09 de julho de 2026
Internacional

Aos 84 anos, morre o escritor Norman Mailer

Por Denyse Godoy | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

O escritor Norman Mailer, expoente do novo jornalismo e um dos maiores nomes da literatura americana do pós-guerra, morreu anteontem, em Nova York, aos 84 anos, de falência renal aguda. No dia 17 de outubro, a família divulgou que ele estava internado no hospital Monte Sinai após realizar uma cirurgia no pulmão. Na mesma semana, saiu o seu último livro, “On God: an Uncommon Conversation” (sobre Deus: uma conversa incomum), ainda inédito no Brasil.

Vencedor do Prêmio Pulitzer em duas ocasiões (1968, com o também ganhador do National Book Award “Os Degraus do Pentágono”, e 1979, com “A Canção do Carrasco”), o escritor se casou seis vezes e teve nove filhos. Em 1960, ele esfaqueou com um canivete a segunda mulher, Adele Morales, com quem estava desde 1954. Ela não prestou queixa, porém contou a sua versão do ocorrido na autobiografia “The Last Party” (a última festa).

Romancista, ensaísta e repórter, Mailer publicou mais de 40 livros. Falou de celebridades, guerra, política, sexo e da eterna batalha do bem contra o mal. Escreveu uma biografia de Marilyn Monroe e contou a história de Lee Harvey Oswald, tido como assassino do presidente John Kennedy. “Uma coisa que eu sempre quis ser foi escritor”, comentou. “Eu queria escrever um romance que tanto Dostoiévski quanto Marx; Joyce e Freud; Stendhal, Tolstói, Proust e Spengler; Faulkner, e até o velho e mofado Hemingway quisessem ler.”

Judeu nascido em Long Branch, New Jersey, em 31 de janeiro de 1923, o escritor cresceu no Brooklyn, Nova York, que se tornou seu verdadeiro lar. Por duas vezes ele concorreu à prefeitura da cidade. No entanto, Mailer começou a achar difícil manter seu estilo de vida boêmio - era fumante inveterado, mulherengo, bebia pesadamente e sempre arrumava briga - com o passar dos anos. “Nova York acaba comigo. Não consigo mais ficar a noite toda na rua e depois escrever no dia seguinte”, disse certa vez.

Era obcecado com a masculinidade e com a violência - por conta de alusões a agressões sexuais na sua obra e do episódio com a mulher Adele, era freqüentemente criticado pelas feministas. Tido como um aluno brilhante, formou-se em engenharia aeronáutica por Harvard em 1943, e serviu no exército durante a Segunda Guerra Mundial, no Pacífico Sul. A experiência é contada em seu primeiro romance, “Os Nus e os Mortos”, de 1948. O trabalho foi muito bem recebido pela crítica, apontado como um clássico contemporâneo e chegou ao topo da lista de mais vendidos - mas Mailer teve dificuldade em manter o padrão. E por polêmicas e brigas.

Afundou a própria campanha a prefeito chamando seus aliados de “bando de porcos mimados”. Em 1971, deu um soco na cabeça do escritor Gore Vidal no meio de um programa de televisão porque Vidal escreveu que “de Henry Miller, passando por Norman Mailer e chegando a Charles Manson (fundador de uma seita que comandou o assassinato da atriz Sharon Tate em 1969), houve um progresso lógico”.

Vidal afirmou depois que Mailer era “um homem cujas falhas, embora muitas, acrescentavam em vez de subtrair, da soma de suas realizações naturais”. Mailer se descrevia politicamente como um “conservador de esquerda”. Detestava o capitalismo e apoiava o movimento negro ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, desafiava o feminismo e demonstrava ter uma queda por assuntos violentos.