10 de julho de 2026
Cultura

Às quintas-feiras, todos são artistas

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Ela força os olhos para conseguir ler a letra da música, presa entre os dedos, a um palmo do corpo. Ao contrário da vista e da memória, a voz não falha e a viúva de 80 anos Ivone Francisco de Souza - que diz ter nascido cantando - interpreta, emocionada, a poesia de Tom Jobim e Vinicius de Moraes: “Assim como viver/ sem ter amor não é viver/ Não há você sem mim/ e eu não existo sem você”.

São 22h da quinta-feira que antecedeu o Feriado de Finados. Dou o último gole no café, já sem a decoração de quando chegou quente à mesa da Evoé Cafeteria, nos Altos da Cidade. É hora de voltar para a redação depois de presenciar um happy hour, no mínimo, diferente. O choppinho, ícone desses encontros pós expediente, estava lá, sobre alguns móveis de madeira. Em outros, ele perdia para o café, sucos, beliscos, saladas e folhas de poesias.

Tudo bem, nada tão excepcional. O extraordinário estava em minha frente, revezando-se no microfone. De repente, sem pedir, chamava a atenção de todas aquelas mesas, preenchidas por solteirões e solteironas, casais; às vezes, uma família inteira, com gente de 15 a 80 anos. Acompanhando o ritmo do violão, dedilhado por Bitenka, cantores e poetas se formavam ali, naquela hora, e apresentavam um pouco do seu show.

“Essa eu dedico aos meus amigos”, disse a coordenadora do curso de letras da Universidade Paulista (Unip), de Bauru, Miriam Pallotta, olhando para as duas mulheres que a esperavam na mesa. Em seguida, leu “Loucos e Santos”, de Oscar Wilde: “Tenho amigos para saber quem eu sou/ Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que ‘normalidade’ é uma ilusão imbecil e estéril”, terminou o texto, aplaudida pelos presentes.

Depois de algumas músicas, Miriam voltou ao microfone, desta vez acompanhada da aluna Patrícia Nasralla. Declamaram Clarice Lispector, a primeira sobre o tema liberdade, a segunda sobre angústia. Entre os aplausos, destacavam-se risos e olhares de duas crianças, intrigados com a performance da mãe. Eram João Roberto e Isadora, de 4 e 7 anos, acompanhados do pai, Roberto Pallotta.

Durante duas horas, muitos foram os corajosos que deram sua canja na Evoé Cafeteria: Edmilson Celso Fernandes, Janaína Oliveira e João Carlos dos Santos. E a noite estava apenas começando: “Ficamos aqui desde às 8h até o último cliente”, avisou a proprietária da cafeteria, Rosa Leda Gabrielli.

O tom do Café com Tom foi resumido pela profissional de marketing, Lucinha Svizzero. “É impossível voltar para casa da mesma forma que se chega aqui”, afirmou a mulher, que pela primeira vez pôde participar do evento. “Vou fazer de tudo para não perder mais nenhum daqui para frente”.

• Serviço

Jorge Maciel se apresenta no “Café com Tom” desta quinta-feira, dia 15, a partir das 19h30, da Evoé Cafeteria (quadra 24 da rua Rio Branco). Mais informações: (14) 3227-3545.

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Projetos saborosos

Há dois anos Rosa Leda Gabrielli e o marido, Mário Gabrielli, compraram o ponto e abriram a Evoé Cafeteria, com a intenção de fazer do espaço um ponto de cultura e, principalmente, de literatura.

Seo Mário, inclusive, emprestou o nome para a pequena biblioteca, que abriga os livros divididos em duas prateleiras do Café. “Queríamos um lugar acolhedor e despojado, em que todos se sentissem em casa”, explica Rosa.

O “Café com Tom”, iniciativa lítero-musical, começou há cerca de um mês, fruto dessa vontade. Desta forma, toda quinta-feira, a partir das 19h30, um músico apresenta um pocket show, intercalado por declamações de poesias de autores renomados e locais.

“O escritor tem a possibilidade de doar o seu texto para a Evoé, que em breve terá um site no ar, com um espaço destinado para as publicações”, afirma a assessora de imprensa da cafeteria, Luciana Gonçalves Silva Bergamini.

E os projetos não param. Dia 23 de novembro, sexta-feira, será o lançamento do “Fotopoint”, “primeiro espaço de exposições fotográficas mensais permanentes no Interior”, assinala Bergamini.

“As quatro estações da arte”, comandada pela marchand Ju Machado, começará em dezembro, a primeira de quatro grandes mostras de artes plásticas em comemoração às estações do ano.

Pelo menos numa quarta-feira do mês, os organizadores também promoverão o “Café com Passos”, onde vão afastar as mesas e abrir espaço para os dançarinos - profissionais ou não - da cidade. E já há planos para o ano que vem. Em maio, será realizado o “Festival do Café”, em comemoração ao dia 24, data internacional do grão.