08 de julho de 2026
Geral

Preconceito marca cotidiano das tribos

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

A opção por um estilo de vida diferente também acaba trazendo ônus para os integrantes de algumas tribos urbanas. Na cabeça de um grande número de pessoas, os góticos, por exemplo, são satanistas, os punks, violentos, e os freqüentadores de festas de músicas, usuários de drogas. “É claro que há muita gente que usa droga em raves, mas isso não quer dizer que sejam todos. Conheço muita gente que vai à balada apenas para curtir o som numa boa”, diz a recepcionista Karina Rodrigues Ribeiro, 18 anos, que mora em Bauru há cerca de um ano e freqüenta festas de música eletrônica desde que tinha 17 anos.

“Tem gente que não consegue diferenciar sua aparência e seus gostos pessoais daquilo que você é enquanto indivíduo”, queixa-se o bauruense Fábio Augusto Gamonar, 30 anos. Dono de uma loja de produtos de informática, ele também é integrante de uma banda de heavy metal, a Brutal Factor.

Ao lado dos punks, os góticos talvez sejam a tribo que mais sofre com as idéias pré-concebidas existentes na sociedade. “As pessoas olham para a gente com esse cabelo comprido, esse jeito quieto e essas roupas pretas, e logo pensam: ‘Esse pessoal cultua o capeta...’ Ora, à exceção dos trajes escuros, Jesus Cristo também era um homem ‘na dele’ que usava cabelo comprido. Se formos seguir essa lógica, então...”, argumenta o bauruense Dennis Márcio de Oliveira Gomes, 20 anos.

Ele se identifica com o movimento desde que tinha 17 anos. Segundo o rapaz, os góticos são um grupo que prega valores laicos. O gosto dos integrantes da tribo pelos lugares obscuros (cemitérios, principalmente) ajudou reforçar ainda mais o preconceito das pessoas com relação a eles. “A gente vai ao cemitério para fazer coisas que os demais jovens costumam fazer em locais iluminados: beber, bater papo com os amigos, sem incomodar ninguém”, explica Gomes.

“Se ficássemos numa praça, por exemplo, o que iria ocorrer? Ou alguém iria passar e mexer com a gente por causa de nosso visual (muitos usam maquiagem e cabeleiras exóticas) - e isso acabaria dando em briga, na certa - ou então viveríamos tomando batida da polícia”, diz Gomes, que, atualmente, não freqüenta cemitérios.

‘Isso aí é meu filho?’

Familiares também não costumam encarar com muita euforia o fato de que o adolescente se tornou parte de uma tribo. “Tem pai que chega até mim e diz: ‘Eu tenho até vergonha de dizer que isso aqui é meu filho!’. Outros falam: ‘Por que a senhora não dá um tapa e arranca esse boné fedido da cabeça desse moleque?’”, afirma a diretora da Escola Estadual (EE) Ernesto Monte, Heloise Helena Cerqueira de Souza.

Com muita paciência, ela tenta convencer os pais de que o enfrentamento não é a melhor técnica para se lidar com a rebeldia dos filhos. ”Se você disser: ‘Não use esse penteado!’, daí é que o adolescente vai usar. É preciso respeito e carinho. A família tem que fazer o jovem enxergar que, mesmo fora do grupo, ele será aceito pela sociedade”, pensa a diretora, que está há quase 20 anos à frente da escola.

____________________

Ravers: o som que desperta a alma

Karina Rodrigues Ribeiro, 18 anos, conheceu a música eletrônica quando tinha 13 anos. “Eu tinha um tio que era DJ em São Paulo”, conta. Atualmente, ela usa o som do psy-trance até para acordar depois de uma noite de sono. “Não sei explicar o que ocorre. É como se a batida chegasse até a minha alma”, diz.

Ela teve a oportunidade de ir pela primeira vez a uma rave quando tinha 17 anos. “Foi numa chácara”, diz, sem saber precisar a localização da propriedade. Em geral, festas de música eletrônica como as que ela freqüenta, chamadas PVTs (do inglês private), não costumam ter grande divulgação.

A localização afastada das PVTs também serve para impedir que o bom andamento da balada seja atrapalhado por fatores inesperados - a chegada da polícia, por exemplo. É que o consumo de drogas (principalmente ecstasy e LSD) é comum em eventos do gênero.

Uma das vantagens das raves, segundo ela, é poder se divertir durante horas (alguma chegam a durar até três dias) sem ser importunada. “As pessoas vão até lá para curtir e ficar numa boa. Numa balada comum, a maiorias dos rapazes vai para paquerar e acaba incomodando a gente, que só quer se divertir”, explica.