09 de julho de 2026
Bairros

Todos os caminhos levam à Nações

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 5 min

Atire a primeira pedra quem nunca trafegou pela avenida Nações Unidas, quem não foi ao Parque Vitória Régia, quem não passeou pela praça da Paz. Atire a primeira pedra aquele que nunca reclamou dos buracos, das enchentes e dos radares, quem nunca achou lindas as luzes que iluminam a noite das Nações. Atire a primeira pedra quem nunca presenciou ou pelo menos ouviu falar de um acidente ocorrido na avenida.

Se você mora em Bauru, com certeza já passou pela Nações, nem que tenha sido apenas na chegada à cidade, se você, como este repórter, veio de outras paragens. O leitor deste caderno já deve estar acostumado com as interferências deste escriba, então vai mais uma. Lembro bem quando vim a Bauru pela primeira vez, passar férias em 1992, e como me impressionou aquela avenida iluminada enquanto o ônibus descia rumo à rodoviária.

Sim, naquele tempo, e até há bem pouco tempo atrás, os ônibus que iam ou vinham de São Paulo, passavam pela Nações. Para quem não conhecia a cidade, chegar depois que o sol se punha era um verdadeiro presente, que compensavam as quatros horas e meia de viagem.

Mas o personagem desta história não sou eu, mas sim esta famosa avenida, conhecida em rede nacional depois que o astronauta Marcos Pontes foi entrevistado pela jornalista Fátima Bernardes, da TV Globo, em pleno espaço. A referência à avenida Nações Unidas deixou-a conhecida no Brasil inteiro, quissá, no mundo, por que não?

O fato é que a Nações é a porta de entrada para Bauru e todos os caminhos da cidade levam à avenida. De norte a sul, a via atravessa a cidade e corta nada menos do que nove bairros em toda sua extensão, que atinge quase seis quilômetros, sem falar em outros próximos, como o Jardim Godoy, Parque Vista Alegre e Vila Seabra, localizados no começo da avenida.

O fato é que, ao longo de quase 50 anos depois que o prefeito Nicola Avallone Júnior, o Nicolinha, começou a conceber a avenida, muita coisa mudou. A Nações foi construída por etapas, e grande parte dela teve de ser reconstruída após as explosões ocorridas em vários pontos da avenida em 1976.

O historiador Luciano Dias Pires conta que a Nações era um sonho do prefeito Nicolinha, que fez o primeiro trecho da rua Marcondes Salgado até o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). “Depois os outros prefeitos terminaram. O Alcides Franciscato, o Edmundo Coube e o Oswaldo Sbeghen foram os responsáveis por fazer os outros trechos da avenida”, lembra Pires.

Atualmente, a principal avenida de Bauru não conta com muitos moradores, mas há alguns tradicionais, que viram a avenida ser criada e se desenvolver cada vez mais. Os comerciantes se instalaram e praticamente dominaram o famoso corredor bauruense, mas nem por isso quem mora no local deixa de gostar deste “quintal”.

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“Personalidades”

O fato é que a avenida Nações Unidas tem em sua extensão diversos pontos de destaque, não só para Bauru, mas para o Estado e, porque não, para o País. O Parque Vitória Régia, por exemplo, é um dos cartões-postais da cidade. Projetado pelo arquiteto Jurandyr Bueno Filho, o local ficou muito conhecido na década de 80, quando várias bandas de sucesso passaram pelo anfiteatro, em shows memoráveis. Atualmente, o Vitória Régia é um espaço de lazer, onde são realizadas feiras, eventos culturais e festas.

Um pouco abaixo temos o teatro municipal, palco de peças e exposições, centro da cultura da cidade. Mais adiante é possível encontrar a sede da Sorri Bauru, entidade que há 30 anos faz o trabalho de integração das pessoas portadoras de deficiências. Referência na área a Sorri Bauru é reconhecida internacionalmente.

Na ponta da Nações Unidas, bem no final da avenida, está o Jardim Zoológico. Na verdade, o Zôo de Bauru fica na rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, mas a Nações Unidas é a referência para chegar ao parque. O local é reconhecido como um dos mais completos zoológicos do País.

Além dessas “personalidades”, que estão diretamente ligadas à Nações, outras podem ser destacadas, que são próximas da avenida, como o Centrinho, os câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP), entre outros.

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Ele viu o ‘nascimento’ da Nações Unidas

Se há alguém em Bauru que tem propriedade para falar sobre a avenida Nações Unidas é o aposentado José Ambrósio Filho, de 78 anos. ‘Seo’ Ambrósio nasceu em uma chácara localizada na quadra 2 da rua Saint Martin, ao lado da Nações, quando esta ainda era, tão somente, o ribeirão das Flores.

Ambrósio mora no edifício Brasil-Portugal, construído em 1964 e tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) de Bauru. Mas bem antes do edifício ser construído, ele já conhecia bem o local. “Não tinha nada aqui, era apenas brejo e o ribeirão”, conta.

O aposentado lembra ainda que sobre o ribeirão das Flores havia pontes de madeira ao longo de onde está a avenida, principalmente nas ruas que já estavam abertas, como a Primeiro de Agosto e a Rodrigues Alves.

Outra lembrança viva na memória de ‘seo’ Ambrósio é o ribeirão das Flores. No local onde passa a Nações Unidas, nos dias de hoje, o ribeirão descia livremente, até desembocar no rio Bauru. No entanto, o aposentado lembra que não era possível nadar no riozinho, mas havia uma pequena cachoeira, onde a garotada da época aproveitava para se banhar nos dias quentes de Bauru.

José Ambrósio afirma que passou um pequeno período morando em outro local, mas assim que pôde voltou para a região das Nações. “Há cinco anos comprei o apartamento em que moro. Prefiro morar em casa, mas como aqui é perto da Nações, resolvi comprar”, afirma. Questionado se mudaria para outra região, Ambrósio é categórico: “Não tem lugar melhor que aqui”.