09 de julho de 2026
Articulistas

A verdade, ainda que tardia


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Recentemente, participava de um programa de debates em uma rádio quando fui surpreendido pela pergunta de uma ouvinte. Ela me pedia explicações para o fato de não ter sido reeleito em 2006. A extensa lista de temas em pauta e a escassez de tempo me levaram a lhe dizer que, numa democracia, ganhar e perder são faces de uma mesma moeda. Fora cumprida a vontade do eleitor. Ponto.

O debate acalorado sobre temas candentes e atuais também nos impediu de discutir outros temas relevantes. Dentre eles, chamou-me a atenção uma reportagem publicada no Estado de São Paulo (“Privatizadas são melhores”). Baseada em estudos feitos pela Confederação Nacional de Transportes (CNT) – que pesquisou 87.592 quilômetros de estradas pavimentadas –, a matéria revelou que, das 20 melhores rodovias do País, 19 são operadas por empresas particulares. Não é por coincidência que essas 19 rodovias estão em São Paulo. Este fato, sem dúvida, decorreu da política adotada pelo então governador Mario Covas (PSDB), de quem fui líder na Assembléia de São Paulo, de transferir para o setor privado a administração desta atividade. O nosso Estado, que parcelava o pagamento dos salários de seus funcionários públicos, não tinha recursos próprios para executar esta função, no tempo exigido para o crescimento de nossa economia e a segurança dos usuários.

A única ligação rodoviária, entre as 20 melhores do país, operada pelo setor público é a que liga São Paulo a Belo Horizonte. Faz parte do pacote que, tardiamente, o presidente Lula decidiu entregar à iniciativa privada. A inoperância e o discurso político, marcas registradas do PT, trouxeram prejuízos inequívocos à nossa economia se levarmos em conta que, em grande parte, o transporte de cargas no país é feito por rodovias. As estradas consideradas ruins ou péssimas eram 74% em 2003 e permanecem em 73,9% no presente ano. Estes números são suficientemente claros. Todos sabem que uma malha viária de péssima qualidade resulta em riscos, desconforto, atrasos, deterioração de mercadorias e encarecimento dos custos para os usuários. Não devem ser desconsiderados o aumento do roubo de cargas, em rodovias cuja segurança é precária ou inexistente, e as vergonhosas estatísticas das mortes nas estradas federais. A precariedade da malha rodoviária é o resultado da combinação de insuficiência de recursos públicos e ineficiência de governos.

Lembrei-me dos discursos do PT quando disputei minha primeira reeleição. Foram competentes em atribuir-me, como líder, responsabilidade na concretização desta e de outras ações que à época eram, politicamente, difíceis de serem defendidas. Poucos tiveram a coragem de fazê-lo.

Custaram-me muitos votos, é verdade. Talvez a reeleição. Hoje durmo tranqüilo. Fizemos o que era preciso.

O autor, Milton Flávio, é médico, professor da Faculdade de Medicina da Unesp-Botucatu e ex-deputado estadual pelo PSDB - e-mail: epmiltonflavio@yahoo.com.br