Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro tinha complexo de vira-lata. Isso em 1950, quando a seleção perdeu a Copa do Mundo no jogo final, para o Uruguai. Se vivesse nos nossos dias o dramaturgo diria que os dirigentes do futebol e da nação têm mais é complexo de poodle. Lula teve o cuidado de lotar o seu confortável avião com doze governadores para ouvir a confirmação do nome do Brasil como sede da Copa de 2014. A Fifa não teve nenhum trabalho na escolha. O nosso país era candidato único. De outro avião desembarcaram em Zurique o presidente da CBF Ricardo Teixeira, o técnico Dunga, Romário, meia bateria de escola de samba, mulatas, dezenas de assessores, jornalistas e tudo o mais. Michel Platini e Franz Beckenbauer, que hoje prestam serviços como assessores da Fifa, estranharam a ausência de uma pessoa na multidão: “Cadê o Pelé? Não veio? Como?” Beckenbauer chegou a passar um pito no presidente Teixeira: “Pelé é meu irmão. O atleta do século 20. Ninguém representa mais do que ele as glórias do futebol brasileiro”.
Assim começamos o processo de arrumação da Copa do Mundo de 2014. Se Deus fez o mundo em sete dias, é inimaginável que não possamos dar conta de um campeonato de futebol em sete anos. Ainda bem que o presidente Lula, em brilhante improviso garantiu que “Vamos fazer uma Copa para argentino nenhum botar defeito”. A gente nem sabia que nossos hermanos são um primor em matéria de organização de eventos. Recentemente demos demonstração de competência com os Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. Nem sei porque certos intelectuais pintam como pouco atraente o nosso futuro. Eles são preocupados com a priorização da saúde, da educação, das estradas, dos aeroportos. Nem só de pão vive o homem. Está na Bíblia. É bem verdade que o Pan saiu um pouco caro. Quatro vezes mais que o orçamento inicial. Perfeitamente compreensível. Isto aqui não é o Japão onde os projetos são criados com antecedência, com memorial descritivo das obras, cronogramas físicos e financeiros rígidos. Ninguém se afasta um milímetro do que foi programado. Aqui é Brasil, terra de samba e pandeiro.
Fala-se até na realização do sonho do trem-bala Rio-São Paulo, ligação merecida das duas maiores capitais do país. Investimento de 7 bilhões de dólares mas que, na melhor das hipóteses, se iniciado na semana que vem ficaria pronto em 2015. Quando o Rio foi designado para sediar os principais jogos do continente falou-se na construção do Trans-Pan, um metrô ligando os Aeroportos à Barra da Tijuca. Não saiu do papel. Agora sai o Trans-Copa. As 12 cidades que serão escolhidas para sediar as fases classificatórias, por certo vão ter que melhorar os estádios e o sistema de transportes. Quem sabe o povo possa se aproveitar de benefícios duradouros, depois que os turistas forem para casa. A violência nas capitais, certamente será contida. Os marginais podem ignorar os lemas de condutas cidadãs, mas quando o Hino Nacional é tocado todos se perfilam para entoar pelo menos o refrão: “Ó Pátria amada, idolatrada, salve, salve”. O brasileiro passa a vida inteira tentando decorar a letra do hino. Na hora da pausa para entrar na segunda parte eu fico em dúvida e espero os outros.
Já era hora designar músicos e compositores proeminentes do Brasil para, oficialmente autorizados, providenciarem um compacto do nosso hino. É uma composição vibrante, operística, mas muito comprida. Estamos na era da televisão. Cada segundo custa uma fortuna. Chateiam as interrupções abruptas do Hino Brasileiro, nas premiações de competições internacionais. Nem bem toca a introdução já está na hora de acabar. Os hinos das grandes potências - Estados Unidos, Alemanha, Itália - são curtos e podem ser entoados do começo ao fim. Quem sabe até 2014 possamos ter um compacto que nos transmita toda a vibração patriótica da primeira à última frase musical, em 40 segundos. Que os acordes característicos sejam preservados. Que a letra continue com o mesmo ufanismo. O Brasil mudou, o mundo tem pressa. Temos que entrar no ritmo.
Tenho por mim que a Copa de 2014 será um sucesso. As verbas serão estreitamente vigiadas pela imprensa. Ninguém terá a ousadia de desviá-las com tantos olhares desconfiados. Só temo o “já ganhou”. Na Copa de 50 foi assim. Perdemos. A pátria de chuteiras não deve esquecer as sandálias da humildade.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC