08 de julho de 2026
Internacional

Comédia ri da liberdade sexual de hoje

Por Cássio Starling Carlos | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

A comédia sempre foi um modo de representar dramas com efeito oposto. Isso não tira dela, ao contrário, a capacidade de crítica de costumes e comportamentos. Em sua aparente leveza, “Ligeiramente Grávidos” é uma crônica pertinente sobre os efeitos da liberdade sexual reabastecidos pelos valores da sociedade de consumo. O filme estréia hoje no Multiplex Bauru Shopping.

Nessa versão atualizada de Romeu e Julieta, não são mais as famílias inimigas que impedem o amor de se concretizar. É da oposição, desde os modos de vida até os tipos físicos, que emergem tanto o humor quanto as certeiras observações sobre a juventude global.

Dirigido por Judd Apatow, o filme retoma as boas idéias de “O Virgem de 40 Anos”, trabalho anterior do cineasta, roteirista e produtor. Trata-se de incorporar elementos de vivências dos atores, num modelo de composição de personagens que escapa do recurso a estereótipos, comum em comédias.

A ênfase de Apatow se dá no campo da moral sexual ambivalente no mundo contemporâneo e em como a liberalização provocou uma ruptura com antigas noções de responsabilidade, sem conseguir colocar em seu lugar nada que a substitua.

Outro elemento acentuado é o da passagem da adolescência à vida adulta. O grupo de amigos de Ben Stone, todos na casa dos 20 anos, recusa-se a fazer essa transição e vive o dia inteiro chapado de maconha.

Do outro lado encontra-se Alison, uma garota que galga seus primeiros passos profissionais como apresentadora de TV. Um acidente de percurso, numa noite embalada a álcool num clube noturno, vai juntar esses dois exemplares de espécies distintas. O resultado é uma gravidez involuntária.

Visto na perspectiva dessa moral, o filme quase patina na caretice, ao conduzir Ben para o território da responsabilidade. Mas é no retrato das individualidades que a comédia tira suas vantagens. A mais evidente encontra-se nas oposições entre papéis femininos e masculinos e nas expectativas sempre frustradas de uns em relação aos outros, ressaltadas pela presença do casal Debbie e Pete, irmã e cunhado de Alison, que funciona como um duplo projetado dela e de Ben.

Outra excelente observação é sobre a imagem e a mentalidade da juventude, como numa cena em que Debbie e Alison são barradas no mesmo clube noturno do primeiro encontro porque não é admitida a entrada de “velhas e grávidas”.

Para além de seu pertinente olhar moral, o filme ganha mais força com a precisão dos diálogos, feitos de um ótimo fogo cruzado de referências à cultura pop, e com um irresistível par central, tanto mais adequado quanto mais discrepante em suas aparências.