09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: Decolagem pantaneira


| Tempo de leitura: 4 min

Sempre fui muito caprichoso em minhas pescarias, principalmente no que se refere ao local. Sempre gostei de pescar nos rios da nossa região, por serem de fácil acesso e não ficar longe do conforto do lar, mas, como toda regra tem sua exceção, nesse caso não foi diferente. A curiosidade e o convite de amigos me levaram a conhecer o fabuloso rio Xingu.

A viagem de Bauru a Canarana, onde ficamos baseados, já merecia uma história à parte. As belezas da região, o rio Sete de Setembro, afluente do Xingu, em cuja foz pescamos durante uma semana, daria um livro. Mas não é disso que quero falar nessa minha narrativa. E sim de um fato espetacular e inusitado. Aliás, se não fosse assim não merecia ser compartilhado com os milhares de leitores do JC.

Da cidade de Canarana até o rio Xingu eram mais de 100 quilômetros de estradas de terra. Após o terceiro dia de pesca, o vai e vem nos impeliu a pousar nas margens do rio, onde armamos umas barracas para terminar nosso período de pesca previsto para 12 dias.

Com o ineditismo da paisagem, o constante vento úmido e a tranqüilidade aliada ao silêncio do local, onde o único vestígio de civilização eram nossos pertences e traias de pescadores, a nossa única preocupação era com os bravios índios da grande reserva do outro lado do rio Xingu. Mas fomos orientados a não cruzar o rio, pois assim tudo acabaria bem.

No oitavo dia de pesca, nosso improvisado acampamento já tinha uma rotina. Todos os componentes da equipe sabiam de suas tarefas e cada um cumpria com sua obrigação perante o grupo. Com isso, tudo transcorria na mais perfeita ordem. Os imprevistos eram resolvidos após uma meticulosa consulta ao seu Dersilio, um tabaréu residente na fazenda. Ele tinha a solução para todos os problemas que aparecia, ora inventando, ora improvisando. O importante é que nada ficava insolúvel.

Certo dia, porém, a cultura e o conhecimento de seu Dersilio nos deixaram estupefatos. Por ser um local longe de tudo, o trânsito de aviões de pequeno porte na região é muito intenso. Já estávamos acostumando com tantos aviões quando avistamos, no longínquo horizonte, um teco-teco que vinha em nossa direção. Ele começou a perder altura e pensamos que se tratava de um vôo rasante, brincadeira muito comum na região. Mas não era. Tratava-se de um pouso forçado. O aviãozinho veio tossindo, tossindo, afogou e se arrastou pela braquiaria, parando uns dez metros longe das barracas, enquanto nós, pescadores, a essa altura dos acontecimentos, já havíamos corrido a uma distância bastante segura caso houvesse uma explosão, o que felizmente não ocorreu.

Muito ressabiados e precavidos, começamos a voltar lentamente para perto do avião, quando, de repente, o piloto abre a porta daquele verdadeiro fusca voador e salta com muita desenvoltura em meio ao imenso capinzal que cobria o solo arenoso e percebe que as rodinhas do avião estavam totalmente enterradas, o que preconizava a impossibilidade de decolagem mesmo que fossem resolvidos os problemas de ordem mecânica. Enquanto nos refazíamos do susto, o seu Dersilio apareceu para tomar pé da situação, afinal, não é todo dia que se tem um avião na porta de casa,

Após inteirar-se dos fatos, seu Dersilio se colocou à disposição do aviador para colaborar na decolagem, o que para nós, pescadores, e o piloto, parecia impossível, mas seu Dercilio garantiu que, se o avião funcionasse, ele cuidaria da decolagem.

Em poucos minutos, o aviador já havia desmontado o carburador e soprado peça por peça. Remontou, instalou e deu partida. Perfeito: o ronco rasgou a mata.

Seu Dersilio chamou o piloto e teve com ele uma conversa em particular como alguém combinando algo em segredo. Correu em sua casa e voltou imediatamente trazendo uma corda de lidar com o gado. Ficamos apreensivos. Será que ele vai querer rebocar o avião a unha? A solução foi muito mais original. Seu Dersilio amarrou a corda na calda da pequena aeronave e amarrou em um toco. Fez um sinal com o polegar para o piloto dando o ok para a inusitada decolagem.

O piloto tomou seu lugar no aparelho e foi acelerando. Seu Dersilio ali, firme, de olhar fixo nos pneus da aeronave. Quando o motor atingiu a rotação ideal para a propulsão do aparelho com a corda que estava esticada, o avião começou a flutuar como uma pipa ao vento pedindo linha. Seu Dersilio puxa da cinta seu facão jacaré e, num único golpe, corta a corda. O avião parte rasante, roçando sementes de capim. Pende daqui, pende dali, mas foi afirmando o vôo e ganhando altura. Sumiu nas planuras verdes da reserva indígena do Xingu.

Lazaro Carneiro