Você já ouviu seu pai ou seu avô falar sobre os bons tempos? Aqueles em que as pessoas andavam de braços dados nas ruas, em que a elegância era marca registrada de homens e mulheres que passeavam pelo Centro de Bauru? Talvez alguns leitores tenham vivido por essa época diferenciada, quando ter uma roupa feita sob medida era praticamente obrigação.
Nessa época de esplendor havia leiteiros que entregavam leite de porta em porta, os guarda-chuvas e os sapatos iam para o conserto e as roupas eram feitas na medida do corpo. Neste tempo, havia pipoqueiros nas portas dos cinemas e das igrejas, os homens faziam a barba com navalha em salões especializados, as panelas eram desamassadas até que não pudessem mais ser utilizadas e as facas eram amoladas até que a lâmina sumisse por completo. Ainda existiam as parteiras, os chapeleiros, os ferreiros, os telegrafistas e os acendedores de lampiões. Algumas destas profissões não existem mais, outras ainda sobrevivem, mas caminham para a extinção.
Apesar da modernidade, se procurarmos pelos bairros em Bauru, ainda encontraremos alguns desses profissionais, em geral saudosistas da época em que as pessoas valorizavam mais suas profissões. Os tempos modernos tiraram muito do glamour desses profissionais, mas nem por isso eles desistem, se mantendo fiéis às suas atividades, e contando ainda com alguns clientes especiais, que não abrem mão de um serviço de qualidade.
O alfaiate Mauro Ribeiro Cabogrosso, 70 anos, lembra bem da época em que se vestir bem era uma obrigação para os homens. “Hoje você anda pelo Centro e vê os homens de bermuda e chinelo. Naquela época não, os homens eram elegantes, e faziam questão de fazer a roupa sob medida”, conta. Ele começou a aprender a profissão aos 8 anos e não parou mais.
Cedo também começou o calígrafo Jorge Iossef Nadim, 74 anos. Mestre na arte da caligrafia, Nadim aprendeu a desenvolver sua técnica aos 15 anos. Já houve semana em que escreveu mais de 800 envelopes para convites de casamento, algo que, atualmente, não tem tanta procura. “Hoje são poucas pessoas que procuram esse tipo de trabalho, mas nem por isso a gente pára. Sou um pouco idealista e tento ensinar algumas crianças carentes, mas nem sempre elas continuam”, ressalta.
Cabogrosso e Nadim são exemplos de resistência de profissões que perderam o apelo romântico, mas eles não são os únicos. Há inúmeros profissionais que ainda se mantêm, apesar das dificuldades que a modernidade trouxe. “Nos tempos atuais as pessoas buscam conforto e facilidades, por causa da correria do dia-a-dia, por isso é cada vez mais comum vermos grandes centros de compras que abrigam de tudo, ou seja, em vez de ir a vários lugares, as pessoas compram tudo em um lugar só e economizam tempo. Isso acaba afetando esses profissionais”, afirma o economista Reinaldo Cafeo.
Apesar da resistência de alguns, muitas profissões não tiveram a mesma sorte e foram extintas pela tecnologia. Não é possível encontrar a figura do datilógrafo, por exemplo, já que a máquina de escrever se tornou obsoleta depois que o computador entrou nos lares brasileiros. Salvo alguns saudosistas, dificilmente você vai ver uma máquina de escrever com a facilidade que via antigamente.
Em outros casos, os ofícios se adaptaram ao tempo e se mantiveram. Porém nem todos tiveram a mesma sorte. No fim das contas, a tendência é que as profissões mais antigas acabem dando lugar a outras mais novas, por causa do curso natural das coisas ou, simplesmente, pela falta de interessados em dar continuidade à profissão, como veremos nas próximas páginas.
____________________
O consertador de panelas
Houve um tempo em que consertar panelas era a coisa mais comum do mundo. Nem que fosse para desamassar e continuar usando até não ter mais o que fazer. A panela furava, mas nem por isso as pessoas a descartavam, procuravam um consertador de panelas para dar um jeito e pronto. Atualmente, esses profissionais são cada vez mais raros. Como encontramos um consertador de panelas? Demos sorte. Ele passou com seu carro bem em frente ao JC e nós o “pegamos a laço”.
No começo, Elias Pedro Lima ficou desconfiado, mas depois abriu o jogo sobre sua atividade, cada vez mais difícil de ser exercida. Lima é de Presidente Prudente e trabalha há 18 anos com conserto de panelas e fogões, além de afiação de facas e tesouras, ou seja, é um profissional multiuso. Ele afirma que não fica em um local fixo, mas vai visitando as cidades e tem até alguns clientes fiéis, que sempre pedem para que ele conserte alguma coisa ou pelo menos afie uma faca ou tesoura.
Segundo o consertador de panelas, a profissão garante seu sustento. Não que seja um ganho acima da média, mas é possível sobreviver só com a atividade exercida e apesar da concorrência. “Ainda tem bastante gente na profissão”, garante.
____________________
Entre sombrinhas e guarda-chuvas
João de Souza Ribeiro é um artista. Ele não é músico ou ator, nem faz pintura em telas, mas mesmo assim ainda pode ser considerado um artista. João de Souza conserta sombrinhas e guarda-chuvas. Parece improvável para você que em pleno século 21 alguém se disponha a realizar essa atividade, ainda mais com os preços de produtos novos cada vez mais baixos.
Ribeiro tem consciência dessa dificuldade e afirma que a atividade serve apenas para um complemento de renda, já que não é possível cobrar muito pelo serviço. “Os preços baixaram demais, então uma sombrinha fica em R$ 2,50 e um guarda-chuva em R$ 3,50 para consertar”, diz.
A situação atual é bem diferente de outras épocas. Há 40 anos trabalhando no ramo, Ribeiro afirma que antigamente valia a pena consertar a sombrinha e o guarda-chuva, porque comprar um produto novo ficava muito caro. “Na época, comprar uma sombrinha nova era difícil por causa do preço, então o pessoal procurava para consertar”, lembra.
Atualmente a situação mudou. Com a invasão de produtos fabricados em outros países e de qualidade inferior, consertar um guarda-chuva ficou inviável e poucas pessoas procuram os serviços de João de Souza Ribeiro, que aprendeu o ofício na fábrica de guarda-chuvas dos irmãos Nava. “Trabalhei com o Adroaldo e o Wilson Nava, na fábrica, depois montei uma oficina na Vila Falcão, mas o capital era pouco, então só conserto em casa, para pessoas que já conhecem o serviço e confiam na gente”, explica.