07 de julho de 2026
Saúde

Toques e retoques

Consultoria: Daniela Hueb
| Tempo de leitura: 4 min

O preconceito contra os obesos

Prezado leitor,

É revoltante como as pessoas discriminam os obesos. Na prática clínica, comumente me deparo com relatos tristes sobre as dificuldades de se enfrentar o preconceito, as críticas maldosas e os sorrisinhos e piadinhas sarcásticas. Sem contar que, numa primeira análise, o obeso é visto como preguiçoso e glutão. Não para mim. A obesidade, meus caros colegas, é sim uma doença.

No culto moderno da silhueta perfeita, a pessoa obesa passa por muitas situações ofensivas. Um exemplo clássico é quando eles entram num restaurante. Os indiscretos apontam o dedo. Os discretos se cutucam ou simplesmente trocam olhares entre si como um sinal para observá-lo. E, nessa hora, tudo é realmente avaliado, como o modo de andar, sentar, conversar e, principalmente, a atração principal: a hora de comer. E a platéia, assim como num grande espetáculo de circo, põe-se a rir das brincadeiras do “palhaço”.

E as apostas começam: o que será que ele vai pedir para comer? Certamente um prato cheio de frituras, massas e, claro, sem salada. E para beber? Muito refrigerante e sem a preocupação dele ser isento ou não de açúcar. Mas calma, ainda não terminou. Para a sobremesa, dois bolos de chocolate com bastante sorvete e calda de doce de leite. É, queridos leitores, não é fácil enfrentar o preconceito contra o obeso.

Imagine então em locais públicos. No ônibus, maldita catraca; no avião, maldita poltrona apertada; na loja, maldita numeração pequena; na procura de emprego, malditos magros... E a história continua e só tende a piorar.

Psicologicamente e na maioria dos casos, o obeso é ansioso e depressivo. E, para preencher o vazio interior, acaba descontando na comida. Em minha experiência, muitos só procuram ajuda porque há cobrança do marido, da sociedade ou de outras pessoas. E não porque querem encontrar a própria felicidade. E o insucesso do tratamento acaba sendo quase certo, afinal, deve-se emagrecer para sentir-se bem e não para satisfazer alguém.

Além do estado psicológico, há também o aspecto físico e os problemas de saúde. Geralmente, os exames bioquímicos de colesterol encontram-se demasiadamente elevados, assim como os de triglicérides e hiperinsulinemia (excesso de insulina no sangue). E a pressão? Coração batendo forte e em ritmo acelerado, acompanhado de suor excessivo e a camisa molhada, mais comumente na região das axilas. Na hora de dormir, agüenta o ronco. Sem contar também as lesões de pele, principalmente na região que tem dobrinhas.

No esporte, tratando-se de futebol ou qualquer esporte que exija agilidade, é excluído, por ser considerado lerdo. Agora, quando o assunto é força, é um super-herói. Todos o querem e vibram vê-lo em ação.

Triste doença. Existe cura? Infelizmente a resposta é não. E controle? Felizmente a resposta é sim. Não se pode basear em apenas um fator para seu devido controle, dentre eles, atividade física para aumentar o gasto calórico; modificação dos hábitos (ou vícios) alimentares; medicação apropriada e personalizada; psicoterapia ou cirurgias do aparelho digestivo. Dependendo do grau de obesidade e de outros fatores observados em consulta e avaliação médica, pode-se lançar mão de todas essas modalidades para seu controle.

De todos os fatores, o mais passível de sucesso, se realizado único e exclusivamente, é a correção dos hábitos alimentares. Os outros, todos dependem da correção alimentar para obter-se sucesso, ou seja, não adianta nada tomar medicamentos, fazer atividade física, psicoterapia e cirurgia digestiva e deixar de lado os hábitos alimentares. Cura e milagre ainda não existem na medicina. Controle sim.

Reforçando a dieta

Ah, a bendita dieta! Quem é que gosta de ficar horas e horas sem comer e ainda sentir fome a maior parte do tempo? Será que esse sofrimento é para o resto da vida? Quem dera fosse possível comer tudo sem engordar, certo!?

A questão não é “passar fome”, e sim “não passar fome”, acredite! Quando ficamos muito tempo sem nos alimentar, o nosso corpo não entende que estamos de dieta, e sim que estamos passando por uma fase de racionamento de energia e, portanto, que é preciso economizar para não faltar. Aí começa o efeito contrário: o organismo passa a absorver mais os alimentos e, pior, a estocar energia. E os sintomas são logo sentidos: pressão baixa, movimentos mais lentos e cansados e enjôo pela falta de glicose no sangue.

Esses foram apenas alguns exemplos de preconceito sofrido pelos obesos. Como médica nutróloga e dedicada à obesidade, posso dizer seguramente que emagrecer é necessário não por padrões estéticos, mas pela preservação da saúde e da qualidade de vida. É uma tarefa difícil, mas não é uma missão impossível. Obesidade não é opção de vida, é uma doença que merece e necessita ser tratada.

Gostaria que você, leitor, antes de falar, criticar ou julgar algum obeso, pense nele como um ser humano e que merece ser respeitado como tal, assim como você também gostaria de ser.

Um grande abraço e até o próximo domingo.

Daniela Hueb

Médica nutróloga e pós-graduada em dermatologia estética - CRM-SP 96.027.

Envie suas dúvidas para e-mail:danielahueb@jcnet.com.br