08 de julho de 2026
Geral

Busca de identidade define jovem

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos 50 anos, o mundo ocidental passou por uma verdadeira revolução tecnológica. Com o avanço dos meios de transporte, tudo que era longe se tornou perto demais. TVs via satélite e computadores ligados em rede são capazes de colocar as pessoas em contato com culturas de diferentes partes do planeta. Os grandes projetos políticos se esfacelam (vide a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o final da “Cortina de Ferro”) e o indivíduo se volta para si.

É como se o mundo tivesse encolhido e se tornado muito “igual”. Isso não quer dizer, porém, que esse movimento tenha agradado a todos - e as tribos urbanas estão aí para provar isso. “A pós-modernidade”, explica o antropólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru Cláudio Bertolli Filho, “é marcada pelo conflito entre uma sociedade que tenta impor uma uniformidade de gostos, estilos, valores e comportamentos a todos e o indivíduo que busca se diferenciar da massa e criar uma projeto próprio de vida.”

O embate entre a sociedade massificadora e o homem que quer deixar de ser massa costuma ser mais acirrado quando o pessoa está na adolescência. “Essa é uma fase em que o indivíduo está articulando a própria identidade e se pergunta: ‘Quem sou?’, ‘O que busco desta vida?’ É quando ele sai à procura de uma tribo, passando a ser reconhecido como sujeito, justamente pela adesão a um determinado grupo ”, diz o antropólogo.

Punk cristão?

A busca por uma forma de se afirmar perante a sociedade fez com que o auxiliar administrativo Tayguara Dias Reis, hoje com 22 anos, experimentasse situações, no mínimo, contraditórias em sua adolescência. Quando tinha 17 anos, resolveu aderir ao skate core, uma das diversas linhas do punk, cujo principal expoente é a banda norte-americana Bad Religion.

Só que, ao mesmo tempo que ingressou para um movimento que se coloca contra os valores da sociedade ocidental (inclusive o cristianismo), Tayguara continuou sendo membro atuante da Paróquia de São João Batista, em Iacanga (50 quilômetros de Bauru), cidade onde mora até hoje.

“Eu havia sido coroinha, depois me engajei no ministério de intercessão da Igreja. Também costumava tocar contrabaixo nas missas”, explica. No dia-a-dia, o rapaz tinha de lidar com a difícil tarefa de conciliar as crenças religiosas com os valores da nova tribo.

“Quando eu saía com a galera para beber e alguém falava mal de Deus, eu dizia: ‘Pô, cara, pára de blasfemar’”, afirma. Ainda nessa época, Tayguara resolveu aderir a mais uma tribo: a dos defensores do meio ambiente. “Quando eu tinha 17 anos de idade, filiei-me ao Greenpeace”, diz.

Cinco meses após se tornar ambientalista de carteirinha, porém, o rapaz se viu obrigado a abandonar a organização não-governamental (ONG). “No começo, o Greenpeace cobrava apenas R$ 15,00 de mensalidade, mas depois subiu para R$ 20,00. Como eu estava sem trabalho, não tive condições de pagar e precisei sair”, diz.

Tayguara também já foi punk (“Cheguei a usar moicano”, conta), mas, hoje, prefere se manter fora das tribos. “Quero variedade em minha vida. Não acho certo você seguir uma coisa com fanatismo. Quando eu era garoto, achava que me isolando em um grupo conseguiria me afirmar. Agora vejo que eu estava sendo alienado”, pondera.

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Tuning: prazer sobre 4 rodas

Durante a semana, ele é apenas um rapaz de 22 anos qualquer que passeia pelas ruas do Parque Bela Vista montado em uma Honda Biz. Mas, quando chega o final de semana, ele se transforma. Dentro de seu Audi A3, ano 97, rodas aro 19 e mascara negra nos faróis, ele chama a atenção de todos, esteja na avenida Getúlio Vargas, no shopping, ou mesmo em campeonatos de “tuning”.

“É gostoso ver as pessoas quase quebrarem o pescoço para olhar meu carro”, diz o estudante de administração Daniel Luiz dos Santos, 22 anos. Ele pratica tuning - expressão em inglês usada para se referir à otimização de veículos - desde os 16 anos (nem carteira de habilitação ele possuía na época).

“Eu tinha um Gol quadrado rebaixado”, conta. Depois do Gol, um Escort com rodas aro 17, três telas de DVD e equipamento de som de última geração. “Paguei R$ 11 mil no carro (à vista) e gastei mais de R$ 15 mil para incrementá-lo”, diz Santos.

Menos de um ano depois, novo carro, rodas maiores ainda. “Peguei um Vectra CD e pus rodas aro 18”, conta. dez meses mais tarde, e bye-bye Vectra. “Comprei um Audi A3. É o sonho da maioria dos garotos”, explica.

Em geral, tuneiros costumam torrar pequenas fortunas na compra de acessórios automotivos. Santos gastou mais de R$ 9 mil com um jogo de rodas aro 19 para seu Audi. “Minha família fica uma fera comigo, pois esses acessórios não valorizam o carro na hora da venda. Dizem que é dinheiro jogado fora”, afirma.

Hoje, ele e outros tuneiros costumam se reunir no estacionamento de um supermercado na zona sul para exibir suas máquinas. Denominado “Bauru Vip Team”, o grupo conta com cerca de 20 integrantes.