09 de julho de 2026
Regional

O que leva alguém a matar por amor?

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

Jaú - O assassinato de alguém motivado por amor estimula discussões sobre a realidade de cada um. Questiona-se quais experiências teria vivido o menor E.L.S., 17 anos, até matar com um tiro Paula Regina Caldeira, 15 anos, anteontem, em Jaú (47 quilômetros de Bauru).

Também anteontem, o motoboy Gilmar Leandro da Silva Filho, 23 anos, matou com um tiro a ex-noiva Evellyn Ferreira Amorim, 18 anos, e cometeu suicídio, na Praia Grande, Baixada Santista. Em dezembro último, Júlio César Pedroso Mazara, 27 anos, matou a facadas a ex-namorada Leide Daiana Aparecida Moraes, 24 anos, em São Manuel.

Todos tinham em comum o fato se ser muito jovens. Os casais Gilmar e Evellyn e Leide e Júlio estavam separados. E.L.S. e Paula teriam um relacionamento instável, com o rapaz fazendo reiteradas ameaças à namorada. Em um dos episódios, no último dia 9, na frente da mãe e de Paula, ele disse, com uma faca no pescoço, que se mataria caso a jovem terminasse o namoro.

Nesse episódio E.L.S. não sugeriu que mataria a namorada. Só que o casal teve outra discussão anteontem e o rapaz atirou em Paula no meio da rua Vitor Cerino. Ela morreu no local e ele foi preso momentos depois, escondido em uma residência de amigos a dois quarteirões do local do crime.

A psicóloga de Jaú Renata Teixeira avalia que o ambiente economicamente desfavorável colabora para uma certa violência. Ela exemplifica desenhando um ambiente com formação de gangues, drogas e criminalidade, muito próximo da realidade vivida por E.L.S..

Entretanto não é o meio que faz o ser violento. Para Teixeira, em termos psicológicos, as dificuldades financeiras e o ambiente violento não justificam a criminalidade. Ela contrapõem relembrando casos de pessoas de classe média e classe média alta que também cometem crimes parecidos, mas não apresentam dificuldades financeiras.

Então, o que exatamente motivou os três rapazes a matarem as mulheres que supostamente amavam? Teixeira ressalta que depende como cada pessoa interpreta a situação que vivencia. A psicóloga ressalta que o filtro dos fatos vividos refletem a história de vida de cada um. O que forma a história relevante de vida de cada indivíduo, segundo Teixeira, é a educação, o meio em que vive, a maneira como aprendeu as regras, os limites e valores.

“As pessoas ‘normais’ sabem que não podem forçar uma pessoa a ficar com você. Não estou dizendo que é isso, mas na cabeça desse menino (E.L.S.) pode ser que ele tenha uma leitura do tipo: ‘Se não vai ficar comigo, também não vai ficar com ninguém’”, sugere.

Talvez, ao sentir a proximidade do fim do relacionamento, E.L.S. pode ter iniciado as ameaças, inclusive, dizendo que se mataria. “Ele fez uma leitura pessimista da situação. Eu não vou conseguir viver sem ela nunca mais. Eu nunca mais vou poder reatar esse namoro com ela. Então, chega. Nem para mim nem para ninguém”, acrescenta.

Seguindo esse raciocínio pode-se concluir que E.L.S. não matou por amor? “Pode ser que isso, para ele, signifique amor. O que é amor para mim não é amor para o outro. Cada um enxerga a realidade dos fatos com o seu filtro interno pessoal”, explica.

O delegado titular do 3.º Distrito Policial, Edson Maldonado, entende que o crime cometido por E.L.S. não se caracteriza como “matar por amor”. O delegado explica que o rapaz tinha envolvimento com atos de violência.

“A discussão com a namorada não poderia tomar outro rumo senão a violência. Porque ele vive num meio violento, fazendo pequenos furtos, envolvimento com entorpecentes e portando arma. Então, a impunidade que envolve menores infratores no País é que leva ele a resolver uma situação com a namorada de forma violenta. Isso está enraizado nele. Então, não é por amor”, avalia.

Perfil violento

A irmã de Paula Regina Caldeira, Pamela Cristina Caldeira, 20 anos, comentou ontem, em depoimento ao delegado, que E.L.S. era uma pessoa violenta. “Lá, no bairro, ele intimidava muitas pessoas. Ela tinha conhecimento de desavença entre os dois há algum tempo”, ressalta. Maldonado esclarece que Paula imaginava que o namorado, que passou a andar armado, não a mataria. “O revólver seria para fazer ‘fitas’, cometer delitos. Paula disse à irmã que ficasse tranqüila porque a arma não seria para matá-la e acabou matando”, ressalta.

Ontem, E.L.S. teve audiência com o promotor da Vara da Infância e Juventude de Jaú. “Foi representado pela internação dele por três anos”, salienta Maldonado.

Paula foi enterrada ontem, às 10h, em Jaú. A família procurou evitar o assédio da imprensa durante o velório e sepultamento. O exame feito no Instituto Médico Legal (IML) de Jaú não conseguiu confirmar a hipótese de que Paula estaria grávida. Seu útero foi retirado e enviado para perícia no IML de São Paulo.