Enquanto boa parte dos vestibulandos passa noites em claro à espera de uma prova decisiva para entrar na faculdade, uma minoria vive essa fase sem o estresse costumeiro. E isso não tem nada a ver com controle emocional. Esses alunos foram aprovados em outros tipos de seleção, como a avaliação seriada e por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Exatos 5,5% das instituições de ensino superior do País fazem processos seletivos que diferem do vestibular tradicional, de acordo com o Instituto de pesquisas ligado (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação.
O levantamento foi realizado com base no Censo de 2005 da Educação Superior. O vestibular tradicional não é obrigatório. O Ministério da Educação exige apenas que os candidatos sejam classificados por meio de um processo seletivo. As próprias instituições definem os critérios para selecionar seus alunos.
Na avaliação seriada, por exemplo, o estudante faz um exame no fim de cada uma das séries do ensino médio. Depois, os pontos são somados - em algumas faculdades, os pesos das provas são diferentes - e o aluno é aprovado ou não.
A escolha pela carreira, em geral, acontece na terceira etapa. Foi assim com Bruna Borges Venditti. Aluna do curso de publicidade e propaganda da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, ela conta que estava bem tranqüila quando fez as provas. “O fator psicológico pesou muito. Só de saber que, se fosse mal, poderia recuperar no ano seguinte me deixou mais calma.’’
Na Faap, as matérias exigidas nos exames - que têm 60 testes e uma dissertação - acumulam de um ano para o outro. “A prova do segundo ano, por exemplo, cobra o conteúdo do primeiro e do segundo anos do ensino médio’’, explica Jorge Miguel, diretor acadêmico do departamento de processo seletivo da Faap.
Na Universidade de Brasília (UnB), em que 25% das vagas são para o Programa de Avaliação Seriada (PAS), a matéria não é cumulativa. A primeira prova vale 100 pontos; a segunda, 200; e a terceira, 300.
“O aluno recebe um boletim informativo na inscrição da terceira etapa com o seu desempenho e as notas máximas e mínimas obtidas pelos candidatos aprovados no ano anterior. Com base nisso, ele se dedica para a obtenção’’, explica Mauro Rabelo, diretor-geral do Cespe/UnB.
Na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, das 2.826 vagas oferecidas para 66 cursos de graduação, 20% são destinadas para a avaliação seriada, que existe desde 1995. A matéria exigida não é cumulativa.
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Processo pode servir de treino
Participar de um processo seletivo seriado pode servir de treino para outros vestibulares, além de estimular o estudante a se dedicar mais aos estudos durante o ensino médio. “É um formato de prova muito bom porque incentiva o aluno a não deixar acumular todo o conteúdo no terceiro ano’’, afirma Silvana Leporace, coordenadora do serviço de orientação educacional do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. “O estudante também aprende a se controlar nas diferentes situações e a administrar o tempo e a ansiedade’’, avalia.
Ana Paula Lucato avalia que participar da avaliação seriada da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap) tem sido positivo. Ela fez as provas das duas primeiras fases. “Não senti que minhas notas na escola tenham melhorado, mas saí ganhando em termos de confiança e de segurança.’’ Ela pretende cursar direito ou jornalismo e não descarta prestar vestibular em outras instituições. “A avaliação seriada já vai ter valido o treino.’’
Marilia Barcellini Di Dio achou que fosse uma espécie de treineiro (como o do vestibular da Fuvest) quando foi fazer a primeira etapa da prova. Ela quer uma vaga no curso de rádio e TV. “Quero trabalhar em televisão com edição.’’
Após uma das fases da avaliação seriada, as instituições em geral costumam enviar para o aluno o seu resultado individual e o desempenho médio da escola. Para Altamires Alves Santos, que está no terceiro semestre de letras/espanhol na Universidade de Brasília (UnB), a experiência foi bastante importante para detectar as deficiências e corrigi-las para a etapa seguinte.
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Válido
Por avaliar o aluno em momentos diferentes, o formato do vestibular seriado é considerado válido por educadores ouvidos pela reportagem. No entanto, eles afirmam que o sistema ainda pode ser melhorado.
“O vestibular seriado resolve alguns problemas, mas cria outros. Ele tem um custo final muito elevado e poucos benefícios adicionais. Ele é benéfico em certas circunstâncias, pois dá aos alunos uma idéia mais real de seu preparo acadêmico ao longo do ensino médio, o que permite correções de rota, reforço de certas áreas, etc’’, afirma Nelio Bizzo, professor titular de metodologia de ensino de ciências da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
“A escola deveria fazer isso, mas nossa tradição em avaliação é muito recente e precária. Tecnicamente, temos excelentes provas de vestibular’’, diz Bizzo.
Na visão de Victor Koloszuk, um dos diretores do Colégio Vértice, a diferença curricular entre as escolas pode dar a falsa impressão de que o aluno precisa melhorar, sendo que ele pode não ter aprendido ainda determinado conteúdo.
Maria Regina Maluf, professora da pós-graduação em psicologia da educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que o peso das disciplinas deveria variar conforme a carreira escolhida. “Só assim para discriminar melhor o aluno pela sua habilidade.’’