10 de julho de 2026
Bairros

Nações Norte: sonho começou há 24 anos

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 7 min

O poder público caminha, na maioria das vezes, a passos lentos. Às vezes, um projeto pode ser iniciado, mas demora a ser realizado completamente. Veja o caso do Hospital Estadual de Bauru, que começou a ser construído no início da década de 90, teve as obras paralisadas em 1994 e só foi concluído em 2001.

Mas o caso do Hospital Estadual nem demorou tanto, se comparado com outras obras importantes. O prolongamento da avenida Nações Unidas até a rodovia Bauru-Marília (SP-294), a Nações Norte, começou a ser projetada em 1983, na gestão do prefeito Edison Gasparini. Desde então, o projeto foi sendo empurrado com a barriga, até que em 2006, o JC retomou a discussão a respeito da obra, fazendo as autoridades se debruçarem novamente sobre o assunto.

O maior problema é que a Nações Norte foi muito usada em período eleitoral, e depois surgiram vários empecilhos para a construção da avenida. No ano passado, o então governador Cláudio Lembo chegou a assinar a liberação de recursos para a retomada do projeto, mas até o momento, nenhuma verba surgiu e a Nações Norte continua sendo apenas sonho dos moradores de Bauru, principalmente dos bairros vizinho ao córrego Água da Castelo.

O maior problema é um imbróglio judicial envolvendo a construtora Camargo Corrêa. No final de junho passado, o governador paulista Cláudio Lembo chegou a autorizar despesa de até R$ 29 milhões para utilização na obra. A medida tornaria o projeto realidade se não viessem outros obstáculos de cunho jurídico-administrativo.

Após a autorização do governo estadual, era necessário formalizar a retomada do contrato. Mas uma posição firmada junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) levantou que, por se tratar de obra de contrato antigo, assinado ainda durante o governo de Luiz Antonio Fleury Filho, seria necessário realizar nova licitação. Desta forma, o contrato estaria anulado por medida de alguns anos atrás do Estado, que teria considerado a ação amigável.

Mas a empreiteira que venceu a licitação na época, a Camargo Corrêa, continua depositando as garantias anuais previstas (caução). Por isso, a empreiteira não considera o contrato nulo, mas ao contrário, efetivo. Entretanto, o governo estadual questiona a antiga licitação e tem interesse em abrir outro processo, intenção que a construtora não concorda, estabelecendo o impasse que já se arrasta na Justiça. Ou seja, muita água ainda vai rolar debaixo da ponte.

O projeto

O projeto da avenida Nações Unidas Norte, compreendido a partir da avenida Nuno de Assis, onde já foram feitos 500 metros de asfalto, segue o traçado do córrego Água do Castelo e termina na SP-294, a Bauru-Marília. A duplicação de 13 quilômetros da rodovia, concluída no ano passado, incluiu a construção de um trevo, já visando a retomada das obras da Nações Norte.

A construção deste entroncamento também foi muito discutido em 2006, já que o projeto original da Nações Norte previa outro tipo de obra. Na ocasião, o engenheiro civil Izidoro Schafranski Neto, que era secretário municipal de Planejamento, explicou o dispositivo de acesso, a partir dos dois projetos: o primeiro, realizado pelo Escritório Técnico da Seplan, no passado, e, o segundo, de autoria do DER.

De acordo com suas informações, a interseção de uma avenida ou rodovia pode ser feita através de um dispositivo conhecido como trevo. “No primeiro (feito pela Seplan) foi projetado um sistema viário diferenciado, maior. Seriam dois tipos de viaduto, com a rodovia passando por baixo. Mais ou menos igual ao que temos na Marechal Rondon no sentido Iacanga. Quando você sai do Parque Vista Alegre e segue em sentido Iacanga. É um complexo”, lembrou.

Já o projeto executado pelo DER na Bauru-Marília é diferente. “O pessoal no DER não aceitou esse trevo, colocou um igual ao sistema que está perto do Parque Zoológico, no final da Nações Unidas Sul, com a rodovia passando por cima”, exemplificou Schafranski.

Em sua avaliação, a mudança não descaracteriza em nada o prolongamento da avenida Nações Unidas. “A única coisa que a gente coloca, em termos de engenharia, é o que pode acontecer depois de executado, daqui a 10, 20 anos, isso (o trevo) estar saturado. Aí será necessária uma nova intervenção para fazer um novo viaduto de transposição para poder melhorar o sistema. O sistema como estava sendo previsto, daria para (suportar o tráfego) em 40, 50 anos.”

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Prolongamento traria benefícios

Não há dúvida que uma obra da magnitude da avenida Nações Unidas Norte traria inúmeros benefícios aos moradores e comerciantes da região. Até porque, se a obra for retomada, poderá tornar viável a implantação do Parque do Castelo, cujo projeto também existe há mais de 20 anos, mas nunca saiu do papel.

Uma área verde de 14,7 alqueires, dotada de nascentes, mata nativa e recortada pelo córrego Água do Castelo, a menos de três quilômetros do Centro de Bauru, é uma reserva ambiental que poderá se transformar em um novo cartão-postal do município. Apelidado de “Ibirapuera de Bauru” pelo arquiteto Jurandyr Bueno Filho, idealizador do Parque Vitória Régia, o Parque do Castelo poderá mudar o cenário da cidade e transformar um vazio urbano em uma área de lazer, cultura e entretenimento.

O parque está localizado entre o Jardim Godoy e o Parque Vista Alegre e tem importante valor histórico, pois foi, no passado, o local onde imigrantes espanhóis encontraram minas d’água, de onde engarrafaram a Água do Castelo, comercializada na cidade e fonte de produção de bebidas.

A viabilização da Nações Norte é esperada com ansiedade por moradores dos bairros no entorno do local e por comerciantes que apostaram suas fichas na visibilidade da Nações Unidas. É o caso de Paulo Zakabi, dono de uma loja de som para automóveis na quadra 1 da Nações.

Para ele, se a Nações Unidas Norte for construída, a região será ainda mais valorizada, principalmente porque possui toda infraestrutura necessária para atender quem passa pelo local. “Além da rodoviária, que é perto daqui, temos o aeroporto, que também está próximo e uma faculdade está se instalando na região. Se abrirem a Nações Norte, tem tudo para melhorar ainda mais”, salienta.

Zakabi está há 20 anos no mesmo local e afirma que não o trocaria por lugar nenhum da cidade. Segundo ele, se for para expandir o negócio, seria na mesma avenida. “Quando nós decidimos abrir o estabelecimento, o pessoal da prefeitura indicou essa região. Não tenho do que reclamar, porque o local é ótimo”, ressalta.

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A vida noturna e os problemas

A avenida Nações Unidas é rica, em sua essência, por tudo o que ela pode oferecer. Como vimos na página 2, a via tem de tudo, desde igrejas até sex shop, além de uma série de estabelecimentos destinados ao entretenimento, como o Teatro Municipal de Bauru e a Danceteria W.

A vida noturna é extremamente agitada na Nações, já que na região próxima ao shopping se concentram os bares, restaurantes, lanchonetes, pizzarias, choperias e churrascarias. O movimento é intenso na avenida e atrai pessoas dos quatro cantos de Bauru, e, porque não, até quem vem de fora. Afinal, não é em qualquer cidade que você tem o leque de atrações que a Nações oferece.

Apesar dessa vida agitada, de dia e de noite, a Nações sofre com problemas conhecidos de todos, dois em especial: os buracos e as enchentes. Em alguns trechos, a avenida tem problemas no asfalto, mas a maior e constante preocupação de quem utiliza a via são as enchentes.

Não é de hoje que o problema atinge a Nações, e a solução não parece estar próxima. Já houve lugares mais críticos, mas atualmente, o ponto que dá mais problema em dia de chuva é próximo ao viaduto da ferrovia. O local é uma baixada e a água da chuva escoa de vários pontos no entorno da avenida para aquele ponto específico.

Mas já foi bem pior, como lembra o comerciante Carlos Eduardo Bormio. “Hoje até que melhorou. Só tem um ponto crítico de alagamento, perto da ferrovia. Mas antigamente era impossível transitar pela Nações em dia de chuva”, afirma.

O aposentado José Ambrósio Filho também lembra bem das enchentes memoráveis da Nações. “O problema é que isso aqui era um brejo, tinha mato, terra. Chovia e a água tinha para onde escoar, mas agora está tudo asfaltado e não tem saída, por isso alaga tudo”, comenta.