09 de julho de 2026
Geral

Encontro vai comemorar 20 anos de Luta Antimanicomial

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Saiu de um congresso em Bauru, há exatos 20 anos, o primeiro documento antimanicomial do País, que forneceu as diretrizes para as políticas utilizadas atualmente em todo Brasil. Com isso, a cidade se tornou a precursora da implementação de uma rede de atendimento psiquiátrico voltado à socialização dos pacientes.

Inspirado neste evento de 1987, será realizado em Bauru, entre 6 e 9 de dezembro, o encontro nacional “20 Anos de Luta por uma Sociedade sem Manicômios”. No decorrer de todos os dias, atividades variadas serão realizadas simultaneamente nas dependências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Paulista (Unip) e Universidade do Sagrado Coração (USC).

Os organizadores aguardam confirmação das presenças dos ministros da Cultura, Gilberto Gil, e da Saúde, José Gomes Temporão, que foram convidados a participar da abertura oficial do encontro, às 19h do dia 6, no anfiteatro Guilhermão. No mesmo dia e local, a partir das 21h, haverá show com o músico Tom Zé.

O objetivo do evento é refletir sobre as conquistas obtidas em duas décadas de Luta Antimanicomial, discutir as falhas ocorridas durante o processo e apontar soluções para os problemas que ainda persistem quanto às políticas públicas na área de saúde mental.

O encontro é uma realização da prefeitura de Bauru, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Conselho Federal de Psicologia e Conselho Regional de Psicologia (subsede Bauru), com apoio do Jornal da Cidade, Rede Internucleos da Luta Antimanicomial, Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, Unip e USC.

Os interessados em receber certificados devem fazer inscrições até o dia 3 de dezembro pelo site www.pol.org.br, ao custo de R$ 60,00 (profissionais), R$ 40,00 (estudantes) e R$ 3,00 (usuários). Também através do site, é possível inscrever trabalhos para serem apresentados oralmente durante o encontro e propor temas para as rodas de conversa, que serão realizadas no anfiteatro da Central de Salas de Aula da Unesp.

Internar não é preciso

Há 20 anos, Bauru começava a discutir com a sociedade a saúde mental e questionar o papel dos manicômios brasileiros, durante o 2.º Congresso de Trabalhadores da Saúde Mental, em 1987. “Até então, a única opção eram os hospitais psiquiátricos, em que pessoas abandonadas pelas famílias ficavam isoladas do convívio social”, comenta Celso Zonta, professor de psicologia da Unesp e militante do movimento antimanicomial.

Atualmente, a política de saúde mental no Brasil visa garantir o cuidado ao paciente com transtorno mental em serviços substitutivos ao atendimento até então prestado exclusivamente em hospitais psiquiátricos. Gradativamente, os internos dos hospitais vem sendo transferidos para residências terapêuticas, que oferecem atividades para devolver, dentro do possível, autonomia e dignidade aos acometidos por doenças mentais.

Só em Bauru, existem oito abrigos com essas características, a grande maioria deles cuidando de pacientes oriundos do Instituto Lauro Souza Lima (Paiva). Além disso, funcionam na cidade três centros de atenção psicossocial (Caps), um para atendimento de pessoas com problemas alcoólicos e drogas, outro para crianças e o último para adultos em geral.

Mesmo com os avanços, os integrantes da Luta Antimanicomial defendem a constituição de uma rede integrada de tratamento de saúde que permita a atenção ao portador de sofrimento mental junto de sua família, a completa abolição das internações em hospitais psiquiátricos e, ainda, ações que permitam a reabilitação psicossocial por meio da inserção pelo trabalho, cultura e lazer. “Em Bauru, nós ainda não temos o Caps 24 horas para atender pacientes em crise psicológica intensa. Esta é uma das deficiências que precisam ser supridas”, observa Zonta.