“Tentar ser como a primavera,
Deixar que lhe
cortem os galhos
E a cada ano ressurgir mais bela” (Cecília Meirelles)
Claro que estes versos ditos assim, deixar-se ferir para ser melhor, parece insensatez. Todavia, a insensatez, uma condição humana, é uma palavra carregada de tão múltiplos significados e significantes.
Insensatez extrapola as letras, carregando em si, além da denotação, uma conotação muito mais abrangente que o próprio significado, porque traduz e induz às coisas da alma.
A alma humana tão assoberbada com a trabalheira de driblar problemas, acalmar as ansiedades, não dar vez à saudade, de tentar caminhar com alegria, seja noite ou seja dia, usando a sabedoria, custe o que custar. E a alma injustiçada, apesar das agruras desta vida dura, aconteça o que acontecer não se deixar abater.
Sim, insensatez faz parte de nossa humanidade. A nossa alma, essa subjetividade mais complexa, carregada de concretude em sua abstração, carrega em seu âmago a nossa insensatez. Insensatez é fruto do momento. Um momento que expulsou a logicidade e o equilíbrio, e, deixou-se levar pela paixão.
É resultante de um sentimento louco, que nos induz a pagar pra ver. Querer ir além do imponderável e tentar o até então inaceitável.
Dizer palavras loucas, sem senso, que acabam por nos levar também, às atitudes sem sentido, a caminhos até então desconhecidos e sem volta. Atalhos obscuros. Tiro no escuro!
Depois o arrependimento, de não poder voltar, outra vez, à trilha percorrida. Deveras, o tempo não volta. Nem tampouco o tempo pára. Ele dispara e, nessa corrida louca, o que ele quer é nos derrubar, nos passar a perna, nos deixar pra trás.
E a gente vai vivendo equilibrando, vai levando, vai tentando resgatar o que se perdeu nas podas da estação que passou. E acabamos aprendendo que nem sempre dizemos às palavras que queremos. E, nem sempre somos capazes de mostrar a plenitude do que sentimos. E, então, fazemos como a primavera.
Antecipamos a perda, pra não perder depois, ou não perder pra sempre. E continuamos a nos deixar sofrer, confiando que nossas folhas e flores virão com mais exuberância na estação seguinte.
E começamos a entender essa coisa mais louca - nossa humanidade - que nos faz prisioneiros da insensatez de esconder a frustração e o medo de perder. Quem me dera ser como as primaveras...
Deixar que lhe cortem os galhos e, a cada ano, ressurgir mais belas.
*Ercília Ferraz de Arruda Pollice Escritora, poeta e colaboradora de Ju Machado Escritório de Arte.