08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A nova mercadoria


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O mercado de carbono surgiu e cresceu no contexto de aumento de instabilidades climáticas, como inundações pela abundância de chuvas e calor excessivo, causadas pela agressão ao meio ambiente. O ser humano, contudo, sempre arruma um atalho para dar continuidade aos seus planos expansionistas sobre a natureza.

Na tentativa de atenuar este problema ou ganhar dinheiro encima disso, dependendo da leitura que se faça, passou-se a comercializar créditos ou permissões que limitam a emissão de gases de efeito estufa, neste caso um comércio voltado especificamente ao dióxido de carbono, sendo que as empresas que precisam aumentar suas emissões devem comprar créditos daquelas que poluem menos. Então, paga-se para poluir. O carbono é a nova mercadoria.

Aí entram os critérios do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que determinam a maneira ambientalmente correta de um país crescer e convoca o mundo para uma nova conscientização. Esta é uma pretensa solução encontrada no momento em que muitos países decidiram aderir-se ao modelo de industrialização.

O mercado de carbono, no Brasil, é uma iniciativa da Bolsa de Mercadorias & Futuros, da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para desenvolver um sistema de certificação ambiental de acordo com os princípios do Protocolo de Quioto.

Desse modo, proliferam as companhias que vendem este serviço, que, pelos trâmites, têm sido mais aplicados em empresas de grande porte com lucros milionários, dado que os altos custos inviabilizam estes projetos naquelas de pequeno e médio tamanho.

Aumentam, ao mesmo tempo, o fluxo de investimentos que acreditam neste mercado sobretudo em direção a Brasil, China e Índia, países emergentes, uma vez que Austrália e Estados Unidos são os que mais hesitam em aderir a essas convenções ambientais por receio de afetar a pujança de suas economias, lembrando que só o segundo país citado é responsável por um quarto das emissões mundiais.

Não é justo que, enquanto os países subdesenvolvidos adotam políticas de desenvolvimento sustentável, são poucos os desenvolvidos que abrem mão da gigantesca produção industrial e reduzem seus ganhos para cumprir metas de sustentabilidade. Ou todos participam, ou ninguém participa. Assim deveria ser.

Mecanismo idêntico ocorre com a agência internacional de inspeção de armas nucleares, que se intromete em países que não têm uma sequer, mas não fiscalizam as milhares de ogivas que possuem Estados Unidos e Rússia.

A proteção ambiental deveria ser antes iniciativa da sociedade civil, organizações não-governamentais e governos na esfera pública do que deixada nas mãos do ambiente privado, que busca incansavelmente o lucro. Além disso, o ciclo de desenvolvimento recai na busca alucinante de taxas cobradas pelo governo brasileiro (de onde puder tirar do contribuinte, tira) ou nas exigências do mercado, que, em muitos casos, inviabilizam os empreendimentos e não geram o retorno ambiental esperado.

Os projetos de responsabilidade ambiental tornam-se empecilho industrial, o que justifica a hesitação de muitos países em reduzir a emissão de gases poluentes, e bom negócio para este novo mercado de carbono. A atenção voltada ao meio ambiente, inerente à participação cidadã, infelizmente, não tem sido tratada como prioridade.

O autor, Bruno Peron Loureiro, é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista - Unesp