Em mim porque ele assava como havia chegado, com sua casca e suas entranhas e sem nenhum tempero.
A cozinha era um espaço também suspenso do chão, assim como toda a casa, e conectada a ela por uma passarela. Tinha a cobertura de palha de buriti, um fogão à lenha que não apagava nunca e uma mesa para as refeições da família. Conjugada à cozinha havia um girau com uma caixa d’água, para usos diversos, desde a lavagem dos utensílios domésticos até higiene pessoal.
Há o estranhamento inicial e normal de alguém, como nós, vindo da cidade. Nosso conceito de conforto difere e muito da população ribeirinha do interior da Amazônia. Que água beberíamos, onde tomaríamos banho, onde seria o banheiro? O rio era a resposta para todas estas perguntas. Estávamos na época das chuvas e as águas inundam as margens e se tornam barrentas. No Uruapiara, fora desta época as águas são cristalinas.
A casa simples, de madeira e suspensa do chão, quase nenhum móvel. Uma cama de casal, os cômodos limpos. Na sala, algumas cadeiras de frente a uma estante onde havia um aparelho de televisão sempre desligado, pois a energia dependia de combustível que faria girar o gerador.
O começo da noite nos gera uma sensação de aprisionamento voluntário. Protegido dentro daquela casa rústica e simples, procuro ouvir os sons que vêm do rio e da floresta. Havíamos levado nossas redes e nelas dormimos. Isto é: tentei dormir. Eu era o único que não dormia em rede, e pela segunda noite me debatia buscando posições que nunca eram cômodas. Durante a noite a temperatura caía e fazia frio. Na floresta, os sons se misturavam, constituindo uma linguagem que eu não dominava e que gostaria de entender.
• Serviço
Para conferir mais fotos da expedição de Olício Pelosi por Uruapiara, basta acessar os sites http://fotolog.terra.com.br e www.oliciopelosi.fot.br; informações pelo e-mail op@oliciopelosi.fot.br.
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Manhã traz descobertas ao visitante
Amanhece, e todos se levantam. A manhã é úmida e com neblina, devido à umidade retida na floresta. O fogão ainda quente reacende facilmente e começa o burburinho das crianças. O sol custa a dissipar a neblina da manhã, mas o calor do fogão à lenha torna o ambiente agradável.
No café da manhã tivemos banana pacovan frita, mingau de banana, tapioca e pupunha.
A cheia do rio fazia com que a água para consumo tivesse que ser buscada num pequeno riacho, alguns quilômetros dentro da floresta, nos fundos do pequeno roçado com plantação de mandioca e onde ficava a casa da farinha, local onde se rala a mandioca, seca, extrai o polvilho e torra a farinha para consumo. Caminhar com as crianças pela trilha até o local da água potável foi uma aventura cheia de aprendizado com os pequenos professores. A todo o momento, eles interrompiam a caminhada para explicações diversas.
Formigas tucandeiras, frutas venenosas, plantas medicinais, insetos, borboletas, pássaros, ovos de répteis. Uma parada para cada tema, e a temperatura do dia subindo vertiginosamente. Os cachorros da família nos acompanhavam e farejavam o caminho.
Chegamos ao local da coleta da água suados e com sede, porém um dos cachorros tomava banho no pequeno lago onde recolheríamos a água. Rimos muito da situação e esperamos até que a água voltasse a ficar límpida novamente. Cada um de nós carregava uma ou duas vasilhas para a água, e o chefe da casa, Márcio, transportava um galão de 20 litros dentro de um “paneiro”, cesto de fibra que se carrega nas costas e preso na testa por uma tira de tecido. Um recurso aprendido com os índios, que permite ficar com as mãos livres.
Entre a casa e a floresta, há um espaço de 150 metros, recoberto de vegetação rasteira, onde se cria algumas cabeças de gado, soltas, que, além de prover o leite e a eventual carne, servem para impedir a aproximação de animais selvagens, cobras e outros tipos de predadores. O gado pisoteia a vegetação e facilita a visibilidade do início da floresta, os cães fazem a guarda. Neste mesmo espaço as árvores frutíferas e nativas fornecem os complementos alimentares da família; cupuaçu, caju-açu, bananas, tucumã, goiabas e mais uma variedade de frutos que nunca havia provado, como o marí-marí.
As atividades do dia-a-dia são voltadas todas na sua maioria para o provimento da subsistência, cuidar dos animais domésticos, plantar, colher e produzir farinha da mandioca, pescar, caçar, buscar frutos, e as crianças vão à escola.
Ir à escola é uma pequena aventura diária para eles, quem não têm mais que 10 anos. Remam um pequeno barco de fundo côncavo, os dois maiores nas extremidades do barco imprimem um ritmo rápido na pequena embarcação, e por 40 minutos deslizam sobre as águas do Uruapiara até o barco-escola.
A volta, contra a correnteza, é mais penosa e demorada. Noto neles um esmero com nossa língua, não usam nenhum tipo de gíria, usam os verbos na segunda pessoa, sorriem sempre amigáveis, têm respeito pelos mais velhos e nadam como peixes. Preservados das mídias eletrônicas, desconhecem personalidades televisivas ou super-heróis desnecessários, porém são encantados pelas lendas da selva e seus grandes medos são cobras grandes e jacarés.
A família sobrevive em sociedade com o avô e mais um tio, fabricando barcos de madeira que são levados a Humaitá ou a Manicoré, cidades sedes de municípios, às margens do rio Madeira. É uma atividade que herdaram dos avós portugueses, que chegaram à região para a exploração da borracha das seringueiras nativas e coleta da castanha do Pará.
Uruapiara com certeza ainda é uma destas regiões onde não encontramos uma placa indicando que chegamos. É mais um lugar de um Brasil onde pessoas corajosas e adaptadas vivem em estreita comunhão com o seu ambiente, entre o rio e a floresta e nada mais. Visitar qualquer recanto da imensa Uruapiara é experimentar o avesso do que vivemos na cidade, com nossos muros, grades, alarmes e ares condicionados.